O cinema, o amor e o tempo — Cinema Paradiso é o filme perfeito sobre alguns de nós
Aspectos SocioculturaisLonga italiano homenageia o cinema enquanto expressa a nossa humanidade.

A expansão tardia do meu repertório de clássicos do cinema para além da cultura americana tem me proporcionado momentos inesquecíveis. Felizmente, ainda tenho incontáveis grandes títulos pendentes. Essa minha falta de urgência sempre foi motivo de inveja para alguns dos meus amigos próximos: eu tenho, segundo eles, o privilégio de descobrir grandes filmes e assisti-los e pensá-los pela primeira vez com a maturidade de um adulto.
Após a minha recente primeira exibição de Cinema Paradiso (1988) – que tive o privilégio de assistir em um cinema –, não tive dúvidas de que havia assistido a um dos maiores filmes de toda a minha vida. Na verdade, talvez tenha acabado de assistir a um dos meus títulos definitivos, daqueles que refletirei a respeito até os meus últimos dias, orgulhoso de ter tido contato com uma obra tão fundamental.
Mais do que o senso comum e a objetividade permitem capturar, o longa se inclina sobre outros temas como o amor platônico e o passar do tempo para contar uma história sublime. Somados à paixão contemplativa pela sétima arte, o longa trata de três temas centrais muito caros para mim. No sétimo dia após a minha primeira exibição, tratei de voltar ao cinema para reencontrá-lo.
Foi na cena em que Alfredo (Philippe Noiret) expande a projeção de um filme do interior do cinema para as paredes de uma casa, revelando ao pequeno Toto (Salvatore Cascio) a beleza da técnica, que me emocionei com o longa pela primeira vez, entre muitas. O mágico caminhar da imagem conduzido pelo projetista leva o menino ao encanto máximo, enquanto os civis que aguardavam pela exibição do lado de fora se surpreendem com a larga projeção da imagem gritando "é o cinema! É o cinema!". Entre tantas representações pelas quais se podia expressar a paixão do cinema ao longo deste filme, essa cena foi, para mim, fundamental. Aquilo é mesmo o Cinema. Choro diante da beleza.
"Toto" Salvatore é um personagem movido por paixões. Enquanto o cinema é determinado como uma obsessão que data sua infância, é na juventude que aparece um segundo e importante interesse, agora romântico: Elena (Agnese Nano), aquela que também motivou a destruição de Tróia, como associa o longa. Como nos filmes que formam o repertório do protagonista, Salvatore viveria com Elena um romance jovem, intenso e inspirado. Até que isso acontecesse, "não se preocupe", prometeu ela. "Sempre que eu puder fugir, irei até você, ao Cinema Paradiso." Mas ela o abandonaria definitivamente depois de períodos de distanciamento por causa dos estudos em outra cidade.
Cinema Paradiso é um filme sobre nostalgia, assunto do qual não se fala sem citar o movimento impetuoso do tempo. Conformado com a dura realidade de sua casa, o garoto cresce no cinema, encontrando neste o sentido de sua vida e também uma forma de sustento. Influenciado pela sua referência de figura paterna, sai de sua pequena cidade e vai à Roma, onde se torna um homem bem sucedido, mas perturbado pela vida que deixou para trás: a casa e a família, o amigo, sua maior paixão e, claro, o cinema.
Décadas desde sua partida, Salvatore, agora um adulto de meia idade, retorna à cidade natal para o funeral de seu amigo. Ao chegar, se depara imediatamente com as ruínas do tempo. O que resta é a família, visto que Alfredo morreu, Elena jamais retornou, e o cinema viria a ser demolido, derrotado pela falta de um público agora distraído com o pior da modernidade – até então. A Toto afirmou Spaccafico (Enzo Cannavale), o dono do cinema: "Não vinha mais ninguém. O senhor sabe melhor do que eu, Sr. Di Vita, a crise, a televisão, os videoclipes… O cinema, a essa altura, é só um sonho."
Agraciado pela brilhante direção e roteiro de Giuseppe Tornatore, e por mais uma trilha sonora impecável de Ennio Morricone, Cinema Paradiso é o filme perfeito sobre alguns de nós, amantes do cinema que têm suas pequenas vidas acontecendo a todo o momento no tempo e no espaço fora da sala onde toda a magia acontece. Uma magia encantadora capaz de muitas coisas, entre as quais de nos provocar sentido em meio ao caos da desorientação, de criar e eternizar amizades, de nos apresentar o amor e despertar o desejo, ou de nos confortar daquele que não é correspondido. Mas acima de tudo, de nos lembrar que somos humanos.
Lembro o que uma operária de Novosibirsk escreveu em uma carta a Tarkovsky – quem, infelizmente, não chegou a assistir Cinema Paradiso –, como publicado em seu livro Esculpir o Tempo (p. 7 e 8). Disse ela: "Na semana passada, vi o seu filme quatro vezes. E não fui ao cinema simplesmente para vê-lo; mas, também, para passar algumas horas vivendo uma vida real, com artistas e seres humanos verdadeiros. [...] Todas as coisas que me atormentam, tudo o que não tenho e desejaria ter, que me deixa indignada, enojada ou que me sufoca, todas as coisas que me iluminam e me aquecem, pelas quais vivo, e tudo aquilo que me destrói - está tudo ali, no seu filme; vejo-o como se num espelho."
Sempre que pudermos fugir, nos encontraremos no Cinema Paradiso.










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