Crítica - Presença
Críticas Gerais
Presença traz, entre altos e baixos, um experimento narrativo fascinante e incrivelmente tenso.
Trazendo uma família que se muda para uma nova casa onde percebem eventos estranhos, Presença pega uma história manjada do gênero e confere novidade à mesma ao mudar a perspectiva da história, que dessa vez é ancorada pelo ponto de vista da própria assombração. Acertando por focar mais no drama dos personagens do que nos elementos de terror/suspense, com isso, o filme adota o slow burn para construir aos poucos o clima de tensão. Totalmente enxuto, o roteiro é eficaz por ser focado apenas naquilo que é essencial à história (mesmo que para isso, deixe algumas coisas da história meio jogadas, como o distanciamento de filha e mãe, que claramente tem maior preferência pelo filho de uma forma que leva a um momento desconfortável na história, ou o possível crime de colarinho branco que não ganha muito desenvolvimento pela história). Ainda assim, o filme se torna interessante ao discutir sobre a morte e o efeito que causa nas pessoas depois que partimos, e o imenso buraco deixado naqueles que ficam para trás. Além disso, é fascinante perceber as ligações de pai e filha e mãe e filho no filme de forma a cimentá-la em uma lógica entre vida e morte, e principalmente, na crença no desconhecido e a completa racionalidade advogada entre ambos, e que revela como ambos lidam com a situação assustadora apresentada pelo filme, o que claro, revela muito de nós como pessoas. E mesmo com alguns probleminhas (que discutirei adiante), o filme se mostra interessante em seus aspectos formais e narrativos, nos envolvendo com aqueles personagens, e finalizando com um desfecho que causa certo impacto emocional (mesmo que utilize uma reviravolta confusa e que não faça muito sentido).
Dirigido pelo sempre prolífico Steven Soderbergh, o diretor volta a experimentar por trás das câmeras, que se já impressiona pelo conceito, melhor ainda é que é executado de forma perfeita. Adotando lentes grandes angulares que deformam as laterais e expandem a profundidade de campo, com isso, a visão do fantasma não só se torna estranha aos nossos olhos, como também ressalta narrativamente o distanciamento daqueles personagens, esmagando-os com os tetos baixos ou apequenando-os com a profundidade dos enquadramentos. Além disso, ao utilizar longos planos, estes são extremamente eficazes ao ressaltar a naturalidade das atuações assim como o ponto de vista do fantasma e seu caminhar fluído pela casa. Ainda assim, é notável que o diretor se mostra influenciado pela franquia Atividade Paranormal na forma com que desenvolve o terror, deixando que os eventos sobrenaturais aconteçam de forma bem espaçada, mas exagerando na frequência de fades para demarcar uma nova cena no primeiro ato, o que se torna irritante.
Por outro lado, a limitação do conceito obriga a história a ter que se desenvolver dentro daquele único espaço, convertendo o filme, claro, em um clássico filme de câmera. Infelizmente, o roteiro se esforça para encontrar uma história naturalmente coesa e justificar a sua forma narrativa, e confesso, que o desfecho encontrado para a história onde converte um personagem desnecessariamente em vilão no absoluto nada, o que o leva até a trazer um longuíssimo discurso de vilão que só existe naquele momento para explicar ao espectador, já que parece deslocado do próprio personagem e do filme em si, fugindo da natureza sóbria da narrativa (e nem vou citar que o fantasma ajuda uma personagem em um dado momento, e mais tarde, não o faz, o que revela certa picaretagem do roteiro). É claro que o filme também poderia explorar elementos visuais diferenciados já que o fantasma, teoricamente, poderia atravessar paredes sem se limitar a percorrer os espaços da casa da mesma maneira que um simples mortal, além do mais, é curioso que o fantasma sempre aparece nos momentos exatos que servem para estabelecer os personagens e que revelem mais deles, mas aspectos como esses podem ser relevados em função do conceito, já que de outra forma, não saberíamos sobre os mesmos e isso quebraria a lógica estabelecida.
Com isso, Presença se mostra um dos melhores e mais interessantes filmes da carreira do seu diretor, e o filme ainda conta com ótimas atuações (Lucy Liu é ótima, como de hábito, onde a atriz busca adotar uma composição sóbria e que revela a sua forma seca de lidar com as coisas, ainda assim, é a sua excelente atuação que faz a cena final alcançar um forte impacto emocional, Chris Sullivan está muito bem como o patriarca, revelando a sua vontade de ajudar os filhos, Callina Liang se sai bem ao retratar seus conflitos e West Mulholland se mostra até interessante inicialmente, é uma pena que é o seu personagem que sofra um forte revés pelo roteiro, e infelizmente, o ator não consegue evidenciar as emoções necessárias para fazer o desfecho funcionar, e sou capaz de apostar que o diretor aproveitou os longos cabelos para tapar parte dos olhos do ator e esconder sua inexpressividade), uma ótima fotografia, um design de produção muito bom (e a própria casa se mostra um personagem à parte, se tornando aconchegante e sinistra conforme as necessidades da história), uma trilha sonora muito boa (que se equilibra entre seus belíssimos e frequentes temas melancólicos com outros mais tensos, encontrando um aspecto clássico em sua composição, ainda assim, penso que o compositor Zack Ryan erra a mão já que permite que a música se torne mais exagerada e surja em momentos que não precisam), um ótimo design de som, excelentes efeitos especiais (que surgem discretos em grande parte do tempo e se destacam nos momentos simples que mostram a assombração atacando de forma mais intensa), enfim, é um filme muito bom.
Gênero: Drama/Suspense
Duração: 84 Minutos
Classificação Indicativa: 16 Anos (Violência, Conteúdo Sexual e Drogas)
Distribuição: Diamond Films
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Lucy Liu, Chris Sullivan, Callina Liang, Eddy Maday, West Mulholland e Julia Fox
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