Com o passar do tempo, sempre teremos Casablanca
PersonagensUm dos maiores clássicos hollywoodianos, lançado em plena Segunda Guerra Mundial, “Casablanca” é um daqueles filmes praticamente obrigatórios para os amantes da sétima arte. Sua relevância se provou ainda maior com o tempo, pois mesmo depois de 84 anos do seu lançamento, continua sendo impecável em diversos aspectos.
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Seja na fotografia em preto e branco, nas atuações melodramáticas memoráveis dos protagonistas, ou nas suas frases inesquecíveis de seu roteiro emblemático, a imagem de Rick e Ilsa se despedindo no meio da neblina naquele aeroporto perdura até hoje nos quadros e pôsteres espalhados pelos cinemas mundo afora. Até mesmo quem nunca assistiu, reconhece a partir de suas inúmeras referências presentes em diversas obras da cultura pop.
Dirigido por Michael Curtiz, com roteiro de Howard Koch, Julius J. Epstein e Philip G. Epstein, estrelado por Humphrey Bogart (Rick Blaine), Ingrid Bergman (Ilsa Lund) e Paul Henreid (Victor Laszlo), “Casablanca” conta a história de amor perdido entre Rick e Ilsa enquanto o mundo desmorona em plena guerra no início da década de 40. O filme começa nos apresentando de forma quase documental a atual situação da cidade de Casablanca, no Marrocos. Naquele contexto, era um território neutro do qual servia como rota de fuga onde diversos refugiados se encontravam a fim de adquirir vistos rumo à Lisboa, território europeu que não estava envolvido com a guerra, logo longe da expansão nazista do continente.

Tecnicamente, mesmo se tratando de um filme lançado há mais de 80 anos, seu ritmo e montagem não soam cansativos e monótonos. Muito pelo contrário. Apesar de ter apenas um pouco mais de 1 hora e 40 minutos, temos muitas informações por minuto, prendendo nossa atenção durante toda a metragem. Seja pelo roteiro rico dando ênfase no contexto da época ao mesmo tempo que constrói a atmosfera da cidade, ou seja por optar por estruturas básicas e muito competentes para fazer o público embarcar neste drama, com flashbacks e monólogos que entregam substância àqueles personagens.

Entretanto, o ponto aqui não são suas partes técnicas ou a magistralidade em torno da iconografia que “Casablanca” criou. O ponto é sobre a história de amor perdido entre Rick e Ilsa. Ao longo do filme, vamos descobrindo os papeis de cada um em torno desse triângulo amoroso, e esta é uma das graças que prendem nossa atenção. E quando finalmente lidamos com o contexto geral, deparamo-nos com o dilema principal do protagonista, tendo que lidar com o peso de uma escolha que lhe marcará para sempre.

Ilsa estava casada com Laszlo, importante líder da resistência tcheco-francesa contra os nazistas. Até que certo dia, Laszlo acabou sendo capturado e preso em um campo de concentração. Muitas notícias foram espalhadas sobre seu paradeiro, uma delas - que confirmava seu assassinato - chegou até os ouvidos de Ilsa, fazendo-a ficar sozinha pelas ruas de Paris.

Algum tempo depois, Ilsa se encontra com Rick na Cidade Luz. Rick é um americano exilado, ex-ativista político e idealista que havia lutado contra os fascistas no seu passado. Rick e Ilsa começam a viver uma paixão efervescente nas ruas de Paris por alguns dias, dividindo momentos românticos, alguns deles ao som de “As Time Goes By” tocada ao piano por Sam (Dooley Wilson), um amigo do casal. Esse ‘amor de verão’ perdura até o derradeiro dia que os nazistas invadem a cidade. Na tentativa de recomeçar a vida e se refugiar para outro lugar, Rick combina com sua amada para se encontrarem na estação de trem no dia seguinte.
O momento chega, e com ele uma chuva devastadora cai sobre as ruas de Paris. Rick chega à estação e espera pelo grande amor de sua vida. No entanto, apenas Sam aparece segurando uma carta deixada por Ilsa. Nesta carta, Ilsa deixava claro que ela não poderia seguir viagem com Rick, e que os dois não iriam mais voltar a se ver. Desolado, Rick sobe ao trem, ao lado de seu amigo pianista, rumo ao desconhecido, sem a mulher que sonhou um dia construir uma vida juntos.

Com o passar do tempo, Rick adota uma postura aparentemente neutra em relação à geopolítica, abrindo um bar em Casablanca chamado “Rick’s Café Americain”. Sam além de pianista do Rick’s, é o grande parceiro de negócios de seu administrador. Além disso, o Rick’s acabou se tornando um dos principais pontos de encontro da cidade, sendo frequentado por amigos e inimigos de toda a parte desse contexto bélico.

Sendo vigiado de perto pelo corrupto capitão Renault (Claude Rains), Rick acaba ajudando alguns refugiados a conseguirem os tais vistos para Lisboa. Depois de uma confusão envolvendo a prisão e o assassinato do contrabandista Ugarte (Peter Lorre), do qual detinha dois valiosos salvo-condutos, Rick se torna o detentor dos documentos. Sabendo da importância de tais vistos, Rick os esconde em um local seguro, atraindo a desconfiança do Major Strasser (Conrad Veidt), comandante nazista que acabou de chegar em Casablanca e está trabalhando ao lado de Renault para capturar um importante foragido de campo de concentração.

Certa noite, de todos os botecos e bares do mundo todo, Ilsa aparece no salão de seu antigo amado, ao lado de um homem. Este homem é justamente Victor Laszlo, o tal foragido do campo de concentração. Laszlo e Ilsa estavam à procura dos dois salvo-condutos de Ugarte. Porém, o que ninguém sabe é que esses documentos estão com Rick agora. Por sua vez, ao ver o antigo amor de sua vida, Rick acaba sofrendo mais uma vez tal desilusão amorosa, revivendo suas dolorosas memórias em Paris.

Foram curtos dias intensos em Casablanca até Laszlo e Ilsa conseguirem os documentos para Lisboa. Neste meio tempo, depois de ouvir novamente “As Time Goes By” no piano de Sam e discutir as coisas que ficaram por dizer, Rick e Ilsa se encontram em uma situação delicada. Ilsa revela que naquela noite da fuga de Paris, ficou sabendo do paradeiro de seu marido ferido. Àquela altura, acompanhamos que os dois viveram Paris de forma intensa sem saber nada sobre o passado um do outro. Os dois se apaixonaram vividamente por apenas aquelas pessoas que estavam vivendo aquele momento. Sem tempo para pensar sobre nada, apenas vivendo.

Rick precisa tomar uma decisão. Ou usa os salvo-condutos ao lado de Ilsa e foge para Lisboa, ou entrega para Laszlo seguir sua luta, da qual outrora também fazia parte. Rick sabe da importância da figura de Laszlo, mesmo adotando uma postura mais cínica - como o próprio Renault menciona, Rick no fundo era um sentimentalista. Laszlo era uma pessoa de extrema importância para a resistência. Podemos, inclusive, perceber sua influência em uma cena memorável no Rick’s com “La Marseillaise” se sobressaindo em relação às canções patrióticas alemãs.
Rick toma uma decisão, depois de algumas reviravoltas envolventes, dignas de cinema noir, e chega à uma conclusão. Ilsa e Laszlo devem ir à Lisboa continuar a luta. E é aqui que temos uma das maiores cenas melodramáticas de Hollywood: a despedida de Rick e Ilsa. Rick celebra e brinda uma última vez o fato de olhar para os olhos brilhantes de Ilsa (“Here's looking at you, kid”). Ilsa o indaga: “e quanto a nós?”. Rick responde que eles sempre terão Paris.

Apesar do gosto agridoce, Paris agora voltava a ser uma memória boa. Não de um jeito fácil, muito menos de um jeito maravilhoso. Apenas uma memória boa. Pois foi bom enquanto durou, foi importante o quanto durou. O mundo estava desmoronando e os dois se apaixonando. Os dois encontraram naquele amor uma fuga. Um respiro em meio aos bombardeios. Por mais que tenha sido real, Ilsa tinha sua vida com Laszlo e Rick tinha seus ideais. Por mais que haja amor, é preciso saber a hora da despedida. É preciso saber e aceitar a importância de alguém e deixar ir. Por mais que houvesse Paris, havia Casablanca.
Dentre os diálogos dos protagonistas, temos frases como: “é uma história que ainda não tem fim”. É curioso o fato do roteiro de “Casablanca” ter sido escrito de forma caótica, já que o roteiro estava sendo finalizado ao longo das gravações. Então, de certa forma, àquela altura, a história não tinha um final, de fato. A própria Ingrid Bergman comentou, posteriormente, o fato dela não saber com quem sua personagem iria ficar até o final das gravações.
Tal dúvida deixa suas cenas ainda mais intrigantes, pois sentimos amor ao mesmo tempo que distância de Bergman tanto com Bogart quanto com Henreid. Essa dualidade resume bem o dilema de toda a incerteza do período. Afinal de contas, muito mais do que apenas uma história de amor, “Casablanca” é abertamente um filme político em um período extremamente conturbado. Os Estados Unidos estavam prestes a tomar uma decisão depois de Pearl Harbor, assim como Rick precisava tomar seu partido de uma vez. Seguiria seu amor com Ilsa ou contribuiria para a luta.

Ao final, Rick fez sua escolha, dando início à uma bela amizade com Renault depois do próprio capitão o ajudar a neutralizar Strasser, na icônica frase de encerramento do filme. Não sabemos o que virá pela frente. Nem para Rick, nem para Ilsa.
Antes de concluir seu plano, Rick arquitetou a venda do Rick’s, deixando seu futuro em aberto em meio ao que ainda estava por vir na Segunda Guerra Mundial. Já Ilsa seguiria a resistência ao lado de Laszlo, rumo ao combate anti-nazista. Seja lá qual for o destino de nossos protagonistas, seria em outro lugar. Não mais Paris. Não mais Casablanca. Pois é preciso virar a página. É preciso seguir em frente. É preciso aceitar o amor perdido. De qualquer forma, os dois sempre teriam Paris. De qualquer maneira, os dois sempre terão Casablanca.








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