Al Pacino e os dourados anos 70 de Sonny Boy
PersonagensConsiderado um dos maiores atores de todos os tempos, Alfredo James Pacino, o nosso bom e velho Al Pacino, dispensa apresentações. São inúmeros papeis marcantes em ótimos filmes, deixando performances inesquecíveis. Podemos lembrar do ambicioso Tony Montana do clássico “Scarface”, de Brian De Palma; de sua parceria marcante com Robert De Niro em “Fogo contra Fogo”, de Michael Mann; do militar aposentado cego Frank Slade de “Perfume de Mulher”, de Marlin Brest, o qual lhe garantiu seu aguardado Oscar de Melhor Ator em 1993; até mesmo interpretando a si mesmo no sensacional clássico de Adam Sandler “Cada um tem a gêmea que merece” (contém ironia, obviamente - eu só queria usar uma desculpa sem vergonha para mencionar o nosso queridinho de Hollywood). Certamente, é um ator extremamente versátil, muito conhecido por ser um profissional adepto do famoso e imersivo método de atuação, garantindo muito sucesso e longevidade tanto nas telonas quanto nos palcos, já que sempre manteve sua paixão pelo Teatro viva. Assim como todos nós, sou um grande fã de vários filmes do Pacino ao longo dos anos, suas atuações são realmente muito cativantes, fazendo com que nossos olhares se voltem exclusivamente para sua performance. Porém, particularmente, há uma época específica de sua carreira que acaba sendo minha favorita: os anos 70.

A Nova Hollywood foi um movimento cinematográfico muito importante nos Estados Unidos, com início no final dos anos 60, estendendo-se ao longo da década de 1970, ninho de diversos clássicos como “Operação França”, de William Friedkin, “A Conversação”, de Francis Ford Coppola, “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, dentre outros. Seus filmes foram marcados por uma nova safra de jovens cineastas, na época mais ‘alternativos’, em um período bastante turbulento e efervescente de contracultura. A juventude estava revoltada e indignada com os rumos do tal “sonho americano” e a mentira por trás dessa promessa, refletindo em personagens mais cinzas e obscuros, juntamente com finais melancólicos e desesperançosos. Neste cenário, muitos atores e atrizes se destacaram, e dentre todos eles, podemos afirmar que Al Pacino deixou sua marca com muita classe e elegância. Basta ver sua filmografia nessa época, indo muito além de - simplesmente - “O Poderoso Chefão”. Aviso que, em alguns comentários sobre os filmes, existem possíveis spoilers caso não tenha assistido a algum deles.

1971 - Os Viciados (The Panic in Needle Park), de Jerry Schatzberg
Aqui temos o primeiro papel principal de Al Pacino. Anteriormente, o ator havia feito somente uma breve participação, em 1969, no longa “Me, Natalie”. Dividindo o protagonismo com Kitty Winn, os dois interpretam Bobby e Hellen, um casal de jovens viciados em heroína, que acabam se afundando cada vez mais no submundo das drogas, envolvendo-se com tráfico e sofrendo crises de abstinência. Schatzberg dirige seus personagens de forma fria e crua, em uma Nova York totalmente suja e decadente, focando em suas reações no momento em que estão fazendo uso das substâncias. A ausência de trilha somada à câmera na mão, nessas cenas principalmente, criam um teor quase documental, transmitindo uma sensação agoniante no espectador, como se estivéssemos assistindo em tempo real à bad trip dos protagonistas.

Bobby, de Pacino, é um personagem muito intrigante. Desde o início do filme, percebemos que ele é cheio de amigos por toda a região do Needle Park, em Manhattan, ao mesmo tempo que se encontra totalmente sozinho, sem rumo, sem uma direção clara na vida, fazendo pequenos roubos, sustentando seu vício nas drogas. Suas atitudes acabam se refletindo diretamente na constante queda de Hellen, uma personagem que se encontra totalmente perdida no mundo, sem moradia, entrando no vício por conta da influência do namorado, culminando em escolhas extremas para sobreviver e ganhar dinheiro com a finalidade de manter o ciclo do uso das substâncias químicas. A interpretação de Pacino acaba se destacando pela profundidade que ele trás a um personagem quebrado, que tem a consciência de que está em um caminho sem volta, mas não pretende parar, pois já se condicionou a isso. Fato que contrasta com a paixão enérgica vivida com sua amada Hellen que, mesmo apresentando sinais tóxicos (literalmente) de auto destruição mútua, apresentam uma sinergia instigante, deixando um sentimento amargo ao público que sabe que nenhum dos dois terá redenção em seu fim. Al Pacino brilha aqui com toda sua intensidade performática e melancolia silenciosa, fator este que seria muito fundamental em seu próximo papel.

1972 - O Poderoso Chefão (The Godfather), de Francis Ford Coppola
Seguramente, um dos maiores filmes de todos os tempos. Sempre lembrado em todas as listas, no topo. A respeito disso, não tem muito o que dizer. É um clássico obrigatório! Teria que fazer um ensaio inteiro apenas sobre esse filme, ou sobre a trilogia inteira, para poder destrinchar tudo que envolve o longa com o devido respeito. Até porque, além do Pacino, temos Marlon Brando, James Caan, John Cazale, Robert Duvall, Diane Keaton, dentre outros nomes importantíssimos. É de vasto conhecimento uma história bastante curiosa na produção deste filme, sobre a quase saída do Al Pacino no papel de Michael Corleone. A grande real é que a Paramount não estava satisfeita com a atuação do, até então desconhecido, ator iniciante. Mas Coppola tinha um plano. Ele sabia que o arco do Michael era a chave fundamental da história e, com certeza, Pacino era o ideal para o papel. Até que o diretor decidiu gravar de vez a famosa cena do restaurante, da qual o personagem de Michael “entra de vez” nos negócios mafiosos da família. A partir disso, Al Pacino foi ganhando o respeito e a admiração de toda a equipe, culminando na composição de um dos personagens mais fascinantes da história do Cinema.

A forma como Pacino demonstra sutilmente sua transformação ao longo das quase três horas de filme é muito admirável. No início, encontra-se bastante deslocado da família, com um visual e olhar mais ingênuo, querendo se distanciar dessa imagem mafiosa dos Corleone. Conforme tudo vai se desenrolando, e a cada decisão importante que precisa tomar, é possível sentir o pesar em seus olhos, não precisando ser dito para entendermos que a esperança que existia no começo já não existe mais, dando lugar à frieza e crueldade silenciosa que aquele submundo o traz lentamente. Uma das cenas mais bonitas do longa é na conversa entre pai e filho, Vito e Michael, Brando e Pacino, na qual o Don reforça que nunca quis isso para a vida de seu caçula promissor, ao passo que sua “transformação” está cada vez mais próxima de chegar a sua totalidade. Aqui encontramos um show de atuação de todas as partes. Mesmo estando entre gigantes, Pacino consegue se sobressair em muitos momentos. No entanto, há muitos astros para se prestar atenção aqui, fazendo com que seja na “Parte 2” que o personagem do Michael se destaque ainda mais. Um detalhe extra é que foi aqui que Pacino teve sua primeira indicação ao Oscar, no caso como Melhor Ator Coadjuvante.

1973, abril - Scarecrow (Espantalho), de Jerry Schatzberg
Aqui temos a parceria Schatzberg/Pacino novamente, porém com outro nome de peso para dividir o protagonismo: o grande Gene Hackman. O filme acompanha Max (Hackman) e Francis ‘Lion’ (Pacino), dois desconhecidos que se encontram por acaso, pedindo carona na estrada. Enquanto Max quer ir até Pittsburgh para investir em um novo negócio de lavagem de carros, após ter passado seis anos na prisão, Lion planeja ir para Detroit presentear seu filho que ainda não o conhece. Max propõe uma parceria com Lion e, assim, nasce uma amizade inusitada entre duas personalidades completamente diferentes. Um é bastante temperamental, ficando nervoso com facilidade, o que faz com que arranje inúmeras brigas no decorrer do longa. O outro é mais brincalhão, um tanto irresponsável, desleixado, tentando fazer gracinha o tempo todo. Este último é Lion. Tal característica do personagem faz aflorar uma vertente mais cômica e teatral na performance de Pacino, demonstrando bastante fisicalidade em sua atuação.

Um ponto a ser exaltado é que para se preparar para o papel, Pacino, grande adepto do método, vestiu-se de mendigo nas ruas de São Francisco para entender como funcionava a rotina e o cotidiano de um andarilho. Normalmente, na filmografia de ambos os astros, não costuma ser um filme muito lembrado, deixando um ar de raridade subestimada. De fato, é uma joia rara deslumbrante assistir a Hackman e Pacino em diversas desventuras, passando por situações divertidas e, até, engraçadas, mas também por desfechos dramáticos e, alguns até, traumáticos. Fato este que exige bastante da versatilidade de seus atores. Aqui Pacino está realmente muito divertido e carismático, fazendo com que o espectador sinta toda sua dor e desolação, principalmente em dois momentos marcantes: na tensão da tentativa de estupro por parte do companheiro de detenção, e no final, quando sua ex-esposa mente ao telefone ao dizer que seu filho - que jamais havia conhecido - nem sequer nasceu, alegando ter sofrido um aborto. Nesta hora, em particular, analisamos de forma completa todo o arco do personagem de Pacino, remetendo à sua fala no início do filme, a respeito dos espantalhos. No pensamento, discutido com Max, Lion menciona que os fazendeiros não deixam um espantalho nas suas plantações a fim de espantar os corvos, mas sim porque fazem os corvos rirem. Ao proporcionar o riso e divertimento dos corvos, os próprios entendem que aquele fazendeiro é uma pessoa legal e decidem não perturbá-lo. Ao receber a dolorosa notícia de sua ex-mulher, Lion guarda tudo para si, fingindo estar alegre e saltitante para seu parceiro, por saber que era pai de um menino. No entanto, não consegue escapar de um colapso nervoso, culminando em um estado catatônico posteriormente, ao brincar com algumas crianças no parque, ativando certos gatilhos. O personagem de Hackman, por sua vez, durante todo o filme apresentado como o conceito clássico de um espantalho, com seu jeito “repulsivo” pela personalidade agressiva, sente verdadeiramente uma possível perda de um grande amigo, e está disposto a ajudá-lo e a voltar para seguir seus sonhos juntos, pois é tudo que os dois acabam tendo, um ao outro. Uma performance bastante cativante e esquecida de Pacino, bastante subestimada.

1973, dezembro - Serpico (Serpico), de Sidney Lumet
Este aqui é, além de subestimado, muito curioso de se assistir, principalmente ao pensar que está entre os dois “Poderoso Chefão”, pelo simples fato de contar a história real de Frank Serpico, um policial idealista incorruptível, que denuncia um famoso caso de corrupção da polícia de Nova York, nos anos 70. É curioso pelo fato de, no início, o filme nos apresentar Serpico, interpretado por Pacino, em sua formatura na academia de polícia, com um olhar determinado como alguém que está prestes a construir uma carreira brilhante, dentro de seus princípios. Fato este que nos remete, consequentemente, ao jovem militar Michael Corleone, àquele que não tinha entrado ainda nos negócios da família. Além disso, aqui podemos ver também a passagem de tempo, baseando-se no visual de Al Pacino. Além de demarcar a cronologia, isto está relacionado ao deslocamento de Frank naquele ambiente hostil e condenado. Enquanto todos se vestem de modo “apropriado”, com seus cabelos curtos e ternos sofisticados, o personagem de Pacino se veste muito mais como um hippie do que um tira, devido ao seu ofício de policial à paisana - é claro - mas também como uma forma de negação ao que está sendo exposto ali, uma declaração de “não pertencimento”. Sem contar que por si só já é um barato assistir Al Pacino cabeludo, de bigode, barbudo, entre outros visuais inusitados.

Nesta primeira contribuição de Lumet com o ator, podemos ver a versatilidade hipnotizante que ele trás em sua performance. É notável o sentimento transmitido de indignação e medo por conta da sua situação. Frank acompanha, a cada tentativa frustrada, a decadência do sistema corrupto de suas instituições, deixando o protagonista furioso, ao mesmo tempo que está temendo pela sua vida, pois sabe do que as pessoas envolvidas nesse escândalo são capazes, o que nos proporciona uma atuação altamente intensa, fluindo entre ira e desespero. Um fator importante aqui é que Al Pacino tem o filme todo praticamente em prol dele, o que destaca ainda mais sua atuação. Um ponto que prova isso são as poucas passagens em que ele não está em cena, fazendo com que fiquem desinteressantes. A alma do longa está em Pacino, a força motriz é a vontade que seu personagem tem em cumprir essa missão quase suicida. É, de fato, uma grande performance que lhe rendeu sua primeira indicação na categoria principal de atuação no Oscar.

1974 - O Poderoso Chefão: Parte 2 (The Godfather Part II), de Francis Ford Coppola
Há quem diga que esta sequência é melhor que o original. Particularmente, prefiro o primeiro, mas estamos lidando com duas obras absolutamente excepcionais! Dito isto, é no segundo capítulo que Al Pacino brilha mais. Embora o filme se passa em duas linhas do tempo diferentes, sendo que em uma delas acompanhamos um jovem Vito Corleone, vivido magistralmente por Robert De Niro, quando estamos no tempo presente da história, podemos ver o drama da queda de Michael Corleone, sendo interpretado com um maior domínio agora, onde percebemos toda a frustração o corroendo por dentro apenas com um olhar.

É inegável que uma das melhores cenas é a do famoso “beijo da morte”, quando Pacino nos passa vários sentimentos em apenas uma cena: tristeza, raiva, decepção, melancolia. Além de outras performances igualmente intensas, como a tensão formada entre Michael e sua esposa Kay (interpretada por Diane Keaton), onde sabemos que aquela relação está totalmente em ruínas. Aqui, Pacino interpreta um Michael muito mais frio, ficando nítido que àquele do início do primeiro já morreu há muito tempo. Há outra cena, muito famosa, onde podemos perceber o amargor interno que se passa em sua cabeça, sentado sozinho à mesa de jantar, depois de percebermos que ele é o único que restou da Família (mesmo sendo uma espécie de “flashback” - quando o velho Vito ainda estava vivo - é demonstrado que Michael sempre esteve distante da família, tanto na época em que não pensava em entrar nos negócios criminosos, quanto quando já havia entrado profundamente), contrastando a diferença entre os Dons. Vito se importava com a família, todos o amavam. Michael se fecha para a família, não se importa com mais nada. Uma das melhores atuações de Pacino, muitos consideram a melhor. No entanto, pessoalmente prefiro a performance do próximo filme.

1975 - Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon), de Sidney Lumet
Tirando o elefante da sala, “Um Dia de Cão” é meu filme favorito do Al Pacino. Aqui a parceria Lumet/Pacino se consolida ainda mais em um dos maiores clássicos do cinema americano. São muitas cenas marcantes que ficaram na minha cabeça. Primeiramente, só o fato de ser baseado em uma história real já chama bastante atenção devido ao modo em que tudo vai se escalonando aqui. O pôster do filme já revela: “O roubo deveria ter levado apenas 10 minutos. 4 horas depois, o banco parecia um espetáculo de circo. 8 horas depois, era notícia em toda a rede de TV. 12 horas depois, se transformou em uma história emocionante”. Aqui, Pacino brilha, ao lado de seu companheiro de “O Poderoso Chefão”, John Cazale, como Sonny e Sal, respectivamente, dois assaltantes atrapalhados que tentam roubar um banco no Brooklyn. Porém, tudo começa a dar errado quando chamam a atenção de toda a vizinhança, virando notícia em todo o país, dando espaço para toda uma discussão que estava incendiando os Estados Unidos naquela época.

O filme se passa em 1972, pós-rebelião do presídio de Attica, no ano anterior, onde muitos presos, além de pessoas inocentes, acabaram assassinados. Além disso, a juventude já estava há um tempo em grande contestação com as autoridades e as instituições do país, sendo palco para o surgimento de muitas obras provenientes da contracultura, seja no Cinema ou na Música (sugiro a faixa “Attica State”, do álbum “Sometime in New York City”, de 1972, de John Lennon). Este episódio é importante, pois dá um tempero a mais em uma das cenas mais memoráveis do filme, onde Pacino - de forma improvisada - grita “Attica! Attica!” para toda a população que estava em volta do banco durante o circo midiático que estava se formando, provando que todas aquelas pessoas estavam torcendo para o assaltante, do qual sabemos que é um veterano da guerra do Vietnã. Este detalhe também é importante, pois é um retrato da realidade daquela época, mostrada em muitos filmes que abordam essa temática. O Vietnã deixou uma marca totalmente obscura nessa geração, escancarando a decepção com o “sonho americano”. A geração “paz e amor” estava totalmente quebrada e indignada. Os anos 60 começaram promissores e terminaram totalmente melancólicos. A Nova Hollywood é um retrato bastante fiel ao sentimento que pairava em todos na época. E, nesse filme, podemos ver isso nitidamente em uma das maiores atuações de Al Pacino, como se tudo que estava sendo dito e sentido por seu personagem fosse um espelho da sociedade. Ademais, ainda há outro ponto importantíssimo, e à frente do seu tempo, que é abordado aqui, da qual entendemos o porquê de Sonny estar fazendo aquilo. Existe toda uma questão envolvendo sua esposa, onde é abordado temas como direitos LGBTQIA+, além da transfobia generalizada da época, somada à falta de visibilidade que gays e pessoas trans sofriam (e sofrem até hoje). São tantas camadas, tantos temas, que chega a ser irônico o fato do filme todo se passar em, apenas, um dia. Além de Sonny, todos os personagens secundários são interessantes para se entender a nuance da gravidade daquele cenário. No entanto, Al Pacino rouba o filme todo para si, pois aqui é Sonny quem está no “controle” para a negociação com a polícia, ao passo que sua mente está totalmente descontrolada por todos os traumas que permeiam seus pensamentos (mesmo sem conhecermos muito sobre ele em boa parte do filme, sabemos que ele está à beira de um colapso). Neste filme, Pacino entrega desespero, tristeza, loucura e, até, momentos cômicos. Filmaço!

1977 - Um momento, uma vida (Bobby Deerfield), de Sydney Pollack
Para começo de conversa, a crítica e o público foram muito injustos com “Bobby Deerfield”. E não acho isso pelo fato de que talvez seja um grande filme, com um ótimo roteiro e atuações memoráveis. Não é! Mas, particularmente, é um dos meus favoritos, devido à delicadeza que há na atuação de Pacino, ao lado de Marthe Keller. A injustiça está baseada no fato do sarrafo estar muito alto. Al Pacino vinha de quatro indicações seguidas no Oscar (o que é um crime não ter ganhado nenhuma), construindo sua carreira com ótimos filmes que entraram para a cultura popular de modo instantâneo. Por conta disso, foram anos intensos para o ator, fazendo com que ele precisasse de uma pequena pausa, voltando dois anos após seu último longa. Aqui, Pacino interpreta um famoso piloto americano de Fórmula 1, chamado Bobby Deerfield, do qual acaba de presenciar um terrível acidente com dois colegas de profissão. Morando em Paris, e viajando por toda a Europa devido à profissão, Deerfield se encontra muitas vezes sozinho, cada vez mais distante de todos à sua volta, inclusive de seus laços familiares. Ao visitar o amigo depois do acidente, em um hospital nos Alpes Suíços, conhece Lillian (interpretada por Keller), uma paciente que está lidando com uma doença terminal. Neste filme, temos dois atores em pura sintonia em tela. Na época, Keller e Pacino estavam vivendo um romance, o que acabou refletindo na química entre os dois durante o filme todo. É de uma beleza extremamente delicada a forma que os dois atuam juntos, com seus diálogos ora profundos ora despretensiosos - por muitas vezes, completos devaneios - incorporam a sensação mútua que há entre duas pessoas que estão se amando e se encantando um pelo outro, pela forma como o outro fala, dispersa, divaga, vive.

Podemos dizer que, além de Al Pacino, o grande destaque é a performance cativante de Keller dando vida à essa personagem que, a princípio, não sabemos muito sobre sua condição. Lillian aparece como alguém inquieta, internada em um hospital, mas não se sabe do que está tratando, com um espírito de liberdade direcionando suas ações. Aos poucos, seu jeito intrigante acaba atraindo Bobby, deixando-o mais aberto às relações. Há tanta versatilidade que podemos ver um outro Al Pacino dentro do mesmo filme. Ao início, temos um personagem mais fechado, avesso ao passado, ignorando seu irmão e algumas fotos da família. Já em outra cena, em uma conversa despretensiosa com sua parceira, temos alguém sorridente, empolgado, abrindo-se profundamente ao mostrar essas fotos, pois se sentia confortável ao estar com ela. Muitas das críticas na época se ancoraram na opinião de ser “melodramático demais”. De fato, há muito melodrama ao longo do filme, do qual, no entanto, não é um ponto negativo para mim. Creio que dá mais substância há uma relação que durou muito pouco, quase como se fosse um sonho. O título no Brasil retrata bem o que o filme propõe: um momento, uma vida. Bobby e Lillian vivem um romance, mesmo sabendo que pouco tempo depois o fim já iria chegar. Destaco a atuação de Pacino em duas cenas: a primeira é próxima ao final, quando seu personagem senta ao lado de um floricultor, apenas porque “queria estar com alguém”, pois dentro de sua cabeça estava um turbilhão de pensamentos referentes ao estado de Lillian. Já a outra, é a última cena do filme cuja composição contrasta com outras cenas anteriores, em um mesmo cenário. Bobby está voltando para casa, no vagão de um trem, depois de “viver o sonho”, mas agora está sozinho, com um olhar perdido, sem a certeza de que vai sentir novamente o que sentiu nos últimos dias. Uma das performances mais subestimadas de Al Pacino.

1979 - Justiça Para Todos (...And Justice for All), de Norman Jewison
Último filme de Al Pacino na década de 70, agora interpretando Arthur Kirkland, um advogado idealista bastante comprometido em defender seus clientes de um sistema totalmente corrupto e desonesto. Certamente, aqui temos um dos monólogos mais marcantes do Cinema, com a cena final no tribunal, onde assistimos a uma daquelas atuações vibrantes que Pacino consegue entregar com muita verdade e intensidade. Além de toda a dramaticidade baseada na temática principal do filme, envolvendo o Direito e todos os seus dilemas por trás da defesa de criminosos, também temos muitos aspectos cômicos, adicionando elementos de pura confusão e perturbação do inconsciente ao discutir, sutilmente, questões pertinentes sobre tendências suicidas e colapsos mentais, em alguns personagens secundários. Todos os casos de Arthur são intrigantes, focando-se em três especificamente, dois deles acabam tendo um destino cruel, devido ao efeito dominó das consequências provenientes da falha de um sistema judiciário problemático. As reações de Pacino nessas cenas, por exemplo, são delicadas e emocionantes, variando entre lágrimas de indignação em um estacionamento e descontentamento em um banco na praça.

Em paralelo à luta constante de Arthur em defender seus clientes, acompanhamos o seu dilema em ser coagido a ser o advogado de um juiz cujo histórico com o protagonista é totalmente conflitante e negativo. Arthur sabe que o juiz Fleming (interpretado por John Forsythe) é culpado da acusação de estupro. Ele sempre soube… e, quando chegou a hora, não hesitou em fazer o que achava que deveria ser feito, mesmo sabendo que estaria assinando a sentença do fim de sua carreira. Toda a construção para o ápice do julgamento é perfeita, ficamos o tempo todo esperando para ver o que Arthur irá de fato fazer. Grande cena e performance de Pacino! Ademais, é notável destacar as cenas tocantes entre Pacino e seu tutor (mestre do Método) e amigo Lee Strasberg, do qual interpreta o avô de Arthur. Já tínhamos assistido os dois juntos em cena em “O Poderoso Chefão: Parte 2”, como antagonistas, mas aqui tudo acaba ficando mais comovente ao sabermos do histórico de amizade e relação de aluno-professor que os dois atores tinham, transmitindo em tela um carinho tocante entre avô e neto. “Justiça Para Todos” está, com certeza, entre os melhores e mais celebrados filmes de Al Pacino, sendo marcado como o último de uma década valiosa para sua filmografia.

É curioso o fato de Pacino não ter conquistado nenhum Oscar com todas as indicações nestes filmes dessa época. Dentre tantas indicações em prêmios notáveis, conseguiu conquistar o Globo de Ouro de Melhor Ator em filme dramático com “Serpico”, além do BAFTA de Melhor Ator com “O Poderoso Chefão: Parte 2” e “Um Dia de Cão”. Claro que não foi apenas nesse período em que teve suas melhores performances. O ator, ainda, teria uma carreira toda pela frente, acumulando sucessos ao longo de toda sua jornada. Como mencionado no início, ainda tivemos os clássicos “Scarface”, “Perfume de Mulher”, “Fogo contra Fogo”, além de participar de outros papeis emblemáticos em “O Pagamento Final”, “O Informante”, “Donnie Brasco”, “Insônia”, entre outros. Isso, apenas, para citar alguns. Durante todos esses anos, até hoje, temos ótimos filmes com o ator, o que nos proporciona incontáveis experiências ao presenciar esse grande nome em cena.

Por fim, é inegável a importância de Al Pacino para o Cinema, elevando o nível de suas performances a um patamar de emoção e versatilidade altíssimos. Cabe a nós apreciarmos seus inúmeros filmes com muita admiração. É sempre maravilhoso assistir Al Pacino, principalmente por duas razões: uma que são muitos filmes, então mesmo depois de já assistir os mais famosos, ainda há os subestimados considerados uma joia rara; outra que rever todos esses clássicos é sempre válido, um deleite. Particularmente, minha década favorita de sua carreira é, de fato, os seus anos dourados, a década de 1970. Aprecio demais cada um de todos os filmes ao longo desses anos. Dos mais celebrados aos mais desvalorizados. Al Pacino é um dos maiores que temos e continua nos emocionando e fazendo parte de nossas vidas. Não importa que filme seja, é sempre prazeroso assistir Al Pacino. Sua obra merece ser celebrada eternamente. É histórica! Viva Al Pacino, que hoje, aos 85 anos, continua nos tocando e nos fazendo ficar ainda mais apaixonados pela sétima arte! Encerro aqui com uma imagem do bom e velho Sonny Boy caminhando, escutando alguma música nos seus fones de ouvido, no seu celular com sua capinha do Shrek! Dá-lhe Alfredo!









































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