Crítica | No Limite da Justiça
Críticas Gerais
Quando um tema potente encontra uma narrativa protocolar
Por Andreza Nunes
Uma investigação sobre assassinatos de líderes negros no Mississippi dos anos 1960 já carrega, por si só, um peso histórico enorme. No Limite da Justiça (By Any Means, EUA, 2026), essa história é acompanhada por um jovem agente negro do FBI, interpretado por Yahya Abdul-Mateen II, que chega ao estado para investigar uma sequência de crimes contra ativistas dos direitos civis. No caminho, ele se une a Greg Scarpa, vivido por Mark Wahlberg, um mafioso conhecido por seus métodos pouco convencionais. A partir daí, o filme coloca lado a lado dois homens que não poderiam ser mais diferentes e encontra justamente nessa oposição o motor de sua narrativa.
Logo nos primeiros minutos, o longa deixa bastante evidente onde estão seus polos. O agente do FBI representa a lei, os princípios e a tentativa de fazer justiça dentro das instituições. Scarpa está do lado oposto. É violento, transgressor e não parece particularmente interessado nos limites impostos pela legalidade. Entre os dois, o filme constrói uma espécie de jogo de gato e rato, enquanto a investigação tenta descobrir quem está por trás dos assassinatos.
A estrutura é bastante convencional: o primeiro ato apresenta os personagens e o contexto, o segundo desenvolve a investigação e a relação entre a dupla, enquanto o terceiro encaminha a resolução. E talvez esse seja, ao mesmo tempo, seu maior mérito e sua principal limitação.
Porque existe uma diferença entre não querer ser um filme excessivamente denso e não aproveitar a potência do próprio tema. A história se passa em um momento extremamente delicado da luta pelos direitos civis da população negra nos Estados Unidos, mas o roteiro prefere conduzir essa discussão de maneira bastante segura. O racismo e a violência estão presentes, naturalmente, mas muitas vezes funcionam mais como contexto para a investigação do que como questões realmente aprofundadas pelo filme.
A própria dinâmica entre os protagonistas segue esse caminho. Há uma tentativa evidente de criar química entre eles, inclusive com algumas piadas e situações mais leves. É uma escolha que ajuda a tornar a narrativa mais acessível e provavelmente aproxima o filme de um público mais amplo. Mas, em determinados momentos, essa leveza parece destoar da gravidade do que está sendo contado.
Não significa que o filme precisasse ser pesado o tempo inteiro. O problema é que faltou um pouco mais de coragem para deixar o peso daquele período atravessar a narrativa. A ambientação dos anos 1960, por outro lado, funciona bem. O visual, os costumes e principalmente a presença das famílias tradicionais ajudam a construir aquele universo. É interessante perceber que, apesar de ocuparem lugares completamente diferentes dentro da história, os dois protagonistas também são apresentados a partir de estruturas familiares semelhantes. A diferença está menos na existência dessas estruturas e mais nos valores e nos caminhos escolhidos por cada um.
É a partir dessa oposição que o filme encontra sua melhor questão: até onde a lei consegue ir quando o próprio sistema falha? O agente acredita nos procedimentos. Scarpa acredita em resultados. Um está limitado pelas regras da instituição que representa; o outro age justamente onde essas regras deixam de funcionar.
O filme levanta uma discussão interessante sobre os diferentes caminhos possíveis para chegar à justiça, mas não se aprofunda nela. Ele apresenta o conflito, coloca os personagens em lados opostos e deixa que a investigação avance. Só que, quando existe um material histórico tão rico por trás da narrativa, fica a sensação de que algumas dessas questões poderiam ter sido desenvolvidas com mais cuidado.
As personagens femininas também entram nessa conta. Elas são funcionais para a história, mas têm pouco espaço para adquirir verdadeira dimensão. O foco está quase integralmente na dupla, e o roteiro parece aceitar essa escolha como parte de sua estrutura.
Finalmente, o longa escolhe ser um bom filme de investigação para o grande público. Só que, ao fazer essa escolha, deixa pelo caminho parte da força que sua própria história tinha para oferecer. O que falta é sobretudo fazer com que essa história permaneça na cabeça do espectador depois que a investigação termina.
Nota: 📼📼








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