Sempre olhe para o lado bom da vida

Aspectos Socioculturais

Dentre tantas tradições de Natal que podemos nos apegar, assistir aos filmes temáticos é a melhor de todas, sem dúvidas. E são muitos exemplos de películas maravilhosas, desde clássicos atemporais até produções despretensiosas que são lançadas todo fim de ano. E, particularmente, toda vez que chega 25 de dezembro eu penso: “é, nasceu Jesus… e Brian também! Preciso rever esse tesouro do Monty Python”.

Desde a primeira vez que assisti “A Vida de Brian”, pensei - de cara - que era um dos meus favoritos da vida. Por vários motivos, dos quais pretendo elaborar mais. Mas o principal era que eu estava testemunhando uma das melhores comédias já lançadas de todos os tempos. Sempre que revejo dou risada de todas as situações absurdas que acontecem aqui. Uma das marcas permanentes que este deixou em mim, foi o fato de que sempre que estou no fundo do poço, emocionalmente instável, totalmente derrotado e desesperançoso, começa a tocar “Always Look On The Bright Side of Life” e, consequentemente, os assobios também. E isso é lindo!

Pôster do filme A Vida de Brian - Foto 4 de 6 - AdoroCinema

Lançado em 1979, “A Vida de Brian” é o segundo longa-metragem do grupo inglês de comédia Monty Python. No início da trama, acompanhamos o recém nascimento de Brian, um menino que veio ao mundo exatamente na mesma noite que Jesus Cristo, em uma manjedoura ao lado. Com esta premissa, acompanhamos as desventuras deste rapaz que acaba sendo confundido com o tal Messias. Basicamente, apenas com o princípio dessa ideia já podemos imaginar o tamanho da polêmica inevitável que isto iria ocasionar. Não precisamos ir longe, basta voltarmos nossas atenções para os tradicionais especiais de Natal do Porta dos Fundos, dos quais bebem muito dessa fonte específica dos Python. Agora, imagine isso há 45 anos. Muitos religiosos conservadores, à época, apontaram esta obra como blasfêmia, fazendo com que os próprios integrantes comentassem sobre isto.

Confira A Vida de Brian | Netflix

Antes de prosseguir com o filme propriamente, é preciso mencionar um pouco sobre o Monty Python e sua obra. Formado por Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin, o grupo britânico alcançou muito sucesso com sua série de TV chamada “Monty Python’s Flying Circus”, da qual teve sua estreia em 1969. Após alguns anos, o grupo migrou para o cinema com seu primeiro longa chamado “Monty Python Em Busca do Cálice Segredo”, alcançando grande sucesso de crítica e público. Até que no final da década de 70, os humoristas pensaram em realizar uma outra sátira, dessa vez focada na Bíblia.

Confira Monty Python's Flying Circus | Netflix

É válido esclarecer que os Python sempre foram ácidos em suas críticas à Igreja Católica, tanto em suas esquetes quanto no filme anterior. Esta temática sempre esteve presente. Não à toa, um dos quadros mais emblemáticos do show era o da Inquisição Espanhola cuja satirização sempre deixava claro quais eram seus pensamentos em relação às barbaridades que a História presenciou, enfatizando a manipulação da instituição e o quanto ela distorceu as escrituras para seus interesses próprios. O ponto sempre foi este: as pessoas que se diziam fieis, não a figura de Cristo em si. O próprio “A Vida de Brian”, que é a obra mais polêmica do grupo envolvendo a tônica, trata a pessoa Jesus com uma certa distância até (por respeito, mesmo), aparecendo apenas em um momento (fora o nascimento, é claro). Esta cena, inclusive, contém uma das piadas mais geniais acerca da distorção de fala em massa. Jesus está discursando seu Sermão da Montanha enquanto vários seguidores se encontram lá atrás, muito longe tentando ouvi-lo. Nisto, muitos achismos acabam se tornando verdades, como um mecanismo de telefone sem fio mesmo, evidenciando o quanto as pessoas acreditam em qualquer absurdo e repassam a ‘informação’ a torto e a direito.

Em tempos de “bundamolismo”, que falta faz o Monty Python - Regis Tadeu

Entrando mais a fundo no filme, o meu carinho pela obra vem muito pela forma como descobri o Monty Python. Em alguns artigos, já comentei um pouco sobre meu amor pelos Beatles. Comentarei brevemente, de novo (desculpa). Depois que já havia escutado tudo que era álbum, single, B-side, bootleg, coletânea, discos perdidos obscuros e o escambau (da banda e da carreira solo de cada integrante), parti para os fun facts aleatórios - como um bom beatlemaníaco tarado pelos garotos de Liverpool. Nisto, descobri The Rutles, que nada mais era que uma banda que parodiava os Beatles em quadros humorísticos britânicos. Um dos integrantes era o Eric Idle. A partir daí, tomei conhecimento do Monty Python e da admiração mútua entre os dois grupos artísticos. Não só isso, descobri que a amizade era tanta que fez com que George Harrison financiasse um filme dessa trupe. Um tal de “A Vida de Brian”. O resto é história.

Ouch!" - The Beatles, The Rutles, and Monty Python...

Aliás, esta história do financiamento é interessante, pois o Monty Python precisava desesperadamente que algum investidor injetasse alguma quantia no projeto, já que o antigo negou devido ao teor ‘problemático’ da obra. Harrison, com a sua produtora HandMade Films, assinou a produção executiva do longa não só pela sua admiração para com o grupo, mas também por ter apreciado imensamente o roteiro. Além disso, também fez uma ponta rápida em uma cena. Toda vez que revejo essa cena, é inevitável não dar um sorriso ao ver o cara que compôs “My Sweet Lord” segurando a risada em meio à multidão fervorosa pelo falso Messias.

A Vida de Brian' foi produzido por um ex-Beatle

Em termos temáticos, todo filme natalino que se preze transmite alguma mensagem esperançosa de acolhimento, de abraçar sua família, de amar ao próximo e entender o verdadeiro espírito de Natal. Não posso dizer que “A Vida de Brian” seja sobre isso, mas posso dizer que não fica isento disso. Até porque, como mencionei no início, há uma cena em especial que me marcou definitivamente. Por mais que ela apareça em um contexto tragicamente cômico, pode-se tirar alguns aprendizados de algo tão bobo e ‘inocente’. A cena em questão é a última, com a crucificação de Brian.

O que muitos acusaram de blasfêmia (detalhe que Jesus não está nessa cena, e a crucificação por si só era um método muito comum de punição realizado no Império Romano), na verdade é algo tão nonsense e absurdo que é impossível não rir. A começar com a culminação de toda a crítica central em relação às pessoas que seguem sua fé cegamente. Na hora que a multidão ‘descobre’ o Messias (Brian), todos correm atrás dele por muito tempo, venerando qualquer coisa que ele tocava. No entanto, em seu momento final, não comparecem ao ‘evento’ talvez por estarem ocupados demais brigando para descobrir o que é mais sagrado, um vaso ou um chinelo. Temos, ainda, a Frente Popular da Judeia, o grupo de rebeldes revolucionários - da qual Brian entrou devido à sua repulsa aos romanos - que simplesmente não salvou Brian da morte, mas o tratou como ‘mártir da causa’, depois de muito discutir através das burocracias em realizar reuniões que não levam a lugar nenhum, ao invés de serem proativos em suas ações. Até mesmo a Judith, par romântico de Brian (e também membro da Frente), que era a mais questionadora do grupo, cobrando ‘mais ação do que falação’, aceitou facilmente o tal martírio. E o que dizer da mãe de Brian? Foi lá dar seu último sermão para o filho mesmo sem entender o que de fato estava acontecendo. Para complementar o absurdo, Brian havia sido poupado por Pôncio Pilatos, porém outro rapaz se passa por ele na hora que os guardas irão libertá-lo. Isto é, tudo está indo por água abaixo na vida de Brian. Até que surge um outro ladrão condenado à crucificação atrás dele, sugerindo - com uma música - olhar para o lado bom da vida, apesar dos pesares. Todos, então, começam a cantar esta maravilhosa canção alegre enquanto aguardam seu fim lento e torturante. Um humor mórbido de ouro.

 

“Life's a piece of shit

When you look at it

Life’s a laugh and death’s a joke, it’s true

You’ll see it’s all a show

Keep ‘em laughin’ as you go

Just remember that the last laugh is on you

And always look on the bright side of life”

- composto por Eric Idle

 

Acaba que, ao fim, esta é a mensagem que ficou comigo. E é quando os filmes retratam a derrota que fico mais encantado. Vejo mais beleza no perdedor, mais heroísmo no fracassado, mais realidade no pesadelo, mais companhia na solidão, mais verdade na lágrima no fim do Carnaval do que na alegria momentânea da folia. Nesse caso, encontrar sua própria folia depois das cortinas se fecharem. Pois são nesses momentos que é preciso vislumbrar alguma luz em cima do poço. É preciso um chão para se levantar, e o chão pode ser uma música. Uma simples canção dizendo algo batido como “olhe para o lado bom” quando tudo está horrível. Pelo menos, se eu me encontrar em uma situação completamente terrível, e lembrar dessa música, ao menos vou dar risada. E rir é o melhor remédio, já dizia o palhaço Pagliacci. Ainda mais no Natal.

Devo admitir que vejo mais melancolia do que euforia no Natal. Esse clima me deixa mais quieto, mais contemplativo, reflexivo. É uma sensação agridoce de fim, de encerramento. As músicas, então… chega a ser irônico “Noite Feliz” se chamar assim, pois de feliz não tem nada. Uma das canções mais tristes que existe. Sem contar que já me dá arrepios só de ouvir a Simone cantando “Então é Natal, e o que você fez?” em algum shopping nessa época do ano (culpa do John Lennon, aliás - olha aí, Beatles de novo!). Ora, o que eu fiz? Desapontei meu eu do passado de novo? Talvez. Mas a queda faz a gente aprender a lidar com isso, a se perdoar com mais facilidade, a entender que é melhor ver o lado bom da vida, de verdade. Assim, viveremos a tristeza (o que se faz necessário) de uma forma mais leve, mais à vontade, desapegada, desprendida.

Graças aos fundamentalistas sou muito rico”: como "A Vida de Brian" se  tornou um fenômeno de massa - Milton Ribeiro

Em suma, “A Vida de Brian” é meu filme favorito de Natal, é um dos meus preferidos da vida toda, e sempre vou levar comigo esta mensagem. Em meio ao caos absoluto, há o humor que salva, há a graça que protege. Mas não quero transformar isso em algo muito sentimentalista. Afinal, estamos falando de um filme que em um duelo de gladiadores, um escravo magérrimo ganha de um lutador imenso só por ficar fugindo o tempo inteiro até seu oponente morrer de infarto. Estamos falando de um filme que os Três Reis Magos entram na manjedoura errada, entregando seus presentes para Brian. Estamos falando de um filme que ao cair de uma torre, Brian se encontra em uma nave alienígena e viaja pelo espaço em meio à um tiroteio intergaláctico. Estamos falando de um filme que Pôncio Pilatos é amigo de um tal Biggus Dickus. E isso tudo é só uma parte de inúmeras piadas emblemáticas do longa. Nada faz sentido. É por isto que tudo merece ser sentido, em sua plenitude, por nós mesmos. Acreditar em nós mesmos, falarmos por nós mesmos, sem a necessidade de seguir falsos profetas. Seguindo nossa própria visão, acreditando em si mesmo. E, lembre-se, meu amigo (ou amiga Loretta - como uma das personagens de Eric Idle que quer ser chamada assim, após se identificar como mulher): sempre olhe para o lado bom da vida! (assobios ao fundo).

Comentários 1

B
Brie Moreno15 de abril de 2026
Cara, seu texto me fez querer rever esse filme no próximo Natal kkkkkk faz muito tempo que vi (culpa dos beatles e de um beatlemaníaco)

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