Crítica | Protocolo de Extermínio
Críticas Gerais
Adria Arjona brilha em terror distópico sobre maternidade e sobrevivência
Por Andreza Nunes
Adam Wingard construiu uma carreira ligada ao terror, com títulos como Você é o Próximo (2011) e O Hóspede (2014). O diretor também esteve à frente de produções de grande orçamento, como Godzilla vs. Kong (2021), transitando entre o horror e o cinema de ação. Em Protocolo de Extermínio (Onslaught, EUA, 2026), retoma elementos recorrentes em sua filmografia para abordar experimentos militares e os riscos de transformar pessoas em armas.
A história acompanha Celeste (Adria Arjona), uma ex-atiradora de elite que precisa proteger a filha depois que três combatentes submetidos a experimentos secretos escapam do controle do governo. Transformados em armas humanas, eles levam o perigo até uma comunidade de trailers no deserto, habitada por antigos combatentes. É nesse espaço limitado que a narrativa concentra seus conflitos, combinando ação militar, ficção científica, suspense e terror. A escolha do cenário favorece os confrontos e mantém a história distante de uma ameaça de escala global. Ao mesmo tempo, o filme provoca uma reflexão sobre os limites entre conspiração e realidade: até que ponto as teorias da conspiração são fruto da imaginação e em que momento passam a revelar verdades que muitos prefeririam manter ocultas?
Celeste oferece ao filme uma protagonista cuja relação com a maternidade foge do ideal de docilidade frequentemente associado às personagens femininas. Ela é uma mulher combativa, de personalidade forte, que não espera ser salva nem se submete às expectativas alheias sobre como uma mãe deve agir. Sua disposição para enfrentar a ameaça nasce do desejo de proteger a filha, mas não se limita a isso: Celeste ocupa o centro da ação e toma as decisões que movimentam a narrativa. Dan Stevens (Hans Kammler) interpreta o médico ligado aos experimentos, enquanto Rebecca Hall (Hanna Kammler) vive uma personagem inserida no núcleo que cerca o projeto. Eric Wareheim (Kovacks) responde por uma parcela do humor, por vezes exagerado, e Reginald VelJohnson (Josiah) acrescenta uma dimensão emocional à história.
O ponto mais provocador de Protocolo de Extermínio está na fabricação deliberada de uma ameaça. Os combatentes não são monstros que surgem de uma circunstância inexplicável, mas pessoas transformadas por um projeto conduzido por instituições que deveriam responder pelas consequências de suas decisões. O laboratório materializa essa contradição: o conhecimento científico é colocado a serviço de interesses militares, enquanto os limites éticos se tornam obstáculos descartáveis. O filme sugere que o problema não termina quando o experimento dá errado. A insistência em manter as armas ativas revela uma estrutura que parece considerar o risco aceitável desde que o objetivo estratégico possa ser alcançado.
O longa estabelece regras para o funcionamento dos supersoldados, incluindo a dificuldade de enxergar em ambientes muito claros, e utiliza essas limitações para organizar os confrontos. Esse cuidado dá coerência à ação e permite que os personagens encontrem alternativas para enfrentar inimigos fisicamente superiores.
Nas sequências de ação, Wingard demonstra segurança. A variedade de armas, que inclui serra elétrica e facas, evita a repetição dos confrontos tradicionais com armas de fogo, enquanto as lutas corporais dão materialidade à violência. O sangue não aparece como mero detalhe, e as cenas mais brutais aproximam a produção do slasher, justificando sua classificação indicativa para maiores de 18 anos.
A trilha sonora, bastante presente, ajuda a conduzir o ritmo e a sustentar a tensão. Já o visual distópico, marcado pelo isolamento do deserto e pelo contraste entre luz e escuridão, contribui para a atmosfera e também se relaciona às limitações dos antagonistas. São recursos que demonstram domínio das convenções do gênero.
Protocolo de Extermínio é uma grata surpresa para quem chega à última sessão da noite sem grandes expectativas e encontra um terror de personalidade própria. Com uma protagonista que sustenta a narrativa, uma história enxuta e uma combinação eficiente de violência, suspense e ficção científica, Adam Wingard entrega um filme que sabe aproveitar os recursos do gênero sem prolongar desnecessariamente seus conflitos. A trilha sonora acrescenta vigor às sequências de ação, enquanto as escolhas visuais ajudam a construir uma atmosfera hostil, em sintonia com a brutalidade da história.
Nota: 📼📼📼½














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