O Agente Secreto | A (im)permanência da memória
Aspectos SocioculturaisDevo dizer que ao assistir “O Agente Secreto”, lembrei de algo que aconteceu recentemente comigo. Algo sobre como a memória se esvai de modo gradativo, evidenciando os limites que temos como seres humanos. Não somos máquinas que guardam arquivos (reais ou digitais), somos seres pensantes e, às vezes, nosso pensamento vai tão longe que não conseguimos mais alcançar. Mas saindo da divagação, voltando à uma lembrança recente.

Há pouco tempo, houve uma reforma no túmulo de meu avô (falecido nos anos 80). O túmulo não estava nem um pouco digno. Pelo contrário, estava até ‘condenado’, devido à falta de manutenção e cuidado. Não vale entrar em questões pessoais aqui, mas coube à mim e à minha mãe manifestarem interesse na reforma. Ok, fomos atrás de toda a papelada, seguindo toda a burocracia por trás disso. O ponto todo é que na hora de fazer o reconhecimento do túmulo para dar seguimento à obra, minha mãe teve dificuldade para lembrar sua localização exata. Já não havia mais placa com nome (e nunca existiu uma foto), nem sequer a numeração estava lá. E muitos túmulos estavam iguais, sem nenhum cuidado, mas seguindo o mesmo padrão ‘genérico’ do cemitério. Vislumbrei, rapidamente, um olhar perdido de minha mãe que me afetou de modo inesperado. Minha mãe, tão certa sobre muitas coisas, estava confusa e não se lembrava onde seu pai estava enterrado. Em fração de segundos, tem-se uma sensação mista de desespero com angústia e tristeza profunda, quase como um medo de não saber mais onde ir para orar e relembrar seu ente querido. Acabou que no final deu tudo certo. Conseguimos localizar, forçando a memória de alguns pontos de referência, mas para isso foi preciso um esforço mental ali. Algo que fomos ‘forçados’ a lembrar, não estava fácil na memória. E, normalmente, as coisas são assim mesmo. Nossa história é feita de memórias, e muitas delas acabam se evaporando com o tempo. E isso não quer dizer que essas que evaporam não são tão importantes quanto as que permanecem, mas sim que é natural. Esquecer é um processo natural.

E foi com essa dor que “O Agente Secreto” me atingiu: a difícil aceitação de que um dia todos nós seremos esquecidos, apesar de tudo que fizemos em vida. Isto é, ou vão esquecer da gente ou vão fazer de tudo para sermos esquecidos. E é neste ponto que podemos enfatizar o contexto do filme. Todos sabemos sobre a ditadura militar e seus horrores. Muitas pessoas foram perseguidas, torturadas e - secretamente - apagadas da existência. Sem lenço, sem documento, sem nada para identificar, sem nada para lembrar. Assistir ao filme, sem saber de nada além do fato de se passar durante esse período histórico brasileiro, foi um presente, pois fui me surpreendendo, sucessivamente, durante as mais de 2 horas e 30 minutos do longa.

Temos um filme recheado de humor, mistério, drama, de momentos contemplativos do ‘mundano’ até picos eletrizantes e angustiantes do ‘extraordinário’. Atuações que impactam pela naturalidade, figurinos e cenários que nos deixam imersos nos anos 70, e uma trilha sonora absurdamente maravilhosa servindo como um delicioso tempero desse caldo todo. O grande destaque aqui é, sem dúvidas, a direção magistral de Kleber Mendonça Filho. Desde suas transições até a movimentação de câmera que brinca com os vais e vens (somada à montagem hipnotizante de Matheus Farias e Eduardo Serrano), além de composições oníricas de pesadelos e figuras horripilantes que nos assombram o tempo todo (há uma cena envolvendo uma fantasia de carnaval muito lynchiana). Tudo está aqui de uma maneira inventiva, não convencional, daquelas que faz você ficar inquieto ao passo que está paralisado na cadeira do cinema querendo entender tudo que está em tela, querendo juntar todas as peças. No bom português: fazendo você entrar nessa onda que o filme está te convidando.

Tentando não entregar o ouro com muitos spoilers, mas a memória aqui é um dos pilares principais para digerir a história. Há um momento em específico, do qual Armando (Wagner Moura) está dando seu depoimento sobre como conheceu um certo personagem. E, assim como nossa memória, a cronologia dos fatos não estão em sua devida ordem. Então tudo que está sendo dito se torna ainda mais passional do que localizado no tempo. E é isto que mais importa. O jogo entre o que aconteceu, como lembramos e o que queremos enfatizar. E teremos muito isso aqui, situações que já estão na sua continuidade no cotidiano dos cidadãos, que não sabemos exatamente sua origem ou quem de fato está envolvido, tal qual memórias que não são tão claras em nossa mente. Nominalmente, inclusive. Os nomes aqui precisam ser falsos para a proposta da trama, mas também ecoam no sentido do quanto nossas lembranças ficam borradas, inacabadas, conforme os anos.

Outra questão sobre memória - e bem mais profunda - está em uma das cenas mais tocantes do longa, quando Armando recebe um desenho de seu filho das mãos de seu sogro (Carlos Francisco), com um recado sobre o esquecimento que o garoto estava ‘conseguindo ter’ da sua mãe (há um contraste aqui no esquecimento natural do menino com sua falecida mãe, e o esforço de Armando em lembrar de sua mãe, procurando os arquivos que comprovam sua existência). Há aqui um canhão tão sutil que te dá um nó na garganta, pois como está mais próximo do final, começamos a nos preocupar com o que pode acontecer com o nosso protagonista, lembrando-nos da idade de seu filho, e nos colocando no lugar dele. Quantas coisas maravilhosas que vivemos na nossa infância que hoje nem sequer lembramos.

E, por último, há uma espécie de (aqui eu estou dando um spoiler um pouco mais específico, então por sua conta em risco…) epílogo cuja metáfora com a importância de se repassar a memória é composta de modo belíssimo. O título do capítulo é “Transfusão de Sangue” e, tal qual uma propriamente, faz-se necessário o repasse das informações, a transferência do conhecimento. O que foi perdido com o tempo, caso tenha sido garimpado e encontrado, deve ser compartilhado. Aqui, temos uma pesquisadora (Laura Lufési) que sabe bem mais da vida de Armando do que seu próprio filho. Isto é, o embate entre o que está documentado (física e digitalmente) e o que é lembrado (fisio e biologicamente). É preciso doar o sangue, repassar essa informação, mostrar para o mundo quem nós fomos, o Brasil para os brasileiros. Não é só a história de Armando, mas dos outros ‘refugiados’ (ou renegados, ou perseguidos, entre outros termos) que Dona Sebastiana acolhe. Aliás, precisamos exaltar e apreciar o primoroso trabalho de Tânia Maria. O que Dona Tânia faz com Dona Sebastiana é de se aplaudir de pé. Quanto humor, quanta graça, quanto talento, quanto trabalho, quanta história, quanto amor há nela. Se for para sonhar, gostaria muito de um spin off só com um cafézinho da tarde com Dona Sebastiana contando sobre suas peripécias da juventude.

KMF, Wagner Moura e companhia fazem história com “O Agente Secreto”, ganhador de dois prêmios do aclamado Festival de Cannes, entre outras premiações (e contando…). Temos um filme envolvente e - como o próprio cartaz enfatiza - cheio de pirraça. Desse jeito mesmo, bem brasileiro, exaltando a cultura pernambucana e toda sua beleza. Desde a folia do carnaval até o terror da Perna Cabeluda. Sem contar as diversas referências cinéfilas espalhadas pelo filme. Algumas escondidas e outras escancaradas. Preciso confessar que não sabia absolutamente de nada da história do filme antes da sessão, procurei evitar ao máximo pegar algum spoiler. E, não ironicamente, assisti à “Tubarão” (1975) com minha namorada um dia antes. Então, devo dizer que foi muito especial para nós.

É preciso sempre lembrar, registrar, documentar e repassar toda nossa história para o mundo todo. As mortes dos nossos antepassados não foram em vão, e não devemos deixar que o esquecimento inevitável seja rápido. É preciso dar dignidade para nossa origem. Precisamos dar luz aos agentes secretos que se sacrificaram para estarmos hoje aqui. Nós, brasileiros, erramos muito ao esquecer algumas coisas. E são filmes assim, realizados com carinho por pessoas apaixonadas por Cinema, que nos fazem lembrar sobre quem somos.









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