Valor Sentimental, Labi Siffre, daddy issues & o silêncio que machuca

Críticas Gerais

O primeiro filme que assisti esse ano foi “Valor Sentimental”, no dia 1º de Janeiro mesmo. E fiquei pensando nele por alguns dias. Na verdade, ainda estou pensando. Gostaria de ter escrito sobre isso antes, porém não consegui. Muito se deve por conta do contexto de início de ano, mas - neste caso, em específico - eu realmente fiquei receoso. Mesmo abrindo meu coração algumas vezes em alguns textos por aqui, não queria escrever de forma nua e crua demais. Já que tudo que me vinha à cabeça eram dores retraídas com gatilhos despertados. Apesar de procurar me distanciar para isso, não consigo ser tão imparcial ou adotar um comportamento blasé em relação ao longa, como tenho notado nas últimas semanas com a temporada de premiações.

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Percebe-se um certo desdém por parte do público, alegando que o filme é parado, que não há explosões, que não chega em um clímax. Eu discordo disso tudo, pois há uma característica crucial no desgaste das relações chamada: silêncio. “The silence that you’re hearing is turning into a deafening, painful, shameful roar”, já dizia The Strokes em “Ode to the Mets”.

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Conforme o tempo, entramos em uma espécie de piloto automático ao ficar impactado com aqueles filmes mais lentos, dos quais apresentam uma ou duas cenas com atuações fervorosas que, por sua vez, acabam sendo utilizadas nas prévias que as premiações costumam mostrar antes de nomear o vencedor. Não estou condenando isto, pois consigo lembrar de muitos que entram nessa categoria que eu adoro. No entanto, há uma beleza tão sutilmente humana no silêncio, principalmente quando se trata de relações familiares de longa data. Não há o frenesi de início, de uma criança fazendo a maior algazarra na casa. O que existe são as rugas, os cabelos brancos, evidenciando que o tempo está passando, e que a falta de um diálogo lá atrás acabou sacramentando as ranhuras de uma relação. Ou, até mesmo, nas ranhuras da própria casa, como em “Valor Sentimental”.

Após o ótimo “A Pior Pessoa do Mundo” (também conhecido como o xodó dos jovens adultos perdidos na vida - bem vindo ao clube), o cineasta Joachim Trier retoma sua parceria com Renate Reinsve no lindo “Valor Sentimental”. Na história, temos Nora (Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), duas irmãs que compartilham a ausência de seu pai em suas vidas. Por sua vez, o pai Gustav (Stellan Skarsgård), um renomado cineasta de prestígio, convida sua filha atriz Nora para seu próximo filme cuja narrativa é inspirada em sua mãe. Entretanto, Nora recusa. E é aqui que entra a personagem de Elle Fanning, a atriz americana Rachel Kemp, que aceita o papel. À medida que a trama avança, acompanhamos as dores e o drama dessa família, lidando com a perda recente da mãe, além das crises existenciais, assombradas pelo passado, ao revisitar alguns momentos para a composição do novo filme de Gustav.

Sobre o filme Valor Sentimental - Ingresso.com

A metalinguagem acaba sendo uma figura importantíssima para o desenvolvimento do filme, não só pela trama, mas também pelo sentimento que há por trás do sofrimento silencioso. Há uma linha do clássico “Persona”, de Ingmar Bergman, em que Alma (Bibi Andersson) menciona que a arte é extremamente importante na vida, principalmente para aqueles que lutam e sofrem por algum motivo (parafraseando, é claro).

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Digo isso por três razões: isso sempre ficou na minha cabeça; há uma espécie de processo terapêutico ao criar arte a partir de traumas, e isto seria a forma de Gustav lidar com o atual contexto de sua vida; o último motivo é pela ironia de citar Bergman em um filme de destaque para Skarsgård, já que este criticou algumas vezes o renomado diretor sueco. Perdão ao Stellan, mas sempre que há um destaque para o duplo, há um quê de “Persona” e, consequentemente, há um quê de “Mulholand Drive”, de David Lynch (isto é, sempre há uma atriz em colapso… temos um padrão). Neste sentido, temos Rachel tentando entrar na personagem do filme de Gustav, criando um método para se envolver ainda mais na história. Em contrapartida, há uma espécie de conflito em Nora ao perceber isto, pensando sobre o filme, o papel que supostamente seria sobre sua avó, mas com algumas semelhanças com ela mesma (ou o tempo todo era sobre ela). Neste caso, não temos somente o duplo, mas sim o triplo. O pai e suas duas filhas. A perda de sua mãe. A dor do suicídio, e a dor da tentativa. A vida insiste em imitar a arte, e a arte prefere imitar a vida à sua maneira. Como uma reparação. Uma tentativa de consertar algo que está totalmente quebrado.

El primer tráiler de 'Valor Sentimental' reúne a Renate Reinsve y Stellan  Skarsgård como hija y padre distanciados. - IMDb

Com isto, entramos nas atuações. Skarsgård está brilhante e foi reconhecido recentemente com o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante. Além disso, há uma beleza tocante em Inga Ibsdotter Lilleaas na sua relutância em afrontar o pai, aguentando silenciosamente e tentando parecer mais forte para sua irmã, cuidando de seu filho, escondendo suas frustrações, e mesmo assim demonstrando uma grande força em sua personalidade. Porém, o brilho maior está em Reinsve. Talvez o carinho que tenho por “A Pior Pessoa do Mundo” fale alto nessas horas, ainda mais ao rever Renate contracenando com Anders Danielsen Lie (ambos parceiros românticos nos dois filmes). Mas é inevitável. Nota-se no olhar de Nora tudo que ela retrai. Não precisa de gritos, de monólogos longos. Basta uma conversa sincera com a irmã e um abraço choroso. Nos conflitos de Nora com o pai, não temos explosões, mas sim picos de maior estresse e muitos platôs de silêncio. O diálogo é falho naquela relação. É com este detalhe que o final se torna ainda mais significativo.

Valor Sentimental - Filme

Entrando em uma área de spoilers absolutos: durante o filme, tomamos o conhecimento de que a mãe de Gustav cometeu suicídio, e que Nora na juventude tentou um também. Porém, em nenhum momento aquilo é dialogado de forma amplamente aberta. Até que chegamos na cena final, em que - num jogo de ilusão - Trier nos oferece o melhor diálogo entre a filha atriz e o pai diretor, sem os dois trocarem uma palavra sequer um com o outro. Mas dizendo tudo através da arte. Apenas na metalinguagem. A arte não imita a vida, mas vive por ela. E isto basta aqui. Nora está atuando no filme, e é mãe de um menino que poderia ser uma espécie de versão infantil do Gustav, sendo interpretado pelo sobrinho de Nora - o filho de Agnes. Há uma espécie de ciclo aqui, além de um fortalecimento no laço familiar. É como se Gustav estivesse revisitando o momento mais triste de sua vida, fazendo uma releitura da história. Como se ele, em sua inocência de criança, fosse capaz de salvar sua mãe. Como se ele soubesse da tentativa de suicídio da filha, e ele estivesse repassando essa missão para seu neto, para salvar sua filha desse mal. Ciclos, duplos, expressões. A arte salva!

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Esta cena por si só já me deixou a desabar. Contudo, não foi apenas isso. No fim disso tudo, começa a tocar “Cannock Chase”, de Labi Siffre, uma das músicas mais lindas de um dos maiores compositores de todos os tempos. Lembrando que tudo isso é a minha opinião e minha experiência. Sou fascinado pela obra de Siffre há muito tempo. E acho curioso a forma como tem se tornado comum os filmes recentes de final/começo de ano me deixarem em prantos ao tocar uma música de Labi, vide “Os Rejeitados” (2023), de Alexander Payne, do qual toca “Crying, Laughing, Loving, Lying”. Talvez seja porque nessa época do ano eu esteja extremamente melancólico - já comentei isso aqui neste texto. O medo do fim, o pavor do começo, e o terror de um recomeço. Há um vazio literal até, visto que as cidades ficam mais desertas, parece que tudo se encontra incerto. E a melancolia é algo que está totalmente presente na arte de Siffre.

"I've been down for, oh, so long
It seemed like my soul was dead and gone
But it's alright
I'm back in the fight

I thought my day would never come
Maybe it won't but I'll have fun
And I'll hold tight
'Cause that way it might"

– Cannock Chase, de Labi Siffre

Todos sentimos a ausência de alguém, mesmo estando presente fisicamente. E ter a consciência plena disso dói, machuca. Pois o silêncio se torna um grito tímido ensurdecedor. Um grito envergonhado. Um grito falho. Como uma declaração de que o diálogo realmente perdeu essa guerra. Não precisamos brigar para nos afastar, basta não falar. “Valor Sentimental” me pegou nesse sentido. Pelo Labi Siffre, pelos daddy issues, pelo silêncio que corta, pelo duplo, pela metalinguagem, pelo poder da arte, e - principalmente - pelo golpe sutil do silêncio, o vazio existencial. “Valor Sentimental” é o meu favorito do ano!

Sentimental Value - Plugged In

Comentários 1

B
Brie Moreno31 de maio de 2026
Você escreve muito bem, dá pra sentir a emoção, esse filme deve ser muito bom

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