Amar é deixar ir
Aspectos SocioculturaisDependência nostálgica expõe uma dificuldade narcísica em aceitar o fim das histórias que amamos.

"Toy Story 5", um filme que, mais uma vez, ninguém pediu, teve um orçamento de produção estimado de US$ 250 milhões. Em seu primeiro fim de semana em cartaz, a arrecadação do longa ultrapassou a marca dos US$ 300 milhões, mesmo com o lançamento ainda pendente em mercados importantes como o europeu. Sem contar os gastos em marketing, o filme, que tão logo passará com tranquilidade a marca do bilhão de dólares em receita de bilheteria, se pagou em três dias.
O sucesso de Toy Story 5 tem sido atribuído à nostalgia das crianças que, como eu, cresceram assistindo à franquia, e agora, adultos, levam seus filhos ao cinema para assistirem às "novas" aventuras de Jessie, Buzz e Woody. Novas entre aspas porque a animação recicla e unifica os enredos dos dois primeiros filmes como uma forma segura de garantir o sucesso a partir do que se pode esperar de Toy Story, dado que a primeira tentativa de um enredo original baseado na franquia, Lightyear (2022), foi um fracasso de contação de história, bilheteria e recomendação boca a boca.
Enquanto Lightyear apresentou um roteiro fraco e completamente descolado da marca que tentou fortalecer, Toy Story 5, infectado pelo veneno das lembrotíferas, recriou momentos dos primeiros filmes da franquia para a nova geração em um problema insolúvel e já batido no audiovisual: a dificuldade humana de se fazer qualquer outra coisa no cotidiano contemporâneo em vez de ficarmos conectados em rede através de uma tela quase que por vinte e quatro horas por dia. Lemba das falas e atitudes de Woody e Buzz em Toy Story, e dos momentos emocionantes de Toy Story 2? — Ah, eu lembo! — Estão todos aqui, para o seu conforto e tranquilidade.
Ao ter a certeza de que assistirá ao mesmo filme com um novo título, você não corre risco algum de jogar o seu dinheiro fora com uma história potencialmente ruim e (ou) que não justifica a sua existência porque não retrata alguém como você. Afinal, ir ao cinema é uma atividade cara, ainda mais em família. Aconteceu o mesmo com Velozes e Furiosos, Jurassic Park (World), John Wick, Shrek, De Pernas pro Ar, Minha Mãe É Uma Peça, entre outras franquias.
Nós, sapiens, gostamos muito de contar e ouvir histórias, um hábito tão bonito da espécie que surgiu na pré-história e tem se aperfeiçoado desde então, especialmente com a magia compartilhada entre a arte, a tecnologia e, principalmente, a sociedade de mercado. O problema é que, para além de um hábito que se tornou uma tradição cultural, quando uma história se torna produto, especialmente um que continua gerando receita à medida que movimenta a roda da sociedade, ela pode nunca chegar ao fim definitivo.
Citei anteriormente histórias que, a cada episódio (filme) de sua franquia apresentaram um fim, até serem ressuscitadas de novo e de novo pela esperança de renderem uns trocados — milhões ou bilhões — a mais, alimentando uma demanda carente e dependente da segurança do que já assistiu um dia.
Por que não a mera e honesta reprise? Porque assim o velho jamais seria novo, e desta forma não venderia: "Toy Story" indica o mesmo de sempre, enquanto o numeral "5" aponta para a continuidade que você não quer deixar para trás. Enquanto os estúdios, por um lado, investem na nostalgia barata, o público, por outro, paga pelo ingresso, legitimando as certezas de que queremos, sim, reviver os afetos e emoções que sentimos outrora. Se há demanda, haverá oferta. Esta é a dinâmica que tem regido a sociedade desde a Revolução Industrial.
Embora tenha citado títulos brasileiros, são os americanos que chamam atenção: Hollywood tem mais dinheiro, mais propriedades intelectuais, e maior capacidade de produção e rentabilidade do que qualquer outra indústria cinematográfica no mundo. Americanos sabem fazer dinheiro, e não cessarão. Na dinâmica que rege o mercado, é o público, e não a indústria, quem deve pôr um fim derradeiro nas sequências, origens, releituras e derivados baratos dos grandes clássicos. Quando não houver mais demanda, não haverá mais oferta.
Dizem os americanos que amar é deixar ir. Estamos prontos para arriscarmo-nos por histórias que podem desagradar pela mediocridade ou pela ausência de elementos que reconheçam o nosso narciso em tela? Sou levado a crer que não. Neste mundo conectado em rede através de telas brilhantes – sobretudo dentro da sala de cinema –, alimentado por conteúdos irrelevantes, efêmeros e da mais baixa qualidade que nos despertam hormônios de satisfação, o desamparo do entretenimento não pode ser uma opção.










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