Os horrores e as delícias do Literalmente Eu
Aspectos SocioculturaisAntes um aviso: eu pensei muito sobre esse tema, e ia escrever sobre um filme X, pois de fato sinto uma conexão com um personagem Y, mas pensei, repensei, e achei pertinente cair em uma vontade já antiga de falar sobre um filme Z. Ou melhor, uma crítica à um fenômeno cultural incel que está aos poucos ‘roubando’ muitos filmes incríveis. Quero roubá-los de volta! Assim como U2 fez em 1987, antes de apresentar seu cover de “Helter Skelter” dos Beatles, com Bono dizendo “Essa é uma música que Charles Manson roubou dos Beatles, e nós estamos a roubando de volta”. Portanto, peço licença para falar sobre o motorista em “Drive”, o reconhecimento em sua solidão e a masculinidade tóxica e frágil que destruiu a interpretação e leitura de alguns homens para com a figura do anti-herói.
Eu, literalmente.
A grande magia do cinema está justamente no fato de podermos nos desconectar da nossa realidade e entrar em universos paralelos totalmente diferentes. E é justamente no encantamento de estar em uma “outra” realidade, que há o ouro no final do arco-íris quando nos sentimos representados em cena. É, de fato, um tema maravilhoso que permite nos conectar com diversas pessoas, de diferentes lugares e contextos, com suas infinitas histórias sendo representadas em tela. Dentro deste cenário, comecei a refletir o outro lado da moeda. Um lado mais engraçado em sua superfície, mas completamente duvidoso (no mínimo) em sua profundidade. Afinal, onde termina a risada e começa a preocupação?
Nos últimos anos, podemos visualizar diversos memes nas redes sociais que pegam personagens dito anti-heróis, introspectivos e deslocados da sociedade com a legenda “Literalmente Eu”. Esta piada é bem mais recorrente com os personagens de Ryan Gosling cuja maioria dos papeis segue o padrão do “lobo solitário”. Dentre os filmes mais utilizados nesse tipo de meme, temos o incrível neo-noir vaporwave “Drive”, de 2011. Confesso, de antemão, que adoro esse filme. E lembro muito bem da sensação que tive ao assistir esse aqui pela primeira vez em uma madrugada chuvosa há alguns bons anos no meu apartamento. Esse filme - e esse personagem de Gosling - sempre me trouxeram uma sensação única de ‘aceitação da solidão’ e o mistério das relações interpessoais que marcam. Digo isto, pois há uma mística em torno de sua figura. Não sabemos seu nome ou sua origem. Apenas estamos acompanhando um momento específico de sua vida, do qual o coloca contra a parede para decidir fazer o que ele julga ser o necessário (não o certo), ou apenas sucumbir aos crimes noturnos.

Real. Literalmente eu. Os horrores.
Muitos filmes podem se enquadrar nesse pseudo-sub-gênero ‘Literalmente Eu’, mas os principais são: “Psicopata Americano”, “Taxi Driver”, “Clube da Luta”, “Coringa”, “Blade Runner 2049”, “O Lobo de Wall Street”, “Ela”, “Donnie Darko”, “Tropa de Elite”, “Scarface”, “O Abutre”, dentre outros (além do próprio “Drive”, é claro). Além disso, temos os exemplos nas séries também, como em “Breaking Bad”, “Peaky Blinders”, “Mad Men”, e até, “Bojack Horseman”. Todas essas produções apresentam personagens (homens) extremamente cinzas. Isto é, com a ética ambígua e moralmente questionável. Muitos desses filmes optaram por aprofundar nas temáticas que criticam a sociedade contemporânea e sua relação com a masculinidade. Outras não focaram, necessariamente, na masculinidade, mas na comunidade em geral e como o erro de suas escolhas impactam no mundo atual. Portanto, claramente em todos esses filmes existe uma intenção por trás desses personagens, por trás desse retrato autodestrutivo. Há uma mensagem a ser transmitida. E não acho que tenha problema alguém se identificar com certos comportamentos, pois não somos criaturas exatas e matemáticas, divididas em boas e ruins, somos humanos. O problema maior está na glamourização e idolatria por figuras que estão sendo nitidamente criticadas (e até ridicularizadas) pelos autores das obras.

Um exemplo máximo e complexo disto está em “Taxi Driver”, onde temos Travis sendo a representação do outsider, alguém que não se encaixa em nenhum aspecto da sociedade, com seus traumas vividos na guerra, tentando justificar os meios para viver o resto de seus dias. Temos o âmbito “justiceiro” quando ele tenta salvar a criança do mundo da prostituição, mas antes de chegar à este ponto, podemos inferir em seus comentários expostos em seu diário seus pensamentos preconceituosos e atitude fria. Ou, ainda, Patrick Bateman em “Psicopata Americano” que, dentro de seu narcisismo, procura se encaixar na sociedade, concebendo à seu rosto e seu próprio corpo a padronização imposta para ser aceito. E com sua ‘imunidade financeira’, sua psicopatia cresce a cada dia, fazendo com que realmente não se importe com as consequências de seus atos. São críticas ao capitalismo, ao descontentamento com o sonho americano, ao sentimento de falha como sociedade em geral. No entanto, os horrores estão escondidos por trás de cada user em um comentário nesse tipo de post.

Sinto que no início, desde que vi estourar esses memes, a grande maioria era oriunda de páginas de shitpost, com um humor autodepreciativo que às vezes beirava o nonsense. Esses memes sempre me fizeram rir, pois eram situações absurdas descritas e abaixo estavam esses personagens totalmente obscuros. Contudo, conforme o tempo foi passando, a internet foi (como sempre) cedendo à tendência uniformizada (tanto criticada em “Clube da Luta”, por exemplo) de enjaular todos esses personagens como se fossem heróis incompreendidos, aguçando aquele sentimento de “justiça com as próprias mãos”, evidenciando traços fetichistas de homens inseguros e frustrados pertencentes à comunidades, em sua maioria, preconceituosas e supremacistas, das quais englobam todos aqueles termos que o Twitter inventa à cada estação: red pill, incel, sigma, e sabe se lá mais o que. De um lado temos os memes que demonstram que eu, você e todos nós somos literalmente o Ryan Gosling, e por outro temos a distorção de uma pequena parcela do público acreditando nessa imagem utópica da “perfeição controlada” de um Patrick Bateman da vida (vai entender…). E não, não estou problematizando um meme! O meme já foi problematizado há muito tempo. E não é exclusivo desse caso. Os erros de interpretação sempre existiram. É comum encontrarmos alguns políticos conservadores (e bananinhas red pills) postando “Menos Wagner Moura, mais Capitão Nascimento”, criticando a Lei Rouanet pela milionésima vez. Com isso, chegamos à diversas questões sobre responsabilidade do autor para com a obra e o papel que o público exerce ao perpetuar sua mensagem. O próprio “Coringa: Delírio à Dois” foi duramente criticado por, talvez, Todd Phillips perceber que o personagem de seu filme estava virando tatuagem no peito de algum jovem sigma que fica ‘farmando aura’ no Discord com os amigos. (Precisei rir disso… acabou virando o ‘Inception’ do meme; eu vejo o edit e acho engraçado, começo a ficar revoltado por ter gente que está levando a sério, escrevo sobre isso e acho engraçado o fato de levarem a sério, e assim vai - aliás, não falei do Nolan aqui, mas pode colocar qualquer um dele no meio da discussão também).

Prazer, Ryan Gosling. As delícias.
Pronto! Agora que descarreguei um pouco, posso falar do lado bom dessa história. Digo isto olhando para meu travesseiro com o rosto do Ryan Gosling como Ken em “Barbie” escrito “Kenergy”. Devo dizer que sou fã de Gosling há muitos anos. Lembro bem de postar no Snap sempre que ele aparecia no Oscar no ano de “La La Land”. Vira e mexe, também, acaba batendo o hiperfoco nos seus filmes e faço mais uma maratona. Mas há um papel em específico que sempre me cativou mais: o de “Drive”. Dirigido por Nicolas Winding Refn, estrelado por Ryan Gosling, Carey Mulligan e Oscar Isaac, “Drive” acompanha um dublê que à noite atua como motorista de fuga em assaltos, até que seus caminhos se cruzam com o de Irene e seu filho, que estão em perigo desde que seu marido retornou da prisão. Além de toda estética estilizada com a fotografia ressaltando o neon de Los Angeles, sendo envolvida por uma trilha sonora magnífica de synthpop (“Nightcall”, “A Real Hero”, “Under Your Spell”, só pedrada…), o grande destaque está no mistério por trás do motorista de Gosling.
Não temos muitas informações sobre ele, e sua atitude blasé e introspectiva acaba nos cativando, principalmente ao perceber o contraste com a fera violenta escondida que é revelada na cena do elevador. Aliás, que cena! A luz foca no casal, com o motorista dando um ‘beijo de despedida’ em Irene, para se entregar ao lado sombrio (do elevador e de sua vida) e resolver a situação com os criminosos do jeito mais primitivo possível. Gosling é um excelente ator, e apresenta uma filmografia muito interessante que explora sua versatilidade, caindo - inclusive - para um lado até cômico muitas vezes. No entanto, há uma característica marcante em alguns de seus papeis, que é a leitura de um olhar perdido. Podemos ver isso em “O Lugar Onde Tudo Termina”, “Só Deus Perdoa”, “Blade Runner 2049”, “A Garota Ideal”, “Namorados Para Sempre” e “A Passagem”. Aqui, temos um Gosling muito fechado, alguém totalmente deslocado e, até, desprendido de sentimentos em relação à sociedade. Um homem de poucas palavras, que faz seu serviço e depois se evapora. Alguém que passa despercebido na vida, irrelevante, alguém que não marca. Foi nessa ausência que me vi representado, de certa forma. Quando assisti à “Drive” estava passando por uma das crises existenciais mais longas que já vivi. E muitas vezes me sentia como alguém esquecível para as outras pessoas. Alguém que precisava repetir o nome várias vezes, pois ninguém o fixava. Alguém que precisava aceitar a solidão depressa. Estava ficando muito fechado, já não falava mais com amigos antigos, nem sequer fazia amizades novas. É preciso deixar claro que a identificação se limita à dramaticidade em torno deste personagem, e não ao âmbito de assaltos e violência (ainda bem, né).

Além disso, sinto que o olhar de Ryan Gosling diz tanta coisa nesse filme! Como alguém tímido e mais retraído, consegui visualizar a paz de espírito - por mais que falsa e passageira - que o motorista encontrava ao dirigir pelas ruas da cidade à noite. Coisa que sinto hoje, por exemplo. (É sério, cara, eu sou literalmente o Ryan Gosling dirigindo à noite aqui nas ruas de Xique-Xique, Bahia!) Brincadeiras à parte, é como se aquele momento fosse ele e nada mais. O som do rádio, as ruas reluzentes, cheias de luzes coloridas e almas vazias. O vazio de seu apartamento, sem muitos detalhes e enfeites, como alguém que perdeu a expressividade. Este alguém encontra refúgio em outro alguém, uma vítima da sociedade, tendo que cuidar de seu filho sozinha. Aquele olhar perdido vai embora, enquanto só está curtindo uma tarde ensolarada, passeando no L.A. River com sua amada. Com Irene, o motorista não precisa ser frio, porque ele está sentindo algo, pela primeira vez em tempos.

A apatia é dolorosa quando se tem a noção de que está ficando assim. Traços de estágios mais avançados de uma depressão profunda, de uma crise de identidade. É normal, e assim como a própria depressão, apresenta seus picos. Senti empatia na apatia de Ryan Gosling em “Drive”, pois estava tão apático sobre tudo que precisava me sentir acolhido naquela madrugada. E me senti. Foi necessário. Passado esses anos, creio que fui gostando bem mais de outros filmes de Gosling, mas “Drive” sempre será especial por conta desse sentido. O filme, a trilha e o clima me levam para uma época sombria que, pela dualidade da nostalgia, consigo garimpar aprendizados deste período. Ora, não quero lembrar de quando estava completamente deprimido, mas preciso e devo relembrar como conseguir sair dessa, pois vou me sentir assim de novo amanhã provavelmente. Sempre é assim. E é nesse lugar que encontro “Drive”.

Somos literalmente nós.
Portanto, para concluir: ainda me divirto muito e vou continuar curtindo os memes do “Literalmente Eu”. Toda semana começo a curtir vários vídeos de páginas do Ryan Gosling. E foi nesse lugar de “conforto” que me senti desconfortável em rir de algo absurdo e declaradamente cômico do mesmo jeito que alguns incels estavam também. Isto foi um grande exercício para rever e realocar o meu lugar também, o quanto aquilo me afetava e até onde quero manter as raízes concretas de uma masculinidade tóxica presente, inevitavelmente. Por tempos, comecei a evitar conteúdos sobre filmes que claramente gostei muito um dia. E hoje, conforme tudo foi acontecendo, é mais fácil contornar e diferenciar a minha visão e a visão distorcida que se pode ter. Sempre lembro de Alan Moore e suas reações com as atitudes do público de “V de Vingança” e “Watchmen”. Por exemplo, existem pessoas que realmente idolatram o Rorschach, quando claramente Moore enfatiza que ele faz parte do problema. E isto é normal, é preciso conviver com isso. E também a discussão é válida como autocrítica. Será que interpretei a obra da maneira correta? Será que há uma maneira correta e absoluta? As obras não estão aí para serem interpretadas conforme o público? Esta regra se aplica a absolutamente tudo? Nenhuma dessas perguntas apresenta uma única resposta concreta. A graça está nisso.

Enfim, sempre será engraçado me deparar com algum meme do Ryan Gosling ao som de “Let It Happen” do Tame Impala, e dizer “ei, isso é literalmente eu”. E há muita graça nesse jeito de ‘se ver representado’ em tela. Mas há também os perigos dentro disso. E cabe a nós sabermos diferenciar o tom para não nos tornarmos aquelas pessoas amargas na internet, que vê problema em tudo. Os filmes ‘Literalmente Eu’ estão todos aí para serem apreciados. Todos esses que citei, considero bons ou ótimos filmes. Assim sendo, com todo respeito: red pills, parem de roubar esses filmes… vocês não são o Jake Gyllenhaal surtando na frente do espelho! O Gyllenhaal curtindo um som no seu fone dançando no metrô até vai, agora no espelho não… (risos, é claro!).








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