Tarkovsky nos lembra que a nostalgia não é um afeto feliz
Aspectos SocioculturaisClássico italiano aponta o verdadeiro caráter da nostalgia, estado afetivo que está na moda.

Descobrimos ao longo da última década que a nostalgia pode ser uma fonte inesgotável de dinheiro para o cinema. Não estou falando da retromania, que contempla o componente nostálgico na vontade de tangibilizar o passado no presente, mas da nostalgia em si, esta condição de estado afetivo que hoje nos arranca sorrisos de desespero.
O filme Nostalghia (1983), de Andrei Tarkovsky, conta uma história marcada pela melancolia. Três personagens centrais dão conta de toda a obra, exceto pelos figurantes: um escritor, Andrei Gorchakov (Oleg Yankovsky), uma jornalista, Eugenia (Domiziana Giordano), e um poeta e professor aposentado, Domenico (Erland Josephson). Cada qual assolado pelo seu respectivo desespero.
"Nostalgia", termo oriundo das palavras gregas nóstos (retorno ao lar) e álgos (dor), foi inventado pelo estudante de medicina Johannes Hofer na Suíça, em 1688, ao constatar em uma dissertação acadêmica que os mercenários a quem atendia sofriam de uma agonia profunda relacionada à saudade de suas casas.
No filme, Andrei, exilado de seu país natal, a Rússia, sofre com a saudade brutal de sua terra, onde teve que deixar a família. Eugenia, uma mulher irresistível, não é correspondida por Andrei, o único homem por quem se interessou e que nunca lhe deu atenção. Domenico, percebido como um alienado, tenta alertar a sociedade sobre o verdadeiro valor da vida: a liberdade de ser e criar. Três personagens, três abandonos retumbantes.
Entre os personagens principais, Andrei tem a mais profunda das angústias retratadas no filme. Em seu livro "Esculpir o tempo", Tarkovsky descreve o estado de afeto nostálgico do protagonista – com quem compartilha o primeiro nome, vale notar – como uma dor "asfixiante". Isso porque, concluo, a nostalgia nos consome pela impossibilidade não apenas do regresso à casa, mas, acima de tudo, do tempo em si.
Diferentemente do que o marketing tenta colorir, nada do que consumimos no presente pode, de fato, nos fazer voltar no tempo para viver novamente o que já foi vivido. Por isso, temos sido expostos à feliz ilusão de que assistir a um determinado filme, seja uma sequência ou de origem, comprar uma peça de roupa ou um colecionável semelhante àquele com que brincávamos na infância, nos levará de volta, mesmo que por um instante, ao conforto do passado.
Enquanto o futuro é o tempo que ainda não existe e o presente é este inferno que estamos compartilhando, o passado nos seduz porque já está resolvido, portanto não apresenta qualquer risco. O passado é o único tempo sobre o qual temos algum controle. Deste modo, a tentativa de replicá-lo no agora a partir de comportamentos e hábitos de consumo é decerto a melhor forma de se distrair dos horrores do presente.
No filme de Andrei Tarkovsky, no entanto, aprendemos com o drama do personagem principal que qualquer tentativa de combater essa dor é inútil, sem exceções. O diretor, por sua vez, não expressa a vanidade do consumo, nem a esperança em Deus ou em qualquer outra coisa, porque o exílio do protagonista foi imperativo e é incontornável. Em palavras mais objetivas, Andrei Gorchakov é consciente de seu desespero, e luta para ficar de pé enquanto adoece e definha ao longo de todo o filme, asfixiado pela contingência e pela nostalgia que o oprime de dentro para fora.
A melancolia não vende bem, por isso uma oferta que nos faça sorrir é a resposta do mercado para qualquer ameaça de falta de sentido que possa nos acometer. E já provamos que é o que queremos, especialmente neste primeiro quarto de século, em que a arte e o comércio expressam em números de vendas que o velho tem que ser o novo – eis a retromania.
Como o Homo sapiens vive e respira sentido de vida para seguir em frente, evitando sempre que possível momentos solitários de silêncio e reflexão prolongados, nos resta projetar por um breve momento as últimas lágrimas de otimismo sobre a felicidade inocente que já vivemos outrora, quando éramos rodeados por brinquedos e amigos, e nossos mortos ainda estavam vivos.
Tenhamos consciência, no entanto, de que nem a mais criativa e prazerosa das fantasias tem o poder de nos materializar no passado. Abrir os olhos é preciso, infelizmente, e ao fazer isso nos encontraremos onde estamos, de novo e de novo na matrix orgânica do presente do qual tentamos escapar. Continuaremos perecendo contra o tempo nesta eterna busca de sentido, não importa a sua alegria em acreditar que pode voltar ao passado ou a quantidade de toxina botulínica que você injete no rosto para convencer a si mesmo de que jamais irá envelhecer. A nostalgia não é um afeto feliz.









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