A Voz de Hind Rajab & Sirāt | A dobradinha do sentimento de impotência #3

Críticas Gerais

Dois dos filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional, neste ano, retratam as consequências de um sentimento altamente frustrante: a impotência, a falta de controle absoluto perante uma situação desesperadora (e, especialmente, em contextos de guerras territoriais). São eles: “A Voz de Hind Rajab” e “Sirāt”. Ambos apontam os caminhos e as direções a serem seguidos, ao mesmo tempo de sobrepor à mesa a dúvida e a incerteza se os objetivos serão alcançados. Tal agonia espelha a reação do público ao se envolver demasiadamente com os personagens das tramas, principalmente no caso do filme representante da Tunísia (do qual retrata a história real de Hind Rajab).

 

A Voz de Hind Rajab

Dirigido por Kaouther Ben Hania, “A Voz de Hind Rajab” acompanha o drama de Hind Rajab, uma menina palestina de 6 anos que se encontra presa em um carro, localizado na Faixa de Gaza, no auge da guerra israelo-palestino, depois de presenciar a morte de toda sua família, em meio ao revoltante genocídio palestino. Hind procura ajuda ao telefone, ligando para o Crescente Vermelho Palestino, uma organização voluntária que presta socorro às vítimas do massacre. No entanto, o ponto principal e essencial da diretora ao relatar (e denunciar) o drama desta criança, encontra-se na escolha criativa de não demonstrar a violência gráfica em tela, mas sim focar nas reações dos voluntários da organização, causando agonia e claustrofobia durante todo o longa (reforçando a impotência nesta situação).

Em 'A Voz de Hind Rajab', filme indicado ao Oscar, o tema supera a forma -  Rolling Stone Brasil

A história é real e os áudios exibidos no filme também. Ouvimos a voz real de Hind Rajab. A angústia por trás da voz daquela criança é real. O genocídio é real. Não há como sair desse filme devastado. Acompanhamos a dor desse grupo de voluntários tendo que esperar a parte burocrática do processo de salvamento, pois tudo tem que ser milimetricamente calculado. O GPS marca que a ambulância está à 8 minutos de distância do local, porém as ruas (ou o que sobrou delas) estão cercadas por tanques e bombardeios. Um movimento errado executa os para-médicos. É preciso que o coordenador receba luz verde para o seguimento da operação, pensando na rota mais segura, entrando em contato com outros superiores. Tudo isso enquanto uma menina de 6 anos de idade está no telefone, lutando para sobreviver em meio ao caos. O sentimento de impotência reina durante toda a 1 hora e 30 minutos em que presenciamos este horror de confinamento. Dói profundamente assistir todos querendo resolver rapidamente, e não conseguindo fazer nada além de esperar.

A Voz de Hind Rajab', representante da Tunísia no Oscar 2026, estreia nos  cinemas - Rolling Stone Brasil

Além disso, deve-se exaltar o respeito da diretora ao cumprir a missão de dar um rosto à vítima, dar um nome à uma história, a fim de denunciar uma das maiores barbáries de nossa história contemporânea. Não há ideologias ou lados, há uma criança que precisou de ajuda, e qualquer opção de salvamento foi retirada dela. Assassinada com ela.

The Voice of Hind Rajab' reminds us that it happened on our watch | Daily  Sabah

Ademais, além da excelência em nos transmitir em um ambiente claustrofóbico de escritório, enquanto o mundo está queimando lá fora, os elementos dos cenários falam muito por si só também. Os reflexos nos vidros das portas refletem os conflitos internos do Crescente Vermelho. Todos querem o mesmo objetivo, e todos apresentam os mesmos motivos de querer seguir com cautela o plano, ou já tomar atitudes imediatas para resolver a crise. Porém, estão todos presos no mesmo lugar, em posições distintas, pois não depende apenas deles.

The Voice of Hind Rajab' reminds us that it happened on our watch | Daily  Sabah

Destaque para Saja Kilani, atriz que interpreta Rana, a voluntária que mais se comunicou com Hind durante as ligações, expondo toda sua angústia e tormento ao tentar acalmar a criança. A falta de poder e controle nos sufoca a cada segundo durante as chamadas. Os ruídos e falhas do sinal de telefone, os silêncios eternos que acendiam a dúvida da sobrevivência ou não da vítima, o caos absoluto. 

You can't unhear it': Kaouther Ben Hania on the real emergency call behind 'The  Voice of Hind Rajab'

É de uma bravura impressionante a forma como o filme denuncia este caso. O mundo precisa ouvir a voz de Hind Rajab diariamente e urgentemente. Precisamos lembrar e ficar atentos com a crise geopolítica atual e as consequências desumanas de qualquer tipo de genocídio. “A Voz de Hind Rajab” é, de longe, o filme mais importante de todos os indicados ao Oscar neste ano, e o fato de ter sido nomeado faz com que alcance um público ainda maior. Um dos mais devastadores dos últimos tempos. Merece todo o destaque, reconhecimento e, principalmente, repercussão.

Sawt Hind Rajab - Festival do Rio

 

Sirāt

Dirigido por Oliver Laxe, “Sirāt” acompanha o drama de Luis (Sergi López), um pai em busca de sua filha perdida, da qual supostamente está em alguma festa rave no deserto do Marrocos, em meio à conflitos internos no território. Luis, então, encontra um grupo de amigos que está a caminho desta festa, unindo-se à eles neste road movie à la “Paraísos Artificiais” no universo de “Mad Max”, dentro do jogo “Chip’s Challenge” (quem jogava esse aí no PC?).

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O drama da impotência, neste caso, cresce gradativamente ao longo do filme. Não se sabe muito sobre a filha de Luis, apenas que ela frequenta essas festas e fugiu de casa. O cenário do deserto atua como um fator extremamente opressor também. Parece não ter fim, parece não dar trégua. Além disso, ao lado de Luis está seu filho criança, Esteban, que - aviso de spoilers aqui, caso não queira nenhuma informação - repentinamente acaba sendo vítima de uma tragédia na montanha. O choque desta cena se confunde com a dor de não ter controle sobre aquela situação.

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O controle que poderia ter tido estava fora de questão, pois aparentemente não iria acontecer nada naquela situação específica. A princípio, Esteban ficaria no carro tranquilamente, enquanto seu pai ajudava a consertar o veículo do grupo de amigos. Ninguém iria prever o acidente. Muito menos que aconteceria tão rápido. A impotência (e, potencialmente, culpa) cobre o pensamento de Luis como uma sombra que o abraça. Ele convive há meses com a dúvida de que sua filha está viva ou não, e tem a certeza que seu filho está morto, de modo tão repentino.

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Outro ponto importante está na impotência presente no final, quando (novamente, spoiler) o grupo se depara que está cercado por um campo minado, havendo perdas irreparáveis e, novamente, incontroláveis. Não há controle absoluto no caminho, no percurso, no trajeto, na ‘sirāt’, termo usado no islamismo para representar a ponte entre o inferno e o paraíso. As tragédias simplesmente acontecem. Como se não houvesse um propósito, um motivo. Não há nada que esteja ao nosso alcance para mudar o trajeto. Seja destino, senda, sina. Não há como mudar. 

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Outrossim, é interessante o contraste entre as realidades do grupo de jovens com o povo de Marrocos. Existe uma indiferença em relação às guerras alheias que estão acontecendo naquele exato momento no país, da mesma forma que há uma marginalização e identificação de minorias não aceitas pela sociedade. Todos apresentam seus dramas, com suas camadas superficiais e profundas.

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Por fim, o grande destaque de “Sirāt” está no âmbito técnico no que tange ao som (não à toa, recebeu indicação a Melhor Som também). O grave do techno, não só nas raves, mas na estrada, transmitindo sensações caóticas e desconfortáveis, como se estivesse apenas seguindo o flow, mas não um flow lisérgico como num jazz, mas em uma correnteza atordoante impulsionada pelas batidas da música eletrônica.

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Finalmente, podemos dizer que a lista dos cinco filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional está bem representada. Ainda pretendo fazer um texto sobre minhas preferências em todas as categorias, mas já adiantando: “Sirāt” foi o que menos gostei. Embora tenha apreciado certos elementos e temáticas, não me senti tão envolvido quanto em “A Voz de Hind Rajab” cuja força e importância elevam a experiência, tornando-se um dos meus favoritos da temporada. Já os outros três, comentei aqui no Peliplat em outros textos. Em um outro ‘Dobradinha’, comentei sobre “Foi Apenas Um Acidente” e seu final impactante (merecia, inclusive, entrar na lista principal dos dez filmes indicados à Melhor Filme - tiraria “F1” ou “Bugonia” fácil). Já “Valor Sentimental”, do qual escrevi aqui exclusivamente, elucidando sobre seu poder transformador através do silêncio, marcou-me profundamente como um dos meus grandes favoritos de todos os filmes envolvidos. Por sua vez, “O Agente Secreto” cujo texto também analisei sobre a temática de memória, é - certamente - a minha torcida. Portanto, o que podemos concluir é que a lista de filmes internacionais está bem mais interessante do que a principal, em termos de substância, como já tem sido de praxe nos últimos anos. Vale as sessões!

Comentários 1

B
Brie Moreno22 de junho de 2026
Que agonia e tristeza esse primeiro 😢😢

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