Biopics e o gênero da genialidade de gênio forte

Aspectos Socioculturais

“Se você repete um erro a cada quatro acordes, não é mais um erro”, é o que diz Brian Wilson, no filme Love & Mercy, durante as sessões do Pet Sounds. Como músico, levo essa frase seriamente quando quero expressar minha arte de forma experimental e honesta. A experimentação está no erro, e a arte o contempla. E é no empirismo dentro da música e do cinema que podemos extrair obras-primas. Neste cenário, caímos nas biopics musicais sobre os artistas que orquestram a trilha sonora de nossas vidas. Peço perdão pela tentativa de aliteração no título, mas penso que a grande graça destes filmes é justamente a tentativa e o erro, saindo da receita pré-fabricada. 

 

É inegável que a curiosidade acerca da vida de personalidades famosas e figuras importantes para nossa sociedade é a força motriz para o sucesso das cinebiografias, gênero presente há muito tempo nas telonas e que, normalmente, nos proporcionam atuações memoráveis dignas de premiações. Obviamente, deve-se considerar a paixão do público pelas personagens protagonistas da obra. E é sobre este gênero em especial que pretendo comentar neste breve pensamento. Mas não, não farei um balanço geral sobre este subgênero, pois temos inúmeras produções ótimas que merecem comentários à parte, como Amadeus, Sid & Nancy, Ray, dentre outras. A minha consideração da vez está voltada para quatro cinebiografias de artistas dos quais sou muito fã (Elvis Presley, John Lennon, Bob Dylan e Brian Wilson, destaque para este último por conter o melhor filme dentre as sugestões e, também, como uma forma de homenagear a memória de um grande nome da música mundial que nos deixou recentemente).

Há muitas maneiras de se fazer esses tipos de filmes, porém muitos acabam seguindo uma fórmula específica de auge e queda, comportamentos autodestrutivos, o impacto da fama na vida pessoal etc. Dito isto, por um lado, as biopics musicais continuam atraindo os fãs por si só, mas por outro há um desgaste do público por já entrar numa sala de cinema sabendo exatamente a receita cronológica que irá assistir. É por este motivo que quando uma cinebiografia dessas chega aos cinemas com um roteiro incomum, montagem inventiva e direção criativa chama a atenção de todos, além da base de fãs. O grande problema nesses filmes está no fato de que seus protagonistas, usualmente, são mostrados como gênios complexos. E, de fato, são! Mas como retratar alguém fora da curva sem soar tão caricato ou forçado? Através da linguagem do cinema, é possível montar estes filmes de todas as maneiras possíveis, mas há uma que acaba me atraindo mais: recortes específicos de determinada época do artista. Não significa que todos que apresentam o arco de toda a vida do artista condensado em 2 horas sejam menos elaborados, mas acabam sendo injustos e criando armadilhas para si próprios por deixar de contar muitas passagens efetivamente.

Portanto, comecemos com a exceção desta lista com o filme “Elvis” (2022), de Baz Luhrmann. Nesta biografia, analisamos toda a trajetória do rei do rock, desde sua infância sendo influenciado pela música e cultura negra, principalmente com o blues, R&B e gospel até seus últimos dias performando fixamente em Las Vegas. Bom, vamos lá, o filme não é perfeito. Existem muitos episódios e temas que seria fundamental dar mais espaço em um filme sobre o “rei”, como a própria influência e origem negra do rock tendo nomes pioneiros como Sister Rosetta Tharpe, Little Richard e (o pai de todos!) Chuck Berry - àquele mesmo, primo do Marvin Berry, líder dos Starlighters, dos quais estavam tocando no baile Enchantment Under The Sea em Hill Valley no dia 12 de novembro de 1955, quando aconteceu aquela tempestade terrível que danificou o relógio da torre (aliás, este ano faz 40 anos de De Volta para o Futuro, um brinde!). Retornando ao assunto... Elvis, certo? Além desta temática, poderia ir mais a fundo na relação intensa com sua mãe e o impacto de sua perda, e na ausência recorrente em seu relacionamento com sua esposa Priscilla. Todos estes elementos estão lá, mas de forma muito mais dinâmica e performática, o que rende uma ótima cena de percussão mostrando toda a potência e entrega de Austin Butler no papel. Porém, tal dinamismo acaba inibindo outros pontos importantes de sua vida, dando espaço para o conturbado relacionamento com o empresário Coronel Tom Parker, interpretado por Tom Hanks. A direção de Luhrmann possui uma assinatura bastante autoral já vista em outras produções do cineasta (como em O Grande Gatsby), da qual esteticamente casa perfeitamente com a figura quase “heróica” de Presley, o que acabou me agradando. Isto é, prefiro quando o filme foca em um período fixo no tempo, mas devido à vida caótica e espírito estilizado do protagonista, a fórmula acaba tendo um tempero melhor dentro deste contexto, enfatizando a confusão e desorganização dentro de sua mente. A queda do rei, então, torna-se mais melodramática.

Analisando, agora, a partir do ponto central da lista, temos “Nowhere Boy” (2009), de Sam Taylor-Johnson, diretora inglesa da qual 15 anos depois lançaria o pouco inspirado “Back To Black”, contando a história da emblemática Amy Winehouse (amo Amy, ela merecia muito mais). Neste caso, é possível até comparar melhor as obras por se tratarem da mesma cineasta na direção. “Back To Black” caminha muito pela fórmula de auge e queda, acaba não parecendo pelo fato de, infelizmente, a vida da cantora ter sido muito breve, mas a receita está ali, escancarada. Já em “Nowhere Boy” (Garoto de Liverpool, aqui no Brasil), Taylor-Johnson prefere focar no começo da carreira musical de Lennon (interpretado por Aaron Taylor-Johnson), antes da fama, abordando sua adolescência marcada pela morte de sua mãe e abandono de seu pai na infância, além de sua conturbada relação com sua tia Mimi. Bom, de antemão, já infiro que sou beatlemaníaco desde a infância, portanto qualquer filme envolvendo Beatles já assisto de peito aberto. Temos vários exemplares para quem quer navegar pelo Beatleverso, desde seus próprios filmes da década de 1960 (A Hard Day's Night, Help!, Magical Mystery Tour, Yellow Submarine e Let It Be), seus diversos documentários sobre a banda e a carreira solo de cada integrante (destaque para o maravilhoso George Harrison: Living in the Material World, dirigido por Martin Scorsese), seus filmes que abordam as músicas através de personagens inventados como Across the Universe e Yesterday, até chegar nas próprias biopics como Backbeat - Os Cinco Rapazes de Liverpool e Midas Man e os Quatro de Liverpool (as traduções dos títulos no Brasil precisam deixar claro que os meninos são de Liverpool, acho que não ficou claro ainda). Dito isto, “Nowhere Boy” já apresenta um grande diferencial que é explorar a vida no subúrbio da classe trabalhadora do noroeste da Inglaterra, em meados dos anos 50, em um contexto pós-guerra marcado pelo trauma e reconstrução física e mental de uma sociedade que presenciou um dos maiores horrores da humanidade, em paralelo com a ânsia por sonhos de liberdade de jovens rebeldes embalados pelo rock’n’roll nos seus anos dourados (naquela altura, Elvis já estava no topo das paradas, e Chuck Berry já havia lançado aquela música que seu primo Marvin mostrou no telefone quando um garoto misterioso chamado Calvin Klein estava a tocando no baile da escola - já mencionei que gosto muito de De Volta para o Futuro?). Além disso, o fato do filme se especificar em um período pré-Beatles (ainda como The Quarrymen) deixa a trama mais intrigante ao abordar o início da amizade e parceria Lennon/McCartney e ao sugerir pequenos embriões de ideias que seriam fundamentais no futuro da carreira de John cujo êxito iria lhe conceder o título de gênio e uma das grandes mentes criativas do século XX. Isto é, o filme não está mostrando o genial John Lennon, fazendo história com seus companheiros de banda ou sendo transgressor ao firmar sua parceria artística (e pessoal) com Yoko Ono falando sobre a paz mundial e a guerra do Vietnã no auge da contracultura. O filme fala apenas sobre o garoto John, àquele que o verdadeiro revela em “God” com a linha “I was the walrus, but now I’m John”, como uma forma de rejeitar a fama e o peso de ser genial em uma sociedade desesperada por respostas, ou àquele que em “Mother” (tocada nos créditos finais deste filme) expõe sua maior fragilidade na falta que sua família fez em sua criação, “Mama don’t go, Daddy come home”. O filme pode não ser perfeito, e não é, definitivamente. Mas é uma grande cinebiografia que desmistifica a imagem do “gênio” o transformando em apenas um menino que, ao sair pelas ruas de Liverpool com seu violão e seu óculos à la Buddy Holly, vaga sem rumo, fazendo seus planos de lugar nenhum para ninguém.

Ainda nesta onda de andarilho, nada melhor do que falar sobre a pedra rolante (não estou falando dos ingleses da linguinha), o completo desconhecido Robert Allen Zimmerman, mais conhecido como Bob Dylan. “A Complete Unknown” (2024), de James Mangold, é o mais recente da lista e, assim como Taylor-Johnson, já dirigiu outra biopic sobre um artista musical (neste caso, sim, totalmente inspirado), com “Walk The Line” (Johnny & June, no Brasil), abordando a lenda do country Johnny Cash e sua relação com sua esposa June Carter. Cash, inclusive, está presente em “Um Completo Desconhecido”, interpretado por Boyd Holdbrook, em uma participação mais que especial (como fã, estes pequenos fan services me empolgam como se eu estivesse vendo os Vingadores do meu antigo MP3). O grande acerto de Mangold foi focar em um período muito específico de Dylan, a tal incorporação da guitarra elétrica na música folk. Já falamos aqui sobre a música dos anos 50 e 60, e este acontecimento pré-movimento de contracultura foi um grande marco na cultura pop. Quem sabe da história da música pop é familiarizado com as trocas e competitividades presentes no período: Dylan mostrou o quanto as letras podem ser muito mais complexas e reflexivas, instigando John e Paul a escreverem músicas ainda mais profundas e subjetivas em Rubber Soul, do qual, por sua vez, aguça a criatividade de Brian Wilson para fazer Pet Sounds, que, como um contragolpe, inspira McCartney e cia nos estúdios da Abbey Road a criarem Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, e por aí vai. Neste cenário, a guitarra elétrica (e tudo que vinha junto) foi fundamental para a transgressão. O período retratado no filme é, para muitos, uma das épocas mais criativas de Dylan, principalmente em 1965 (ano que ganha destaque inclusive em tela no meio do filme), preparando o terreno para chegar no clímax do emblemático show no Newport Folk Festival. Além disso, o longa também aborda seu relacionamento conturbado e admiração mútua por outras lendas do folk, como Joan Baez (interpretada por Monica Barbaro), Pete Seeger (Edward Norton) e Woody Guthrie (Scoot McNairy). A complexidade está no tal “gênio forte” do protagonista, brilhantemente interpretado por Timothée Chalamet (nosso Lisan al-Gaib), do qual - assim como enfatiza o título - não se vê como personalidade midiática, mas sim como um poeta errante desconhecido que apresenta sua visão de mundo e a expressa nas suas canções, e que o público não sabe de onde ele veio ou para onde vai. Nós, como público, simplesmente assistimos ele passar, como alguém que veio e fez uma porção de realizações importantes mas já foi embora. O próprio relacionamento com Baez, por exemplo, estendeu-se além do período retratado no filme, com idas e vindas, indiretas em canções, entre outros fatos. O ponto é que seria totalmente careta se um filme sobre uma figura tão misteriosa e emblemática como Dylan seguisse uma fórmula batida do gênero. É notável que o filme apresenta elementos desta receita já mencionada antes, porém são utilizadas apenas como artifícios para contemplar o roteiro. Bob Dylan é genial em muitas fases de sua longeva carreira, mas neste recorte específico do longa, ele estava com a criatividade totalmente nas alturas, e foi um grande acerto retratar este período. Abro espaço para fazer uma menção honrosa do ótimo “I’m Not There”, de Todd Haynes, onde Bob Dylan é interpretado por diferentes atores, incluindo Cate Blanchett, Heath Ledger e Christian Bale, em diferentes épocas, personas e contextos de sua vida.

Por fim, temos o filme que foi o motivo que me inspirou a fazer este texto. Sendo contemporâneos aos artistas que mencionei anteriormente, The Beach Boys foi uma das grandes bandas dos anos 60, ajudando a promover o gênero do rock e a música pop como um todo a um patamar diferenciado e promissor. E o longa “Love & Mercy” (2014), dirigido por Bill Pohlad, foca na complexidade da mente de Brian Wilson, o grande nome por trás dos Beach Boys. O filme retrata em paralelo duas fases da vida do protagonista, uma sendo interpretado por Paul Dano e a outra por John Cusack, fator que já demonstra o grande segredo que o diretor conseguiu extrair da genialidade de um dos maiores compositores de todos os tempos: a confusão. No início do texto, cito a linha “If you repeat a mistake every four bars, it’s no longer a mistake”, original do filme, pois sinto que é desta forma que Brian se sentia em sua mente. Infelizmente, Wilson faleceu em junho deste ano, e sua complexidade me cativa há anos, pois ele sempre foi um gênio diferente. Ele ficava muito mais por trás dos palcos, do que à frente deles. Era o grande compositor de uma das maiores bandas americanas que já existiu. Na sua época de ouro, retratada no filme, ele simplesmente compôs um dos maiores álbuns de todos os tempos, o “Pet Sounds”, contendo hinos como “God Only Knows” (uma das mais lindas já compostas) e “Wouldn’t It Be Nice” (corta para o Adam Sandler chorando ao som desta música em “Como se fosse a primeira vez”), mas ao passo que sua criatividade estava borbulhando, sua sanidade estava sendo destruída aos poucos. No início do filme, já é mostrado o colapso nervoso sofrido por Wilson em um voo de avião em 1964, durante uma turnê da banda, fato que colaborou para seu afastamento dos palcos, focando apenas na composição e gravação das músicas em estúdio. Em paralelo, temos a versão mais velha do protagonista sendo totalmente explorada pelo Dr. Eugene Landy, psiquiatra charlatão que foi um grande incômodo na vida de Brian (não foi proposital escrever “A Vida de Brian”, mas já que estamos aqui, vida longa ao Monty Python!), sendo interpretado magistralmente por Paul Giamatti. Além disso, nesta fase também aborda o início de seu relacionamento com sua futura esposa Melinda Ledbetter (vivida por Elizabeth Banks) e a ajuda fundamental que ela proporcionou em sua retomada (de carreira e, principalmente, na vida pessoal). O filme se destaca indo e vindo no tempo, mostrando os paralelos e os ciclos viciosos da depressão e como isso impacta na vida de alguém de diferentes formas. Um retrato muito emblemático no filme é a cena que mostra a cama de Wilson, com suas diferentes versões deitadas sem forças para levantar, vencidas e esgotadas pelo transtorno depressivo. O laudo médico geral de Brian é bastante delicado, pois foi medicado exaustivamente durante anos por Landy alegando esquizofrenia, agravando o quadro de dependência química do músico. O que se pode debater é que a saúde mental do líder dos Beach Boys sempre foi delicada e isso acabou prejudicando seu convívio familiar (que sempre foi perturbado, principalmente por conta do pai abusivo) e sua carreira, ficando afastado dos palcos por determinados períodos. O ponto é que Brian, sendo um gênio, foi retratado como um. Incompreendido por ele mesmo. Não há que teorizar tudo para justificar a genialidade de uma mente criativa, há de sentir. Sentir que aquela obra faz parte de algo maior e vai além do que uma mera primeira visita. Faz-se necessários reencontros com a obra para se admirar por inteiro dentro de sua incompletude. Um eterno vai e vem. E é nesses erros a cada quatro acordes que Pohlad monta seu filme, como um quebra cabeça totalmente confuso mas que, mesmo faltando peças importantes, é possível ver sua imagem com clareza.

Em conclusão, nota-se que, além de não existir um jeito certo ou errado de se fazer uma biopic musical, retratar figuras que foram geniais e à frente do seu tempo é um desafio a mais dentro desse processo. A personalidade forte e complicada pode acabar, inclusive, afastando o público ou, até mesmo, distanciando, o que prejudica a experiência imersiva e exclui qualquer senso de conexão com o protagonista. Presley, Lennon, Dylan e Wilson são apenas alguns de uma gama de personalidades difíceis e confusas dentro de suas próprias vidas e obras, e o que assistimos em tela é apenas uma visão do diretor acerca do artista. Vale ressaltar que todas essas obras também são adaptações de livros biográficos específicos cuja funcionalidade também está diretamente ligada ao roteiro, ou seja, qual é a história de fato a ser contada. Mas como ela é contada que é o grande exercício da direção. E, para mim, são obras que funcionam como um ponto de vista específico sobre o artista. E, dentro deste contexto, há muitos pontos de vista que podem ser visitados e revisitados, e merecem isso. Há muitas formas de se mostrar a tal genialidade de um indivíduo, dentro de sua própria desorganização e loucura. É um gênero que merece ser explorado de formas mais ousadas, longe de fórmulas. Um exemplo recente foi o longa “Better Man”, contando a história de Robbie Williams através de um chimpanzé em CGI, possibilitando cenas fantasiosas e números musicais inventivos. São tentativas e erros, e às vezes, as formas incomuns podem soar como erradas, mas se seguir nessa ideia a cada quatro acordes ou a cada novo ato, já não é mais um erro, é um método, e, algumas vezes, podemos estar diante de uma nova obra prima.

 

Descanse em paz, Brian Wilson.

Comentários 1

G
Gabriella Moreno29 de julho de 2025
entre dois mundos 👏🏻👏🏻👏🏻 mto bom

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