Project Hail Mary, Beatles & a pedra no meio do caminho
Críticas GeraisExiste uma espécie de charme no acaso. Um elemento surpresa bem melhor do que o planejado. Não necessariamente ‘melhor’ no sentido prático, mas na soma do resultado final, o aprendizado. Aquele gostinho a mais. O recheio mesmo. Isso pode ser bom, como também pode ser encarado como obstáculo. Por acaso, um obstáculo à frente. “No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho”. Não só Carlos Drummond de Andrade, mas muitos outros autores já utilizaram a metáfora da pedra como o elemento surpresa no meio de uma jornada. A grande peleja está na forma que usaremos esta pedra (ou como seremos usados pela pedra).

Tal sensação de um elemento surpresa é muito encontrada quando estamos dispostos a assistir a um filme novo. Por exemplo, quais são os critérios para querer assistir a um filme? Às vezes, você acaba escolhendo por conta de um ator, ou por conta do pouco que se sabe a respeito da trama, e um ponto-chave te fisgou. Aí você vai ver e encontra algo ainda mais surpreendente. Você já estava gostando, mas aí começa a se importar mais. Aquilo fica mais importante para você, mais especial. Você o lembrará com carinho. E nada melhor do que se conectar de fato com um filme, desprendido de olhos mais críticos, e aberto à experiência completa.

Dirigido por Phil Lord e Chris Miller, e estrelado por Ryan Gosling e Sandra Hüller, “Project Hail Mary” - ou “Devoradores de Estrelas” - acompanha a jornada do professor de ciências biológicas Ryland Grace, dentro de uma nave espacial, para salvar o Sol que está morrendo devido a ação de ‘astrofágicos’. Por conta disto, a vida na Terra está em risco. Basicamente, em primeiro plano, temos uma ficção-científica básica aqui. Um professor, uma catástrofe iminente, naves espaciais e o espaço sideral inteiro para se deleitar com numerosas cenas deslumbrantes e visualmente encantadoras (ainda mais tendo a oportunidade de presenciar em tela grande no cinema). Até aí tudo bem. Todos temos alguns filmes de espaço favoritos.

Ademais, um dos pontos adicionais que me atraíram para este filme foi o fator Ryan Gosling. Sim, adoro Ryan Gosling e o Goslingverso. Comentei bastante sobre isso no meu texto “Os horrores e as delícias do Literalmente Eu”, aqui no Peliplat. Lá, além de explicitar meu apreço pelo ator, tentei me aprofundar na psique masculina e a linha tênue entre o humor de um meme e sua porta de entrada para questões mais obscuras. Porém, deixa o clima pesado para o outro texto - fica aí o convite para uma próxima. Aqui tem que ser leve. Leve como “Devoradores de Estrelas” se propõe a ser. Não pela leveza como em um filme bobo sem riscos, mas sim pelo entendimento do peso de dilemas da vida inerentes ao ser humano, transformando-se em força e razões para lutar após encontrar um propósito. E é no âmbito do propósito que encontramos a pedra no caminho.

Durante a missão, enquanto passa por um processo lento e gradual de recuperação da memória, Grace se encontra com outra nave especial no meio do percurso. Uma nave alienígena, no caso. E, assim como foi com o professor, somente um tripulante sobreviveu e reside nessa nave: o Rocky, uma rocha-alienígena do planeta Erid, do qual também está em perigo devido aos astrofágicos.

Começando a trabalhar juntos, os dois desenvolvem uma relação de amizade intensa, aprimorando suas comunicações e trocas de informações. Ao longo do processo, vamos acompanhando por flashbacks como Grace foi recrutado para a missão, ao passo que descobrimos sua solidão. Não há família, amigos, parcerias, nada. Apenas um professor que ama o que faz, que é estar em sala de aula com seus alunos. Devido ao reconhecimento pelo seu trabalho, o governo entra em contato para que ele conceda seus serviços em prol da descoberta de alguma salvação ou cura para o Sol. Porém, depois de um acidente, Grace se torna a única opção possível para embarcar na espaçonave, juntamente com o piloto e a engenheira, já que é o maior perito do assunto no mundo e não faria ‘falta para ninguém’, pois é uma missão de caráter suicida, ou seja, só de ida. Este fator da solidão dá, ainda mais, um toque especial na construção da amizade entre Grace e Rocky, evidenciando o quão verdadeira e natural é a forma que aquilo está nascendo.

Mais do que uma ficção científica, é um filme sobre amizade, doação, parceria, independente do lugar que viemos. Sim, “Devoradores de Estrelas” conseguiu a façanha de nos emocionar com Ryan Gosling interagindo com uma pedra. Há um grande mérito do roteiro, da direção e, principalmente, da montagem ao preencher todas as fases de entendimento que o próprio protagonista está passando. Ficamos confusos junto com Gosling para tentar compreender como ele foi para ali, da mesma forma que descobrimos juntos sobre Rocky. Por mais que haja mais de 2 horas e 30 minutos de duração aqui, não há fadiga na narrativa. Isto se deve ao ritmo e, especialmente, aos momentos contemplativos mesmo. Há um momento em que Rocky indaga o que Grace está fazendo, e o professor responde: “estou apenas curtindo”. Como se estivéssemos nessa também. Deixa o filme rolar, sem estresse, sem ansiedade. Vamos ver essas imagens espaciais maravilhosas e essa amizade linda acontecendo na nossa frente.

Além disso, no âmbito musical estamos bem servidos. A trilha sonora de Daniel Pemberton entra certeiramente em diversos momentos, manipulando nossas emoções devidamente ao engrandecer tudo que está sendo vivenciado naquele contexto, dando um toque sci-fi épico de coros sintetizados. Sem contar as músicas pop que aparecem ao longo do filme. Um dos momentos mais emblemáticos está com Sandra Hüller cantando “Sign Of The Times” no karaokê. De fato, um dos picos do longa.

Entretanto, o meu coração ficou totalmente entregue e “hailmarylizado” no momento em que - SPOILERS, fique por sua conta em risco - toca “Two Of Us” dos Beatles. Esta cena é importante para o desfecho da história. Parte do drama de Grace está no fato da missão ser suicida, ou seja, ele não iria mais voltar para a casa e morreria no espaço. Porém, com a ajuda de Rocky o retorno se tornou possível. Depois de se despedirem, Grace percebe que Rocky está em perigo, e se encontra em um dilema entre voltar para salvar seu único amigo ou retornar para a casa normalmente. O professor, então, faz a melhor escolha possível, e decide retornar para salvar o Rocky (Ryan Gosling salvando o rock de novo, dessa vez sem o Slash). Contudo, antes de ir de encontro ao amigo, enviou as sondas “Beetles” com os nomes dos quatro garotos de Liverpool em direção à Terra para, enfim, concluir sua missão. Não seria a primeira vez que a palavra dos Beatles estaria vagando pelo universo afora, afinal “Across The Universe” já foi transmitida pela NASA até o espaço em 2008.

Já deixei evidente aqui em alguns textos sobre meu apreço pelos Beatles e, definitivamente, “Two Of Us” sempre foi uma das minhas favoritas. Amo ficar assistindo aos vídeos da banda no começo de 1969 ensaiando esta música no estúdio. John e Paul dividindo o microfone, felizes em seus últimos momentos antes do sonho acabar. Seja interpretando como música romântica ou como de amor fraternal/amizade, a canção fala sobre duas pessoas que já viveram muitas coisas juntas e, no momento, estão voltando para a casa.
“Two of us riding nowhere
Spending someone's hard-earned pay
You and me Sunday driving
Not arriving on our way back home
We're on our way home
[...]
You and I have memories longer than the road that stretches out ahead…”
- Lennon/McCartney
Acompanhamos de perto o nascimento dessa amizade entre dois sobreviventes solitários. Dois seres de mundos opostos, com línguas totalmente distintas. Porém, com muita vontade e conhecimento, ambos ultrapassaram a barreira da comunicação, criando um vínculo extremamente forte, sem necessariamente visualizar o rosto de cada um com exatidão. Até porque os rostos são superestimados, como mencionou Grace. Eles estão voltando para a casa, mas também estão curtindo o momento. Estão vivendo de verdade, criando memórias mais longas do que a estrada que está pela frente. No meio do caminho tinha uma pedra, e era de uma pedra que Grace precisava no meio de seu caminho. Ele precisava de alguém, de um propósito.

Para concluir, “Project Hail Mary” já é um dos meus favoritos do ano. Um filme completo, recheado de humor, comédia, drama, ação, tensão, ficção científica e, acima de tudo, coração. Vale muito a pena. Ryan Gosling, Beatles, Rocky Balboa e muito mais. Mais um filmaço do ‘Literalmente Eu’ para abrilhantar o Goslingverso. Estava com saudade já. Filmes assim ficam na memória, acabam se destacando e sendo mais importantes para nós, lembraremos com um carinho maior. Minha experiência foi maravilhosa, assisti com minha namorada igualmente beatlemaníaca, e falamos de Rocky Balboa um dia antes da sessão sem saber de nada, fora o fato de adorarmos o Ryan Gosling… Sei lá, existe uma espécie de charme no acaso. Se é que seja esse o nome mais apropriado mesmo.

"As pedras costurando o caminho
Servem pra ver que no espinho
Precisamos pisar pra aprender a desviar…"
- AC
Link: https://youtu.be/mTcJBlfmL4o?si=5RM5E86hMhxXF2ns









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