Hamnet, Song Sung Blue & ...Legs... | Sessão Tripla do FDS #3 das Mães em Sofrimento

Críticas Gerais

Seguindo com o formato de mini conversas rápidas sobre três filmes que assisti no final de semana, dessa vez consegui prestigiar os longas que faltavam para mim dentre os que estão na categoria de Melhor Atriz no Oscar desse ano. Neste final de semana, fiz a dobradinha no cinema com “Hamnet” e “Song Sung Blue”, além de conseguir acesso ao “If I Had Legs I’d Kick You”, por meios - vamos dizer assim - fora das telonas (insira aqui aquela trilha maravilhosa, do Hans Zimmer, de Piratas do Caribe - sim, aqui no interior alguns filmes não chegam, infelizmente).

 

Voltando ao que interessa, são três filmes que estão presentes no Oscar, com apenas um deles em mais categorias, o “Hamnet”. De fato, o filme da Chloé Zhao é o melhor dos três em diversos aspectos. Agora, no âmbito individual, a briga para melhor atriz esse ano está muito boa. Acerca das outras duas atrizes indicadas, já comentei em outros textos aqui no Peliplat (falo da Renate Reinsve, em “Valor Sentimental”, aqui; e da Emma Stone, em “Bugonia”, aqui). Apenas para deixar claro: Renate está impecável no longa de Joachim Trier, já Emma se encontra cada vez mais à vontade com Yorgos Lanthimos, porém particularmente essa nova produção da parceria entre os dois não me cativou tanto, para mim é um dos piores filmes da lista dos dez indicados. Mas, voltando… Os três filmes da sessão de hoje tratam de mães em sofrimento, seja ele na forma de luto, de frustração, e de crise de identidade.

 

Hamnet - A Vida Antes de Hamlet

Dirigido por Chloé Zhao, e estrelado por Jessie Buckley e Paul Mescal, “Hamlet” conta a história de um trauma marcante na vida do casal William Shakespeare (Mescal) e Agnes (Buckley), o que levou ao maior dramaturgo de todos os tempos escrever sua obra atemporal “Hamlet”. Aqui, temos o mais emocionante dos três. Longe de amarras do mito do gênio, encontramos um Shakespeare mais humano, menos mítico. Apenas um cara tentando ganhar a vida, apaixonando-se por uma moça misteriosa. Agnes, por sua vez, é uma personagem viciante. Sua conexão com a natureza e o sobrenatural acaba fisgando nossa atenção através da performance avassaladora de Buckley. É impressionante a forma visceral da qual ela imprime em tela, seja sofrendo no parto ou lidando com o luto silenciosamente com pontos de raiva efervescente.

Hamnet' é baseado na história real de William Shakespeare? - Rolling Stone  Brasil

Além dos protagonistas, há de se exaltar a relação brilhantemente linda (e manipulativa, claro - mas, afinal, faz parte do cinema, certo?) entre os dois irmãos gêmeos, Hamnet e Judith. Lembrou-me um sentimento parecido com alguns filmes em que dois irmãos passam por momentos de sofrimento. O mais icônico, sem dúvidas, é o clássico do Studio Ghibli “Túmulo dos Vagalumes”, de Isao Takahata. Claro, cada sofrimento tem suas proporções, mas nos dois casos presenciamos uma fraternidade pulsante, uma parceria dilacerante que acerta em cheio nossos corações.

Tráiler oficial de 'Hamnet' (2025)

Alerta de spoiler aqui, mas preciso descrever abertamente: Hamnet e Judith são acostumados a fazer algumas gracinhas com um se passando pelo outro, pensando que conseguem enganar os outros só por serem gêmeos, e é nessa ingenuidade maravilhosa das duas crianças que uma das cenas mais tristes do filme se ancora. Judith está muito doente há dias, até que Hamnet dorme ao lado dela, falando que gostaria de dar a sua vida para que ela fique melhor, além de comentar que estando lado a lado, eles iriam certamente enganar a Morte. Foi aqui que o filme impetuosamente cortou meu coração.

Foto do filme Hamnet: A Vida Antes de Hamlet - Foto 3 de 16 - AdoroCinema

Por conclusão, temos um drama avassalador que demonstra como a arte se torna cura e maldição na hora de lidar com o luto. Shakespeare encontra no seu ofício uma forma de conviver com a dor de perder um filho, não necessariamente superar, mas apenas continuar existindo com esse fardo. Em contrapartida, vemos Agnes sofrendo tudo aquilo sozinha, ao vivo, 24 horas por dia, sem tempo para descanso. Era Agnes que estava presente em todos os momentos de seus filhos, são com suas reações que conseguimos sentir a dor aguda no peito. Jessie Buckley, certamente, é uma das favoritas ao Oscar de Melhor Atriz, e Chloé Zhao merece profundamente o prêmio de direção, ao retratar de forma naturalista e humanista o cotidiano dessa lenda (e obra) atemporal. Um dos grandões da temporada! Fui embora do cinema chorando ainda…

Crítica | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Com Spoilers) - Plano Crítico

 

Song Sung Blue: Um Sonho a Dois

Dirigido por Craig Brewer, e estrelado por Kate Hudson e Hugh Jackman, “Song Sung Blue” conta a história real de um casal de músicos que se conhecem em uma fase de frustração dos caminhos em que suas vidas estão seguindo, até que formam uma banda duo chamada “Lightning & Thunder” (ou Relâmpago & Trovoada, na tradução). Mike (Jackman) cujo nome artístico é Lightning, é um músico que se encontra desiludido com o rumo de sua vida. Quando completa 20 anos de sobriedade, encontra Claire (Hudson), uma cantora que faz apresentações cover de Patsy Cline. Os dois trocam suas frustrações e desejos, dos quais parecem cada vez mais distantes à essa altura da vida. Nisso, chegam à conclusão que precisam fazer um duo em tributo ao cantor Neil Diamond.

Song Sung Blue" é baseado em história real? Entenda | CNN Brasil

É preciso mencionar alguns fatores externos neste aqui. Muito se fala sobre o fato de ser um potencial Oscar bait deste ano, além da forte campanha nos 45 minutos do segundo tempo para a indicação de Kate Hudson no Oscar. Outro carimbo presente nos comentários que andei analisando nas críticas gerais é que o filme tem muita ‘cara de sessão da tarde’, como se fosse algo pejorativo, negativo. Em alguns textos aqui no Peliplat, já comentei o quanto detesto quando as pessoas usam o termo ‘sessão da tarde’ de forma depreciativa. Particularmente, adoro filmes sessão da tarde. E este aqui é um dos bons. Sem contar que achando merecido ou não, Kate Hudson está deslumbrante aqui, com uma atuação não tão brilhante quanto das suas concorrentes, mas que emociona onde o filme pede sentimentos de frustração.

Crítica: Song Sung Blue é um romance musical simples e eficiente -  Observatório do Cinema

Há muita verdade na frustração entre os dois protagonistas. Por mais que para alguns possa ser apenas mais uma biopic musical, para mim foi algo mais humano, e menos performático do que uma cinebiografia usual. Como mencionei nesse texto sobre a genialidade retratada nesse sub-gênero musical, esse tipo de filme é um dos meus favoritos. E “Song Sung Blue” vai além da estrela. Mergulha no universo dos Covers (minha família aí - mesmo sobrenome e tals). Covers de James Brown e Buddy Holly são alguns dos destaques aqui. Por mais que haja uma emulação do artista original, não se tem glamour. Aqui temos a triste realidade de um cantor ganhando a vida na noite, em algum restaurante tailandês, com ninguém prestando atenção. Aqui temos poucos aplausos, pouco retorno financeiro, e muita resiliência dentro de um sonho antigo.

Song Sung Blue Trailer: Hugh Jackman, Kate Hudson Sing Neil Diamond

Por fim, podemos destacar a excelente química entre Jackman e Hudson, transmitindo a persistência de um casal em crise, adaptando a convivência de seus filhos de outros casamentos, lutando pelos seus objetivos, dividindo o palco e o sonho, com ótimos números musicais inclusive. Aliás, a trilha aqui é de um deleite espetacular. Não só as músicas de Neil Diamond, mas as outras como “Everyday”, de Buddy Holly, por exemplo. Adoro essa. Concluo que adquiri um caminho forte por este filme, pois assisti com minha mãe no cinema e adoramos e nos emocionamos. Chame de bait ou sessão da tarde, temos um ótimo filme aqui. Aliás, a cantora e compositora King Princess, um dos principais nomes recentes do indie rock alternativo nova-iorquino, faz a filha de Hugh Jackman aqui. E Hugh Jackman sendo pai de menina já traz alguns gatilhos fortes, então…

Song Sung Blue (2025) - IMDb

 

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

Dirigido por Mary Bronstein, e estrelado por Rose Byrne, “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” conta  a história de Linda, uma mãe terapeuta que vê sua vida desmoronar enquanto lida sozinha com sua filha doente, utilizando sonda de gastrostomia. Basicamente, é um ‘Eraserhead for girls’, dada a temática parental e seus vislumbres oníricos e alucinógenos que deixariam Lynch, no mínimo, intrigado.

Crítica | Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I'd Kick You)  [27ª Festival do Rio] – Vi nos Filmes

Podemos inferir que Rose Byrne se encontra ao lado de Jessie Buckley como favoritas ao Oscar desse ano (minha torcida é total da Renate Reinsve, mas todas aqui estão fascinantes). Linda é uma personagem hipnotizante, até pela forma como Bronstein enquadra seu rosto o tempo todo em tela, fazendo com que acompanhemos cada passo e reação da atriz. É possível faltar o fôlego de ansiedade só de acompanhar tamanho desespero que essa mãe está passando. Seja na forma como ela come, ou bebe, ou dorme, parece que ela está prestes à explodir a qualquer minuto. Outro ponto que se soma a isso é o fato da câmera não mostrar sua filha, reforçando a sensação claustrofóbica fixa na protagonista.

IF I HAD LEGS I'D KICK YOU - Philadelphia Film Society

Além disso, podemos comentar sobre as inúmeras interpretações para certas decisões criativas que o filme adota. Por exemplo, sempre que uma porta se abre começa a tocar uma trilha meio esperançosa, quase como se fosse um coro, remetendo-nos à refletir sobre o quanto Linda está se sentindo encurralada nessa situação, sendo representada em ambientes completamente claustrofóbicos. A trilha quase ‘milagrosa’ das portas se abrindo nos aponta uma saída, como se a protagonista tivesse que sair por alguma delas, da qual não se sabe qual, para sair de todo o caos instaurado. Sem contar a ausência física e empática de todos os personagens masculinos aqui, principalmente do marido de Linda.

Rose Byrne plays a mother on the edge in Mary Bronstein's If I Had Legs I'd  Kick You - ABC News

Outro ponto a ser observado, é a relação do buraco do teto da casa com o buraco presente na filha de Linda, por conta da gastrostomia, transmitindo uma sensação de invasão. Afinal, em termos técnicos, trata-se de um procedimento invasivo. Como se não só o corpo da mulher estivesse sendo invadido, mas sua alma também, ou sua casa, ou o próprio rumo da vida da protagonista, da qual - em certo ponto - revela que nunca se viu sendo mãe, que aquilo era um ofício que não fazia parte de sua personalidade. Há uma questão maternal, sem romantização de nada, muito potente aqui, e Rose Byrne é o maior ponto de destaque do longa, certamente. Uma das grandes surpresas de drama de horror psicológico do ano.

The Virtuosic Maternal Freakout of “If I Had Legs I'd Kick You” | The New  Yorker

Portanto, esta foi mais uma Sessão Tripla do Final de Semana (FDS). Tenho feito este formato algumas vezes, além do “Dobradinha” e dos outros textos casuais sobre um filme por vez. Estes três filmes vão protagonizar uma das categorias mais interessantes do Oscar esse ano. Todas as cinco atuações estão de encher os olhos, e qualquer uma que ganhar será de muito merecimento - na minha opinião, é claro!

Comentários 0

Ainda não há comentários.

Deste autor