Crítica | Virtuosas
Críticas Gerais
Cíntia Domit Bittar transforma o ideal da “mulher virtuosa” em um terror social sobre os papéis impostos às mulheres
Por Andreza Nunes
A expressão “mulher virtuosa” tem origem em uma passagem bastante conhecida da Bíblia. Em Provérbios 31:10, ela aparece associada a uma mulher de força e valor, cuja conduta está ligada a um caráter que agrada a Deus. Mas o que significa, afinal, ser essa mulher? Quais comportamentos definem uma mulher virtuosa que estabelece os limites entre o que é certo e o que é errado? É a partir dessas perguntas que Cíntia Domit Bittar constrói Virtuosas (Brasil, 2025), transformando um modelo de feminilidade apresentado como ideal em matéria-prima para um terror que não precisa de monstros para causar desconforto.
A trama acompanha Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer) uma coach voltada para o público feminino conservador que prega os valores da chamada “Mulher Virtuosa”, inspirados no Provérbio 31. Três mulheres são sorteadas para participar de um retiro VIP que promete ajudá-las a encontrar suas melhores versões. Dentro da casa onde acontece o treinamento, elas passam por uma série de atividades e ensinamentos que determinam como uma mulher deve se comportar, tanto dentro da família quanto na sociedade. O que parece ser uma experiência de transformação pessoal vai revelando, aos poucos, uma estrutura muito mais rígida de comportamento e pertencimento.
A escolha de reunir três mulheres completamente diferentes ajuda a construir essa percepção. Germina (Maria Galant), aparece inicialmente como uma mulher tímida, que ainda está tentando compreender aquele ambiente e aprender suas regras. Bárbara Rossi (Sarah Motta) chega com uma postura diferente: ela realmente deseja ser uma “mulher virtuosa” e enxerga Virgínia como uma referência. Existe nela uma necessidade de pertencimento, como se absorver aqueles ensinamentos fosse também uma maneira de encontrar seu lugar dentro do grupo e da sociedade em que vive. Já Lorena (Juliana Lourenção) parte de uma posição privilegiada. Casada com um deputado e cercada por pessoas que cuidam das tarefas do cotidiano, ela não vive a mesma realidade das outras mulheres. Ainda assim, é a maternidade que expõe suas fragilidades. Sem precisar lidar sozinha com todas as demandas práticas da casa, ela se vê diante de uma cobrança muito mais interna sobre o que significa ser mãe.
As três acabam funcionando como diferentes portas de entrada para o mesmo universo. E, conforme o retiro avança, o longa vai descamando suas personagens. Todas parecem carregar uma espécie de segunda camada, uma distância entre aquilo que apresentam e aquilo que realmente são. A virtude, então, deixa de ser meramente uma qualidade moral e passa a funcionar como uma espécie de performance social.
No centro disso está a Virgínia. A personagem é emblemática, bonita, articulada e capaz de transformar suas ideias em discurso. Ela dita tendências e estabelece parâmetros sobre o que seria uma mulher correta. Sua fala ensina aquelas mulheres a servir à família, aos homens e à própria estrutura social que determina seus lugares.
Desta vez, o terror social tem rosto de mulher. Virgínia não é apenas alguém que reproduz determinadas regras. Ela é quem as ensina, fiscaliza e cobra. O filme desloca, portanto, a figura tradicional do homem como principal agente da opressão e coloca uma mulher no lugar de quem produz e mantém aquele sistema. Isso não significa que o problema apresentado seja exclusivamente feminino, mas escancara como determinadas estruturas também podem ser reproduzidas e transmitidas entre mulheres.
A narrativa ainda encontra espaço para “brincar” com outros códigos do terror. A história da bruxa, apresentada por Gorete (Brisa Marques), introduz um elemento sobrenatural quando o comportamento da criança de Lorena é interpretado como sinal de que ela estaria sendo atormentada. Mas existe uma ironia nessa leitura: a criança não parece estar em paz porque está inserida em um ambiente que tampouco oferece paz.
Virtuosas quer provocar desconforto, e essa é uma característica do terror que interessa particularmente. Foi algo que também reconhecido em Midsommar (2019), de Ari Aster, um dos filmes de terror de que mais gosto. Os dois têm uma forte presença feminina e constroem o horror à luz do dia, sem depender da escuridão para criar medo. O desconforto está nas situações, nas relações e naquilo que o espectador percebe aos poucos. Aqui, essa escolha também se estende à forma como Bittar conduz a discussão: ela não entrega uma resposta sobre o que significa ser uma mulher virtuosa, mas apresenta esse modelo, coloca diferentes mulheres diante dele e deixa que suas contradições falem por si.
Nota: 📼📼📼









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