Por que o mundo - ainda - precisa do Superman?

Aspectos Socioculturais

No auge dos grandiosos anos 2000, mais especificamente em 2006, testemunhamos a volta do azulão nas telonas com "Superman - O Retorno", de Bryan Singer, do qual Lois Lane (interpretada por Kate Bosworth) havia conquistado o Pulitzer com o artigo "Por Que o Mundo Não Precisa do Superman?". Tal indagação explorava, além da metalinguagem, nossa sociedade como um todo. Afinal, estávamos precisando mesmo do Superman?


De qualquer maneira, a história do cinema estava passando por um grande momento que seria lembrado como a Era dos Filmes de Super Heróis, todos sabem como foi ("foi", porque é evidente a saturação deste subgênero atualmente). Marvel e DC simplesmente começaram a encabeçar as bilheterias do mundo todo com seus diversificados heróis. Seria natural o primeiro super herói estar entre os mais populares dessa época. No entanto, "O Retorno" não caiu nas graças do público e da crítica, deixando o último filho de Krypton na geladeira até 2013, quando um tal diretor "visionário" repaginou o personagem à sua maneira. Sinceramente, ame ou odeie, Zack Snyder fez todo mundo discutir Superman novamente. De um lado, os fãs fervorosos do diretor que concordavam com aquela onda de "Superman do Mal" que assombrou os anos 2010 em diversas mídias. Por outro, estavam os puristas do herói das HQs que acreditavam que aquilo não fazia parte da essência do personagem. Estávamos todos lá, mas a questão é: naquela época, o mundo ainda se importava com o Superman?


No início deste texto, procurei enfatizar os anos 2000 como "grandiosos", devido à frequente nostalgia que nutro por este período. Mas isto é assunto para outros comentários cinematográficos futuros (espero). A nostalgia 00's da vez está toda focada nas animações da DC dessa época. Todos lembram dos desenhos "Liga da Justiça" e "Liga da Justiça Sem Limites", filhos do fantástico universo de Bruce Timm e Paul Dini, sendo iniciados pelas séries animadas do Batman e do próprio Superman (a do Homem Morcego, inclusive, dispensa apresentações). Todas as versões do Superman (animações, live-action etc) têm particularidades muito interessantes, mas o destas séries animadas tem algo especial. Ele é totalmente humano, sofre com suas perdas, demonstra suas inseguranças, até visita seus pais no Natal (este episódio rende momentos incríveis como o Caçador de Marte usando um suéter feito pela Martha Kent). Resumindo, antes do Superman, até do próprio Kal-El, existe o Clark, um cara simples criado no Kansas que sempre tenta ver o lado bom das pessoas. Este é o Superman que cresci assistindo e que sempre quis ver um dia nos cinemas. Contudo, à medida que os anos passavam, não era o Superman que estampava as camisetas da cultura pop. Estava claro que realmente ninguém sentia falta dele. Os filmes de super heróis já estavam muito avançados e, com certeza, os que continham o Superman não eram os mais queridos do público (Batman vs Superman que o diga). A pergunta, então, agora era: ainda há espaço para um herói tão piegas e brega como Superman?

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É notável o quanto o Superman deixou de ser um personagem popular para o grande público de cinema. Já para os amantes da nona arte, ele nunca deixou de ser. E dentre estes fãs nerds de histórias em quadrinhos, havia um cineasta muito particular. Um cara que faz filmes de super herói e, realmente, gosta disso, cresceu com isso. James Gunn ganhou notoriedade pelo seu jeito criativo de contar histórias com personagens não convencionais, além da criação de mundo inventiva com seres bizarros e animais fofos. Não estamos falando sobre Marvel aqui, mas é necessário enfatizar o quão extraordinário foi quando Gunn fez o mundo todo virar fã dos Guardiões da Galáxia. Vale ressaltar que o universo todo da Marvel tem um escopo sensacional de personagens como Homem Aranha, Vingadores e X-Men. Então, quando víamos pessoas realmente se interessando por um guaxinim falante e uma árvore que só fala uma frase, era nítido que esse cara que cuidou do roteiro dos melhores filmes dos anos 2000 (lê-se os dois filmes do Scooby-Doo) conseguia tirar leite de pedra. Até que depois de muitas voltas que o mundo dá, esse cara se torna o co-CEO da DC Studios e a principal mente criativa do novo universo compartilhado da DC nos cinemas. Por ironia do destino, esse diretor “disruptivo” e muito reconhecido pela sua abordagem cômica, aceitou a maior missão de sua carreira: fazer um filme do Superman. O verdadeiro, no caso, sendo piegas, brega e escoteiro careta. Em um primeiro momento, não fazia muito sentido. Mas, bastaram apenas poucos minutos para o próprio fã perceber que isso fazia todo o sentido. "In James Gunn We Trust", eles diziam. Coube a Gunn a missão de resgatar aquele sentimento de fascínio adormecido das pessoas com o kryptoniano. Entretanto, em um contexto com muitos filmes de super herói genéricos com a fórmula cansada já saturada, as pessoas ainda precisam do Superman?

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De modo soberbo, a resposta é simples, tal qual o personagem. Super Simples, eu diria. S de sim, precisamos dessa esperança de novo! O mundo continua cada vez mais caótico no âmbito geopolítico. A saúde mental de toda a população continua alarmante e este sentimento tão comum de que estamos ainda mais solitários, individualistas e egoístas perdura amargamente. Precisamos de filmes como Superman, de James Gunn. Por mais que seja, no fundo, apenas mais um filme de herói, evidenciando sérios problemas do gênero, ainda assim é um filme muito bom do Superman (repito: filme bom do Superman, é diferente). É aí que está a questão. Superman nunca foi para ser abordado de forma complexa, pois a sua complexidade está na simplicidade de como ele vê o mundo. E existem momentos em que precisamos disso. Estamos acostumados a complicar tudo, teorizar, desumanizar todas as obras que consumimos, tratando tudo como um simples produto que deve ser consumido de forma satisfatória. Isso não é arte. 


Há de se discutir seriamente a diferença entre arte e entretenimento (pretendo, inclusive), e, definitivamente, este filme é muito mais a última definição do que a primeira para o grande público. Contudo, há muita arte em Superman (2025). A arte de ir ao cinema despretensiosamente com a família e ter um momento raro e feliz. Temos muitos exemplos de filmes como este que, apenas, entretêm, e está tudo bem. Ao passo que temos escassas amostras mais "artísticas" que acabam conquistando destaque na crítica. Algo que está intrinsecamente ligado à arte é a autoralidade. E Superman, de Gunn, é muito autoral, para o bem e para o mal. É nítido a assinatura do diretor, por mais que decaia perante as armadilhas do gênero (que o próprio ajudou a construir), as criaturas bizarras e ambientações não convencionais estão ali. Com todas as imperfeições, a principal está no fato de que existem muitos personagens em cena e pouco desenvolvimento para todos, o que acaba deixando tudo muito cheio e raso. Porém, a graça disso tudo não está nos vários personagens em tela, mas sim no cara gente boa do interior que está fazendo a vida na cidade grande, aprontando poucas e boas com seu cachorro trapalhão (Sessão da Tarde não é e nunca deveria ser pejorativo!). O detalhe é que este cara é o ser mais poderoso da Terra, simples assim. Super herói não é para ser complexo, necessariamente. Nem mesmo o Superman. Ele tem família, como nós, discute com seu par, como nós, erra, como nós, acerta, como nós (por incrível que pareça), emite opiniões, como nós, acorda todo dia e tenta fazer seu melhor, como o próprio menciona no filme. Isto foi muito punk rock da parte dele (ótima trilha, aliás).


Em suma, James Gunn não traz neste filme seu melhor roteiro, nem sua direção mais inspirada. Superman é um filme cheio de personagens e erros do subgenêro mais famoso dos últimos anos, mas é leve como a vida tem que ser nos seus momentos raros. Peço licença para falar sobre minha experiência: com certeza, estava esperando ver esse filme há muito tempo, mas poderia esperar um pouco para assistir em um final de semana aleatório. No entanto, surgiu a oportunidade de assistir com minha mãe na pré-estreia. Foram 2 horas de um momento muito especial. A graça de ter vivido todos esses anos discutindo se Superman deveria ser sombrio ou não, de ter vivido toda essa complexidade nos universos cinematográficos (até multiversos), a verdadeira graça disso é perceber que, anos depois, assistir um filme sem a menor pretensão com sua mãe vale muito. Vale super. Honestamente, não posso responder verdadeiramente a pergunta do título, representando todos. Mas, ainda assim, o que posso afirmar é que eu precisava do Superman naquele momento... e ele apareceu. Ou melhor, ele voltou!

 

 

Comentários 2

G
Gabriella Moreno14 de julho de 2025
kkkkkk tô brincando, mandou bem no comentário
G
Gabriella Moreno14 de julho de 2025
E o Krypto?

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