Foi Apenas Um Acidente & Bugonia | A Dobradinha do Sequestro #2
Críticas GeraisDois dos filmes mais cotados para a temporada de premiações acabaram de ser lançados recentemente. “Foi Apenas Um Acidente”, de Jafar Panahi, ganhou destaque sendo o grande vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes este ano. Já “Bugonia” marca novamente a parceria do diretor grego Yorgos Lanthimos com a atriz - duas vezes vencedora do Oscar - Emma Stone. Ambos apresentam um ponto em comum, explorando caminhos e dilemas distintos em suas narrativas: o sequestro.
Longe de toda a romantização de uma “A Bela e A Fera” da vida, aqui temos em evidência os horrores de sequestros sendo realizados por pessoas aparentemente normais. Vítimas, para ser mais específico. Em um, temos vítimas torturadas de um regime altamente autoritário, em outro temos vítimas da desinformação e teorias da conspiração absurdistas do mundo contemporâneo. As principais diferenças estão nas motivações que levaram àquela situação, apesar das semelhanças como a busca pela vingança, de certo modo. Levando isto em consideração, é preciso exaltar o quanto ambas as produções marcam como um registro do reflexo de uma sociedade que já entrou em colapso há muito tempo, e estamos lidando já com as consequências.
Particularmente, posso afirmar que “Foi Apenas Um Acidente” acabou sendo um dos meus favoritos do ano, principalmente depois de ter o conhecimento da forma em que o filme foi rodado. Panahi o gravou clandestinamente no Irã, já que foi proibido de filmar e divulgar seus longas no país, depois de ser preso e perseguido por contrariar o governo. Logo, o filme foi executado por uma equipe bem reduzida, além de boa parte do elenco ser de atores de primeira viagem. Somado à isto, está um dos fatos que mais me fizeram comprar a trama: a história toda se passa em, praticamente, um dia.

Devo admitir que amo filmes que se passam em apenas um dia. Aliás, um dos meus filmes favoritos é o clássico “Um Dia de Cão”, do qual já comentei algumas vezes aqui na Peliplat. Este fator temporal acaba sendo crucial, dando um toque extremamente realista nas atuações, dando espaço para os atores brilharem sem cortes. Estamos acompanhando esses personagens em um dia atípico de suas vidas atuais. Depois de serem torturados e perseguidos, todos estão tentando recomeçar suas vidas após alguns anos. Até que um deles acaba se reencontrando com o seu velho torturador, sendo tomado pelo ódio e a vingança até decidir, de fato, que iria realizar o sequestro.
Porém, o filme vai para outro lado. Não acompanhamos aqui a vingança sendo executada em sua extremidade, no ‘dente por dente’. Estamos falando de seres humanos que foram extremamente violentados e, devido aos métodos, não conseguiam enxergar com clareza as faces daquelas pessoas que estavam os traumatizando para o resto de suas vidas. Portanto, o elemento fundamental acaba sendo o som. O som do rangido de uma perna postiça, para ser exato. E isto casa com o que estamos acompanhando em tela. Não se faz necessário flashbacks, mostrar para o público o que de fato eles sofreram. Isto não precisa ser mostrado, basta ouvirmos. É preciso dar voz à vítima. Rejeitar o ‘ver para crer’.

Todos já sabemos dos horrores que regimes autoritários fazem. E esta questão mais auditiva do que visual acaba nos inserindo de modo bastante imersivo no cerne dos personagens. “E aí, será que esse era o torturador mesmo? Será que não sequestramos alguém inocente? Sempre estivemos no lugar dos oprimidos, será que seríamos iguais à eles?”. À medida que conhecemos um pouco de seus traumas, ficamos ainda mais interessados no desfecho de tudo aquilo. Passamos o tempo todo inquietos pensando nas possibilidades que cada personagem envolvido naquele sequestro poderia realizar. Por exemplo, um dos rapazes é mais temperamental, e estava claramente disposto a dar fim no torturador. Ou até mesmo a noiva que, apesar de estar prestes a realizar um dos momentos mais especiais de sua vida, estava pronta para se vingar e dar um fim definitivo à esta cicatriz eterna.

“Foi Apenas Um Acidente” é um dos favoritos para a indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Devido à todos os impasses de Panahi no Irã, o filme é uma co-produção da França, e entraria como sendo seu candidato oficial para a premiação. Recentemente, recebeu indicação ao Globo de Ouro na categoria Melhor Filme em Língua Não-Inglesa, ao lado do brasileiro (e maravilhosamente cheio de pirraça) “O Agente Secreto”. Basta esperarmos para ver os próximos capítulos desta aguardada temporada de premiações. Filme bom é o que não falta!
Por sua vez, “Bugonia” já não acabou me conquistando tanto quanto o “...Acidente”. Pessoalmente, aprecio a filmografia de Yorgos Lanthimos justamente pelo estudo antropológico que há na construção de suas histórias, elevando as irracionalidades e atitudes primitivas do ser humano. Porém, confesso que seus últimos trabalhos não me agradaram tanto, por conta da execução mesmo - uma sensação de estranheza apenas pela estranheza, esteticamente atraente, e profundamente raso. Estou falando de seu novo longa e do anterior “Tipos de Gentileza”. Este último, inclusive, foi uma das grandes decepções do ano passado (havia colocado muita expectativa). Já o “Pobres Criaturas” me ganhou de cara. Foi um dos meus favoritos de 2023. Portanto, nos últimos anos tenho adquirido uma sensação mista com o cineasta. Até que chegou “Bugonia”.
Sendo um remake do filme sul-coreano de 2003 “Save The Green Planet”, em “Bugonia” acompanhamos uma dupla de conspiracionistas que acreditam fortemente que uma CEO multimilionária da indústria farmacêutica seja, na verdade, uma alienígena que planeja destruir a humanidade. Crendo fielmente nisto, os dois primos acabam sequestrando a empresária, mantendo-a em cativeiro a fim de conseguir contato com o suposto imperador do planeta alienígena, para tentar salvar a Terra da destruição iminente. Confesso que não sabia muito sobre a trama antes de assistir, até que minutos antes dei uma olhada rápida na sinopse. E isto acabou ganhando minha curiosidade rapidamente. É uma premissa muito interessante e empolgante, devido ao fato de estar nas mãos de um cineasta ‘esquisito na medida certa’ como Lanthimos.

Admito que em boa parte do longa, fiquei envolvido na trama. O ponto que me atraiu mais foi a construção de como seria a exacerbação das falas e atitudes desses conspiracionistas terraplanistas de internet. Isto é, apontar os perigos desses discursos negacionistas, além de confirmar alguns estereótipos (como não consumir notícias por jornais profissionais e especializados) sem deixar caricato demais. Mesmo criando uma certa repulsa pelas atitudes do personagem de Jesse Plemons, conforme temos o desenvolvimento da trama, percebemos o seu lado da história. O seu contexto de vítima sendo alimentado por inúmeras supostas respostas que o rapaz encontra ao longo dos anos.

Até que chegamos à conclusão do filme, e tivemos um direcionamento não convencional para a resolução desse caso. Não que isso tenha sido uma surpresa tão grande, pois já estamos falando de diretor que normalmente opta por estas disrupções. Porém, como tudo vai para os ares (literalmente) nos últimos minutos, quando percebemos que estamos no terceiro ato, ainda ficamos na dúvida se o fechamento iria por esse caminho mesmo, ou ia se contentar apenas com a crítica aos negacionistas. De modo pessoal, o final se consolidou como o ponto mais fraco da trama (e eu gosto das esquisitices, de verdade, mas essa aqui não consegui engatar), dividindo algumas opiniões. Há quem defenda alegando sátira, outros abominam insinuando-o como problemático. As duas visões são perceptíveis, porém não posso negar que acabei pendendo mais para a segunda opção no momento em que assistia.
No entanto, depois de muito refletir, cheguei a conclusão de que, talvez, já esteja cansado das escolhas de Lanthimos (sendo uma questão mais pessoal mesmo). E isto - de certa forma - é ótimo, pois é um diretor que te deixa inquieto, que te deixa desconcertado, que vai fazer você parar para pensar em algo muito sério de um modo totalmente inventivo e criativo. Seja lá quais forem seus próximos projetos, ainda continua sendo um cineasta que gosto de prestar atenção, ainda mais nessa onda de parceria com Emma Stone, que é sempre um show à parte (aqui temos mais uma grande atuação da atriz, porém o destaque maior fica para Plemons).

Por fim, temos aqui a dobradinha perfeita para quem quer ver filmes de sequestro. Apesar de preferir, com considerável distância, um ao outro, claramente são duas ótimas opções para se assistir e ficar ligado nos próximos meses para ver o desenrolar das premiações. Jafar Panahi e Yorgos Lanthimos nos colocam para refletir os limites do ser humano em uma situação atipicamente extrema, o que faz parte da moral e ética, além de debater o que a vingança traz depois de consumada.












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