Anônimo 2 | A arte moderna dos Filmes de Tiozão
Críticas GeraisRecentemente, tivemos o lançamento de “Anônimo 2”, dirigido por Timo Tjahjanto e estrelado por Bob Odenkirk, quatro anos após o elogiado primeiro capítulo. A sequência chegou em agosto, juntando-se a boas e efetivas produções de ação que saíram esse ano, como “Bailarina”, “Missão: Impossível - O Acerto Final”, “F1: O Filme”. A trama acompanha as férias de Hutch Mansell (Odenkirk) e sua família em uma pequena cidade afastada turística em Plummerville. O que deveria ser uma viagem para colecionar memórias em família, acaba se tornando em um banho de sangue entre o nosso bom e velho Nobody e uma misteriosa máfia local liderada por Lendina (interpretada por Sharon Stone). Certamente, muito do sucesso entre público e crítica do primeiro filme foi baseado na febre John Wick dos últimos tempos. Podemos refletir que tal fenômeno foi uma atualização dos filmes de ação que sempre cativaram o público adulto masculino, agregando um acervo inteiro de “filmes de tiozão”, perfeitos para assistir pós almoço de domingo.

Ode ao Casca Grossismo
É fato que os anos 80 e 90 foram solos extremamente férteis para o desenvolvimento de inúmeros exemplares do gênero. Época de ouro para os chamados "brucutus casca grossa” Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone, Jean-Claude Van Damme, entre outros. O estereótipo brutamontes e descontrolado contrastava com os clássicos orientais espiritualizados e centrados como Bruce Lee, por exemplo. Filmes como “O Predador”, “Comando Para Matar”, “Conan”, “Rambo II” e “O Grande Dragão Branco” foram re-exibidos inúmeras vezes na televisão, permanecendo no imaginário popular como ícones do cinema de ação. Dentro dessa construção, uma base de fãs foi crescendo e repassando sua paixão para as outras gerações, introduzindo-os à estes clássicos sessão pipoca, enquanto também prestava atenção nos lançamentos contemporâneos.

Os ingredientes e o modo de preparo
Seguindo em frente com a cronologia, em meio à ótimos longas nos anos 2000, tivemos uma porção de filmes genéricos espremendo, até a última gota, os componentes exagerados que costuma atrair esse público-alvo (geralmente homem adulto 40+, pai, casado ou - muitas vezes - divorciado, ora escutando Guns ‘n’ Roses e Metallica no pen drive do carro, ora as melhores do sertanejo dos anos 90, ou coisas do tipo). Isto é, cenas de perseguição de carros turbinados e coloridos, explosões em galpões vazios, bandidos russos e seus capangas, femme fatale genérica mesclando entre pouquíssimas falas e momentos de sexualização gratuita, homens suados e carecas de regata branca, uma gangue de mexicanos liderados por algum Héctor aleatório, um filtro sépia saturado, dentre outros clichês. A diferença é que, conforme os anos foram passando, não necessariamente o protagonista tinha a obrigação de ser um fisiculturista gigantesco como nos últimos vinte anos. Isso acabou plantando uma semente de uma nova tendência na figura do astro de ação, juntamente com a direção e o roteiro desse tipo de filme, alguns até indo para caminhos mais realistas (pegando carona na era pós-Nolan com Batman Begins). Por um lado, tivemos a ascensão de bons nomes no gênero, como o próprio Jason Statham sendo uma das principais figurinhas carimbadas da época, com “Carga Explosiva” e “Adrenalina” (seguramente, em algum sábado à noite nos anos 2000, em meio à uma crise existencial, você viu um filme de ação genérico com este elegante ator britânico calvo, no Supercine na Globo - ah, aquela vinheta!). Além disso, também tivemos a consagração de experientes atores em franquias longevas de Hollywood, como Vin Diesel em “Velozes e Furiosos”, Matt Damon na saga “Bourne”, até o experiente Tom Cruise em “Missão: Impossível”.
O legado
Não há dúvidas que foram anos intensos de muito entretenimento no cinema de ação, em uma época onde o “leve 3 DVDs por 10 reais” - ou só “3 por 10” - bombava aqui no Brasil, por exemplo. Uma época onde a pirataria estava em seu auge nos camelódromos pelo país com a Era dos DVDs. Além do boom da TV à cabo (lê-se Gatonet, dependendo) popularizando canais como Space, Megapix e TNT, onde esses filmes eram exibidos repetidamente. E, assim, foi impulsionando um novo gás em volta do gênero. Até que na transição dos anos 2000 para 2010, uma fadiga ficou bastante evidente, principalmente pelo desempenho misto da crítica com “Os Mercenários” cuja promessa era juntar todos os brucutus “massa véio” para agradar os pais e tios pelo mundo. Em termos de sucesso de bilheteria, acabou sendo positivo, afinal a saga comandada por Stallone seguiu firme com mais três sequências. No entanto, o público geral já se via cansado e menos atraído, pela repetição e saturação do gênero.

Equivocadamente, muitas pessoas alegam que esses filmes são só para “desligar o cérebro”, ou servem apenas como um “entretenimento bobo”. Digo que seja um equívoco, pois pode soar um pouco arrogante com, até, um certo menosprezo à este tipo de produção. Particularmente, entendo o que estes termos significam. De fato, há uma energia de “mais entretenimento do que arte”. Mas arte é arte, em sua essência. Seja nas atuações, elementos cinematográficos, ótimos desempenhos da equipe de dublês e coreógrafos, efeitos práticos, entre outros. Penso isso da mesma forma que condeno usar o termo “filme de sessão da tarde” de forma pejorativa. Normalmente, são esses filmes - muitas vezes - despretensiosos que acabam nos marcando, criando memórias, assistindo com a família, ou sozinho mesmo, como um passatempo interessante que nos entretém de forma prazerosa. E é nessa despretensão e simplicidade que encontramos o homem: John Wick.
Efeito John Wick

Obviamente, a premissa do filme de 2014 não é original. Já havíamos assistido recentemente a um ex-agente/soldado/policial aposentado, forçado a retornar à ação, devido à alguma morte/sequestro de um familiar ou ente querido, há seis anos nessa época, com a repaginada na carreira que Liam Neeson realizou ao estrelar a trilogia “Busca Implacável” (o cara fez uma penca de filme assim nos últimos anos, ou seja, são inúmeras horas de entretenimento para os tiozões nos finais de semana). Porém, é com essa simplicidade de roteiro que se molda o palco onde a criatividade na direção é aflorada. Dirigido por Chad Stahelski com a colaboração de David Leitch, e estrelado por Keanu Reeves, “John Wick: De Volta Ao Jogo” (2014) brilha na sua inventividade e composição das cenas de ação, misturando a coreografia envolvente e o primor no manuseio da câmera. É válido mencionar que Stahelski e Leitch, antes de migrarem para a direção, atuaram por muitos anos como dublês e coordenadores de dublês, firmando uma parceria de longa data. A dupla, inclusive, fundou sua própria produtora cinematográfica e design de ação em 1997, a 87Eleven. No decorrer da década de 2010 e, agora, 2020, Stahelski ficou encarregado de dirigir as sequências da saga John Wick, enquanto Leitch seguiu com outros projetos como “Atômica”, “Deadpool 2”, “Trem-Bala” e “O Dublê” (um adendo aqui para manifestar meu apreço ao Sr. Ryan Gosling, do qual futuramente pretendo escrever sobre seus filmes - um ode ao Literalmente Eu).

Além de cravar seu nome na cultura pop e cair no gosto do público gradativamente, “John Wick” acabou revolucionando a forma como a indústria enxergava os filmes de ação. Depois de diversas produções genéricas consideradas menores, os estúdios agora queriam novos John Wick, onde a ação tem que ser devidamente mostrada em seu primor em tela. Esse é o grande diferencial da saga: conseguimos ver nitidamente a ação que está acontecendo. Mérito de diretores que trabalharam do outro lado por muitos anos, esforçando-se para executar seu ofício como dublês e se frustrando com cortes exagerados na montagem final, onde nada ficava muito claro para o espectador. Agora, o entretenimento tinha bem mais cara de ‘espetáculo visual’, fazendo o “tiozão” ficar maravilhado com o tal John Wick.
Anônimo (2021) - uma agradável surpresa
Com isso, um dos filhos de “John Wick”, certamente, acabou sendo “Anônimo” (2021), dirigido por Ilya Naishuller, onde acompanhamos a rotina de Hutch, um pai de família visivelmente acomodado com a monotonia de seu dia-a-dia, vivendo uma fase de desconexão com sua esposa e filhos. Tudo muda quando dois ladrões invadem sua casa, fazendo com que o protagonista se encontre em uma posição onde poderia reverter a situação, porém, em uma fração de segundo, acabou desistindo. Isso acaba fazendo com que as pessoas à sua volta o questionem sobre o motivo de seu “ato covarde”. No entanto, a ira de Hutch se acende quando percebe que os ladrões haviam roubado a pulseira de sua filha, libertando um lado ainda mais sombrio de seu verdadeiro eu.

Há toda uma questão de masculinidade tóxica que, indiretamente, é trabalhada aqui representada pela única forma de Hutch se expressar, que é pela fúria incontrolável que sente, manifestada pelo alto nível de agressividade cometida. Entretanto, isso fica nas entrelinhas. O ponto que agrada mesmo o público-alvo é a identificação. Hutch, de Bob Odenkirk, é um homem frustrado na faixa de seus 50 anos, vivendo uma vida que considera medíocre e tediosa, fisicamente não tem um corpo ideal ou atlético, está passando por uma crise no casamento, sem trocar carinhos com sua esposa há muito tempo, com dificuldades de se aproximar e de se comunicar com seus filhos. Até que, durante o filme, conhecemos aos poucos quem de fato é Hutch, e o que ele já fez no passado, suas habilidades e conquistas, transmitindo uma sensação de que “os tempos áureos já se foram, mas há algo dentro de você que ainda está vivo, então liberte esse lado”. Podemos não ter a vida que queríamos ou sonhamos um dia, mas houve um período em que conquistamos coisas grandes, fazendo necessário respeitarmos nosso próprio legado. Somado à isto, está a direção estilizada muito influenciada por “John Wick”, juntamente com uma inserção de uma trilha sonora recheada de clássicos, como a estilosa “Don’t Let Me Be Misunderstood” de Nina Simone e a atemporal “What A Wonderful World” de Louis Armstrong, que contrastam com a violência e visceralidade das cenas. Temos, então, a composição de um grande exemplar dos filmes de tiozão dos últimos anos.
Anônimo 2 (2025), enfim

Até que chegamos à 2025, com “Anônimo 2”, agora dirigido por Timo Tjahjanto. Aqui, vemos que Hutch - agora com sua vida melhorada após o triunfo no primeiro filme - está bastante ocupado com o trabalho, fazendo com que precise tirar algumas férias em família. Empenhado a construir memórias, o protagonista se lembra de uma cidade turística que visitava na sua infância, com seu pai e irmão. Porém, o que ele não sabe é que a cidade é uma rica área clandestina de contrabando, comandada por uma máfia secreta, obrigando-o a lidar com a situação sozinho, à sua maneira, para salvar sua família.

Descaradamente, esta nova sequência traça paralelos com o primeiro, criando rimas visuais e narrativas, o que acaba sendo uma espécie de construção de identidade por trás da franquia, ao passo que pode ser visto como um tiro no pé ao adicionar munição na comparação com o original. Pessoalmente, “Anônimo 2” acabou me agradando bastante pela despretensão de algo terreno, abraçando a mitologia um tanto quanto fantasiosa e caricata, da qual “John Wick” fez muito bem em suas continuações. Não é apenas o personagem principal que tem suas particularidades, mas sim todo um universo excêntrico que está por trás disso. Embora eu prefira o primeiro, aqui há um espírito de “Férias Frustradas” muito cativante. Existe uma boa dose de comédia presente nas sequências de ação, oferecendo dinamismo ao entretenimento. Além disso, há o humor intrínseco ao local onde o filme é ambientado. O fato de ser uma cidade pequena turística, com um parque de diversões e atividades típicas de férias mesmo, faz com que haja mais identificação no espectador, agora não só no homem repreendendo a fera dentro de si que há no primeiro, mas sim em toda a família.

Sim! “Anônimo 2” é um bom filme de tiozão para assistir com a família. Encontramos contextos meramente casuais que começam a escalonar à medida que conhecemos as conexões interpessoais de cada personagem. Uma simples briga entre o filho adolescente de Hutch com alguns valentões, em um salão de jogos, acaba levando a família toda para a delegacia, o que acarreta na descoberta do verdadeiro comando por trás da cidade, encabeçado por Wyatt Martin (interpretado por John Ortiz, o ‘Braga’ dos filmes “Velozes e Furiosos” - está tudo conectado) que é o pai do menino que importunou o filho do protagonista. Esta sequência acaba sendo interessante no paralelo que faz com o primeiro, no qual o longa se propõe. Hutch, a princípio, mais uma vez evita interferir na situação, até que àquela raiva interna entra em chamas, retornando ao salão e deixando seu “cartão de visita” com todos os envolvidos.
Além disso, há também uma segunda “cena do ônibus” na metade do longa, referenciando a passagem que ficou muito emblemática no primeiro. No original, Hutch acaba se envolvendo em uma briga sangrenta, dentro de um ônibus, mesmo sem saber que uma das vítimas do protagonista era parente do chefão do crime organizado. Já aqui, temos Hutch em uma espécie de chalana, lutando contra alguns capangas da máfia local, o que rende momentos hilários dentro de um cenário inusitado. Já no terceiro ato, assim como no primeiro, temos um local esvaziado, onde o protagonista, ao lado de seu pai e irmão (e agora com o Braga), esconde diversas armadilhas, para montar seu campo minado de batalha para o gran finale. Foi nessa cena, no original, que o filme abraçou seu lado mais galhofa (simplesmente esqueci de mencionar que o pai de Hutch é interpretado pelo grande Christopher Lloyd, o eterno Doc Brown de “De Volta para o Futuro” - ou seja, no final dos dois filmes temos o Doc Brown descendo a lenha nos bandidos em câmera lenta, e isso é ouro puro!). Aqui, no segundo, não foi diferente. Temos situações inusitadas e divertidas, dando um toque especial de humor adicionado à ação, levando até à participação mais ativa na trama da personagem de Connie Nielsen, que faz a Becca, esposa de Hutch.

Nunca é tarde para ser um tiozão
Em síntese, “Anônimo 2” é um bom filme de tiozão, não tão impactante quanto o primeiro, porém mais divertido. O que dá uma sensação aconchegante para um fator diferencial que estes filmes tanto se propõem: serem perfeitos para um pós almoço de domingo, como comentei no início. Não é um filme para ser inesquecível e marcante, a ponto de revolucionar a roda. Mas é um bom pipocão para se assistir de maneira leve e despretensiosa, com muito sangue e homens de meia idade acabando com um exército inteiro de criminosos, como de costume, além de descontração e divertimento familiar. Concluo afirmando que, mesmo não tendo a idade apropriada para tal título ainda (dependendo do referencial), tenho um espírito de tiozão muito presente em alguns aspectos da minha vida. E com orgulho! Um deles é esse apreço por esses filmes, do qual aprendi com meu pai e pretendo levar isso adiante. Um bom filme de tiozão nunca é demais… e nunca é tarde para apreciá-los!












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