Tá Todo Mundo Louco MESMO... e não era isso que você queria, afinal?

Críticas Gerais

Não sei, repentinamente surgiu uma oportunidade de rever esse aqui e, consequentemente, bateu uma vontade genuína de trocar uma breve ideia sobre. Acho pertinente o tema e a abordagem das motivações dos personagens. E é um filme que revi muito na infância. Considerado um clássico da Sessão da Tarde nos anos 2000, “Rat Race”, ou “Tá Todo Mundo Louco” é uma comédia dirigida por Jerry Zucker, lançada em 2001, estrelada por grande elenco como Rowan Atkinson, John Cleese, Whoopi Goldberg, Cuba Gooding Jr, Seth Green, Vince Vieluf, Jon Lovitz, Breckin Meyer, Kathy Najimy e Amy Smart.

 

Trio ZAZ e as comédias pastelão clássicas

 

Zucker é muito reconhecido pela sua parceria com David Zucker e Jim Abrahams (o trio ZAZ) em comédias clássicas dos anos 80, tendo dirigido filmes como “Apertem os cintos… o piloto sumiu!” e “Top Secret! Superconfidencial”. Seu estilo de comédia pastelão acabou angariando uma geração de fãs apaixonados por toda aquela leva de filmes estrelados por Leslie Nielsen. A partir do sucesso dessas produções, houve um período onde esse gênero encontrou seu auge, ficando marcado ali por volta dos anos 80, 90 e conseguindo se manter (aos trancos e barrancos) até meados dos anos 2000, com exemplos como “Todo Mundo em Pânico”. É perceptível a falta de força que esse tipo de humor mais bobo, com piadas literais e absurdas, beirando o nonsense, acabou ficando menos popular conforme os anos foram se estendendo no século XXI. Isto fez com que muitos filmes dessa época não fossem contemplados com seu devido reconhecimento merecido. Muitos deles até acabaram fazendo um certo barulho entre o público, mas principalmente no lançamento em DVD, obtendo seu sucesso entre as locadoras da época. No entanto, durante seu período de lançamento nos cinemas, não engataram nas bilheterias, além de não agradarem tanto a crítica especializada.

ZAZ: The Collection! : Leslie Nielsen, Julie Hagerty, Robert Hays, Val  Kilmer, Zaz: Amazon.com.au: Movies & TV

Certamente, sempre que se comenta acerca de filmes de comédia mais antigos, costuma-se debater sobre os tipos de piadas que eram aceitas na sociedade daquela época, e como muitas delas não se encaixam mais nos dias de hoje. Mesmo havendo tal revisionismo, ao se desprender desses fatores e encarar a obra como um produto de seu tempo, temos muitos exemplos que se mantêm até hoje como ótimos filmes. Isto é, mesmo com uma reavaliação, a experiência em si não fica comprometida.

 

Dito isto, sinto que “Tá Todo Mundo Louco” é um tesouro esquecido em meio a tantos besteiróis genéricos dessa época. Como mencionei, esse filme foi exibido na Sessão da Tarde inúmeras vezes. Logo, muitas pessoas (inclusive eu) acabaram criando um certo carinho por esse longa, dando uma sensação de conforto. O filme tem muitos elementos que dão conforto, como o próprio carisma de Whoopi Goldberg (é incrível como muitos filmes com ela se encaixa na lógica de ‘comfort movies’), além das palhaçadas de Rowan Atkinson, o eterno Mr. Bean. Além disso, aqui temos John Cleese (vida longa ao Monty Python!) em um personagem extremamente divertido pela excentricidade e imprevisibilidade.

 

 

UMA CORRIDA DE MILHÕE$

Em relação à trama, basicamente temos Donald Sinclair (John Cleese) sendo um bilionário excêntrico, dono de um cassino em Las Vegas, que está promovendo uma corrida em busca de 2 milhões de dólares, por puro entretenimento e diversão para outros companheiros ricos que também estão com o dia livre para essas bobagens. Dentre os participantes (e seus aliados) desta corrida, temos: Nick (Breckin Meyer), um advogado certinho com receio de quebrar as regras; Tracy (Amy Smart), uma piloto de helicóptero que acaba se tornando parceira de Nick; Owen (Cuba Gooding Jr), um árbitro de futebol que recentemente deixou uma torcida toda furiosa devido à uma decisão em uma partida; Duane e Blane (Seth Green e Vince Vieluf), dois irmãos picaretas que planejam pequenos golpes para ganhar dinheiro; Vera e Merrill (Whoopi Goldberg e Lanai Chapman), mãe e filha que estão tentando se reaproximar; Randy e Bev (Jon Lovitz e Kathy Najimy), um casal de turistas que está passando as férias com seus filhos; e Enrico (Rowan Atkinson), um turista italiano que sofre de narcolepsia. Eis aqui um time perfeito de estranhos desajustados que estão loucos (como o próprio título brasileiro revela) para abocanhar essa grana.

Além desses personagens centrais, ao longo do filme surgem outros tão malucos quanto. Temos o advogado de Sinclair que “tragicamente, nasceu sem personalidade”, até chegar próximo ao fim e tentar fugir com a grana ao lado de uma acompanhante de luxo que havia contratado. Também tem um chaveiro que escuta os irmãos malandros mencionarem sobre o prêmio, fazendo com que ele fique (adivinhem…) louco também. Ademais, também temos a participação de Wayne Knight (figurinha carimbada dos anos 90) interpretando um homem atrapalhado que precisa transportar um coração para um transplante.

 

Desesperadamente, todos os personagens envolvidos acabam sendo tomados pela ganância, passando por situações extremas para conseguir a bolsa bilionária. Uma das situações dignas de “Corra Que A Polícia Vem Aí” vem com Randy e sua família. Após observar uma placa fazendo a propaganda de um suposto “Parque da Barbie”, a filha de Randy pede incessantemente para seu pai parar o carro. Porém, não se tratava da boneca, mas sim de um museu nazista. A confusão escalona em um nível absurdo, fazendo a família dirigir o carro de Hitler, até que - depois de um mal entendido na estrada, eles acabam invadindo um encontro de veteranos da 2ª Guerra Mundial. Outra cena que merece destaque é depois que os irmãos golpistas fogem do chaveiro - do qual ficou voando por aí em um balão (com uma vaca!) - e acabam se distraindo ao flertar na estrada, chegando a invadir uma apresentação de caminhão monstro. Isso rende uma sequência em slow motion maravilhosa, inclusive.

COMEDY: Rat Race (2001)

Definitivamente, é uma daquelas comédias absurdas bem a cara das produções ZAZ mesmo cujo sucesso foi muito forte nos anos 80 e 90, e conforme os anos foram perdendo o interesse do público. É evidente que existam piadas durante as esquetes do filme que acabam ficando datadas. Mas há muito a se aproveitar aqui.

 

O vencedor ou Eu que já não sou assim muito de ganhar

 

O atrativo mesmo é ver que, mesmo sendo uma comédia nonsense, é um interessante estudo de caso sobre até onde o ser humano chega para conquistar algo, principalmente dinheiro. Já é da cultura popular o entretenimento com realities shows e seu crescente interesse do público. Muitas vezes, o que acaba atraindo a atenção das pessoas é justamente o embate, desafiar os limites ou - no bom português - a baixaria mesmo. Todo mundo se rebaixando, passando por cima dos outros, pensando apenas em seus interesses pessoais, tornando-se cego ao mundo e às consequências ao redor. A cultura do pão e circo sendo comandada por uma elite muito seleta e sádica, da qual se diverte com literalmente qualquer coisa. Particularmente, a piada que mais gosto do filme é uma recorrente que fica mostrando pequenas apostas aleatórias que os ricos fazem, enquanto a corrida ainda não acaba. É hilário, por exemplo, quando estão dentro de um avião que se encontra balançando, e estão esperando para ver quem será o primeiro a vomitar. Aliás, as comemorações de John Cleese nessas cenas são impagáveis, usando aquela dentadura gigante e brilhantemente branca. Aliás, hoje em dia com o aumento do vício em jogos de aposta nessas plataformas atuais, faz-se ainda mais realista esse cenário exacerbado entre os ricaços.

Rat Race (2001) - John Cleese as Donald P. Sinclair - IMDb

Sem contar que é interessante o modo como os participantes da corrida, a princípio, ficam receosos, fazendo-se de desinteressados para disfarçar perante os outros. O que não dura nem um minuto sequer, pois não conseguem esconder a ganância gritando em suas cabeças. Além de alimentar nossos sonhos românicos escondidos em ver esses gladiadores se matando, é intrigante o modo que o filme provoca um questionamento com o próprio público: nós, nesse contexto, não faríamos o mesmo por tanto dinheiro assim? Pode apostar que a resposta é, infelizmente, sim. O longa opta por exageros, mas no mundo real existem situações até piores. E este fator contrasta com o que mencionei no início do texto, particularmente falando.

 

Considero esse um “comfort movie” devido ao apreço de lembrar de assisti-lo na Sessão da Tarde na infância. Entretanto, devo admitir que ataca uma certa ansiedade bem desconfortável ao ver todas essas pessoas loucas (realmente, o título não mente) e insanamente inconsequentes, sendo devoradas pela competitividade. Tal pensamento retroalimentado pelo sistema capitalista que tanto nos perturba e tira o sono com suas matemáticas mercadológicas e políticas neoliberais injustas, maquiadas pela falácia da meritocracia. De fato, a competitividade nos torna pessoas chatas. Vamos ser sinceros, não tem outra palavra. Mas é inegável que isso entretém, pois isso causa um curioso desbalanceamento na ordem. Sinto que fico muito incomodado com isso pelo fato de não me considerar uma pessoa adepta a jogos altamente competitivos. Lógico, gosto de jogar entre amigos, mas sem pretensões. Quando percebo que está tendo uma competitividade beirando o desagradável, já começo a me desanimar e me ataca uma ansiedade muito aborrecida. Digo isto porque nas poucas vezes em que tive esse sangue no olho competitivo (ou, pelo menos, nas vezes em que me obrigaram a isso - às vezes, declaram guerra contra você, aí não tem como escapar disso), minutos depois já começava a me sentir mal. Diferente de algumas pessoas que já presenciei revelarem que gostam dessa adrenalina efervescente do “game”. Não sei explicar muito bem. Essa - nominalmente - “rat race” do ser humano atuando como rato em um labirinto, em busca de qualquer tipo de poder, acaba revelando faces das quais tentamos esconder por algum motivo. Porém, não há como negar. O show tem que continuar… e a audiência também. É assim que o jogo funciona. Como diz Maximus Decimus Meridius: “Are you not entertained?”. E não estamos? Com certeza, estamos! E continuará assim, com todo mundo ficando ainda mais louco (aliás, esses títulos brasileiros bem sessão da tarde deveriam voltar com força, né?).

Por fim, concluo que “Tá Todo Mundo Louco” é um filme que, mesmo apresentando um humor de uma época que já passou, ainda é e continuará muito atual ao retratar a ganância e o limite do ser humano em situações de competitividade. Além de ter um elenco que exala anos 90 e 2000, alimentando aquela nostalgia gostosa que de vez em quando gostamos de revisitar, terminamos o filme com uma vontade absurda de fazer uma dobradinha com “Shrek”, por conta da apresentação de encerramento do Smash Mouth. Ok, o filme pode ser bem datado, mas era uma época especial, há de se concordar! Portanto, “Rat Race” merece ser reassistido de tempos em tempos, incontáveis vezes, por ser uma pérola esquecida da comédia dos anos 2000.

Comentários 1

B
Brie Moreno12 de outubro de 2025
👏🏻👏🏻👏🏻 reflexão essencial nos dias de hoje, mandou bem

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