Michael | O paradoxo entre a natureza humana e o divino
Críticas GeraisExiste uma prateleira dourada de artistas considerados de outro mundo, como se fossem intocáveis, inalcançáveis, fora de série. Isto é, suas obras são praticamente perfeitas e, estando vivos ou não, é um risco gigantesco produzir algum material cuja natureza seja moldada à pressão de ser considerado a cinebiografia definitiva dessas pessoas. No entanto, mesmo havendo essa espécie de barreira respeitosa (e mística), às vezes corre o risco de alguém querer beber dessa fonte e fazer um filme ambicioso desses.

As consideradas biopics musicais sempre estiveram presentes, e nos últimos anos estamos presenciando uma crescente desse subgênero. Um dos meus primeiros textos do Peliplat, inclusive, foi justamente sobre este tema. Aqui está o link, caso alguém se interessar (Biopics e o gênero da genialidade de gênio forte). No artigo, comentei sobre as diferentes maneiras e propostas para se fazer uma biopic que faça jus à história do homenageado. Seja com uma cronologia linear e protocolar ou com flashbacks, ou - principalmente - utilizando de recortes históricos específicos, dando espaço para o respiro da própria trama.

Ademais, destaquei quatro dos meus favoritos com essa temática, mencionando o porquê de minha preferência, além de sugerir outros como dicas. Portanto, minhas constatações completas sobre este tema estão todas lá, mas vou relembrar de algumas aqui. Há diversas maneiras de retratar alguém que é considerado um gênio. E a complexidade disso está em destrinchar alguém tão acima da média como um mero ser humano falho. Ou seja, abordar a natureza humana daquele indivíduo. Endeusá-lo à algo ainda mais santificado e intocável definitivamente não é a melhor das escolhas. Ao menos, para mim. E é este o caso que encontramos no mais novo lançamento da semana, “Michael” (2026).
Seria chover no molhado enfatizar a importância de Michael Jackson. Não é por acaso que alguém desse calibre detenha o título de Rei do Pop. Repito, não é acaso, não é algo simples. Não se pode reduzir a isso. Por mais respeito que possa haver em cinebiografias, não é simplesmente (ab)usando da simplicidade para justificar seus cortes bruscos e gaps temporais como facilidades de roteiro para avançar a história. Michael Jackson, certamente, faz parte dessa prateleira dourada. Talvez, inclusive, ele esteja na área de maior destaque. “Talvez” não, ‘com certeza’!

Como artista solo, Michael é o maior de todos os tempos, não há dúvidas. E sua relevância não está restrita ao mundo da música. O audiovisual como um todo deve aos seus feitos. Michael revolucionou a indústria ao registrar sua obra em outro patamar no que diz respeito ao visual e construção de mundo. Michael Jackson sempre foi cinematográfico. Seus álbuns e os conceitos por trás, seu figurino, além de clipes memoráveis que marcaram diversas gerações assistindo MTV. Por conta disto, retratar esse Michael Jackson nos cinemas não é uma tarefa fácil, e nunca será.
E não entramos nessa área cinzenta das biopics musicais ontem. Já sabemos de cor e salteado as armadilhas que esse tipo de filme costuma pregar. Acontece que por se tratar de artistas tão amados, sendo filmes bons ou não, acabam caindo na graça do público. O que nos faz questionar algo semelhante quando blockbusters recentes de super-herói são lançados: existe filme para fã ou para todos?
Muito se fala sobre “filmes para desligar o cérebro”, expressão da qual se torna polêmica e incômoda dependendo do ponto de vista. Algumas pessoas não se ofendem com isso, e usam a premissa de assistir tais filmes apenas por puro entretenimento. Outras apontam esse discurso como diminutivo em relação ao trabalho de uma equipe inteira, reduzindo o valor artístico da obra. Usualmente, estes filmes estão associados à ação e à comédia, dentre outros subgêneros. Um exemplo recente que foi muito marcado pela discussão entre público e crítica foi “Deadpool & Wolverine”, de 2024.
Lembro que na época, muitos fãs amaram esse filme, destacando os fanservices apresentados. Por outro lado, os críticos caíram em cima, alegando não haver nada além disso, sendo considerado um filme raso e superficial. Fato este causando muita revolta por parte dos fãs. Isto tudo levou à argumentações como “mas isso é um filme para o fã”, “se você não é fã, não aproveita o filme mesmo”, “não é um filme de arte”, “é um filme para desligar o cérebro”. Em contrapartida, outras considerações foram feitas: “então, se um filme é lançado no cinema, o objetivo não é atrair a maioria do público?”, “um filme é feito para um grupo seleto de pessoas, ou para todos?”. E por aí vai.

Cito este caso, pois acontece algo parecido com as biopics musicais. Filmes de herói já apresentam um público cativo e fiel há anos, então sempre terá um fã do Batman ou do Homem-Aranha esperando o próximo lançamento destes heróis e sua trupe. Agora, cinebiografias de artistas musicais já apresenta um certo público antes mesmo de qualquer tipo de promoção ou venda deste produto: os fãs desses artistas que estão sendo homenageados. E, assim como os fãs de “Deadpool & Wolverine”, mesmo se o filme X ou Y sobre o artista W ou Z for considerado ruim pela crítica, o público cativo irá alegar que ‘é um filme para fã’ e irá defendê-lo até o último custo. Isto sempre acontece, porém com algumas diferenças.
Lidar com fandoms nunca foi fácil. Faço parte de diversos, entre filmes, sagas, personagens e bandas. E dentro destes fandoms, temos diversos tipos de fã: o que sabe e conhece toda a obra, o que conhece os pontos mais famosos, o que é cego e gosta de todo e qualquer tipo de produto ou obra daquele artista - mesmo no fundo não gostando tanto, e o que é honesto consigo mesmo e sabe criticar quando algo não está tão bom assim.
Um exemplo pertinente para se comentar aqui é o de “Bohemian Rhapsody” (2018), por se tratar do mesmo produtor de “Michael”. Boa parte do público abraçou este filme na época, inclusive os fãs do Queen. No entanto, é possível observar diversos fãs da banda que não demonstraram tanto entusiasmo com o longa, justamente por ser tão fã à ponto de questionar cronologia de alguns fatos ou, até mesmo, puramente por não gostar da forma que foi abordado e montado. Mas aqui entramos em algo delicado: não existe mais fã ou menos fã, não é porque um gostou que ama mais o artista, e outro que não gostou tanto e não apresenta o mesmo amor. Reduzir esta discussão à isto acaba sendo desonesto com o carinho de inúmeras pessoas para com o artista e sua obra.

Outrossim, é preciso enfatizar uma carta na manga que todos esses filmes apresentam: justamente a música de seu artista. Portanto, mesmo não dando muita ênfase para roteiro, esses filmes apostam nas performances propriamente ditas de seus atores reproduzindo os feitos dos artistas. “Bohemian Rhapsody” e “Michael” são irmãos nesse quesito. Chega uma hora nos dois filmes, próximo ao final, que podemos parar, relaxar e apenas curtir um show histórico sendo reproduzido diante dos nossos olhos. Como não gostar ou apreciar isso? Ainda mais sendo fã? Como simplesmente negar que aquilo está sendo divertido? É a mesma coisa com o “Deadpool & Wolverine”. Ora, se esperei esse tempo todo o Wolverine de Hugh Jackman vestir este traje amarelo em meio à tanto personagem diferente do multiverso, por que eu não estaria me divertindo aqui na poltrona desse cinema? Depois que passar o hype, e você voltar para sua casa, pode até ser que alguns furos de roteiro sejam apontados e, revisando sua crítica original, chegue na conclusão de “ok, talvez esse filme não seja tudo isso”. Mas no momento principal, assistindo ao filme no cinema, não valeu a pena? Aquela euforia coletiva não valeu pela experiência? Para alguns isso basta, para outros não, e a graça de discutir cinema e arte em geral é essencialmente essa. Não é matemática exata.
![Bohemian Rhapsody: 4 erros do filme sobre Queen; Rock in Rio, gravação de 'We Will Rock You' e mais [LISTA] - Rolling Stone Brasil](https://img.plotcoda.com/u/article/20260424/0f918b333e952164c90d54268096fbd6.webp)
Comentei tudo isso para dizer, como fã de Michael: eu queria ter gostado mais do filme. Não vou negar. Mas é preciso ressaltar cenários, figurinos e maquiagem, está tudo impecável, além da parte técnica sonora. Existem momentos aqui que Jafaar Jackson está idêntico ao tio, seja na interpretação, nas danças, na voz, nas roupas, em tudo. Isso impressiona. Ainda mais pelo fato de que o filme foi inteligente em pegar uma época muito icônica do artista: predominantemente os anos 80. Isto é, temos o início do The Jackson 5 em meados dos anos 60, passando pelos primeiros anos rapidamente até cortar para o lançamento de “Off The Wall”, no final da década de 70, o álbum solo de Michael Jackson considerado como o grande primeiro divisor de águas de sua carreira. A partir disto, o longa emenda com o nascimento de um dos álbuns mais importantes de todos os tempos: “Thriller”, até que fecha sua cronologia com a turnê da era “Bad”. Ou seja, aqui temos o Michael no seu auge.

Além de se ancorar nessas divisões de tempo, “Michael” também reforça o drama de seu protagonista e a relação conturbada com o pai Joe Jackson, aqui vivido por Colman Domingo. Aliás, se há um destaque individual neste filme além de Jafaar, é Domingo. Além de estar com uma caracterização excelente, o ator está amedrontador a cada vez que se encontra em cena, enfatizando essa presença vilanesca da figura paterna dos Jackson, muito famosa há anos. No entanto, em termos individuais os destaques se limitam aos dois. Isto não significa que não haja simpatia por outros personagens (KeiLyn Durrel Jones como o chefe de segurança e amigo confidente de Michael, Bill, está bastante carismático; além de Nia Long, como a mãe Katherine Jackson, ter seus momentos mais delicados com o filho), mas falta riqueza e substância.

Reforço, é um filme sobre Michael, a figura central está totalmente nele. Porém, é inevitável não assumir que os outros personagens são totalmente escanteados na história, e isto faz diferença. Faz diferença porque entramos no paradoxo da tentativa de humanização de deuses que essas biopics nos propõem. A ideia de um filme biográfico é ficar imerso na vida daquele artista, passando pela sua obra, fazendo com que nos relacionamos de modo mais afetuoso e íntimo com a pessoa, além da marca e da espetacularização. E pessoas são cercadas por outras pessoas, das quais são importantes e donas de personalidades próprias.

Por exemplo, há muita ausência dos irmãos de Michael aqui. Ausência em tela e fora dela. Isto, inclusive, até passa para fatores ‘extra-campo’ digamos. Quando você assiste ao filme, percebe a falta de sua irmã Janet Jackson na trama. Acontece que “Michael” foi muito administrado pela própria família, e o relacionamento conturbado com Janet acabou chegando a um acordo dela nem sequer ser mencionada. No entanto, mesmo os irmãos que estão presentes são meros números. É quase como se fosse só a banda de apoio no palco. E isto é triste, pois por mais que o Michael sempre tenha sido o grande astro, reduzir seus irmãos a apenas membros da banda sem nenhuma personalidade é de uma frustração tamanha. Um dos momentos que seu desdém está mais do que na cara é quando Joe (Domingo) comenta que Jermaine Jackson está fora, pois houveram diferenças entre a banda e a gravadora Motown, fazendo com que o irmão fosse o único a se manter lá, enquanto o resto da banda migrou para a gravadora Epic. Só que isto é reduzido a apenas uma linha. Nem sequer temos um momento expressivo de Jermaine, ou de qualquer outro irmão. São meros peões no tabuleiro de Joe (o que até faz sentido dado a narrativa de vilão, porém simplifica demais as relações humanas de uma família). Não que este caso específico da gravadora tivesse que ter uma ênfase maior, mas é apenas para ilustrar a desvalorização dos outros irmãos nesse processo todo.

Além disso, existem figuras importantíssimas por trás da figura de Michael Jackson que, no mínimo, mereciam mais respeito aqui. E neste caso, estamos falando de Quincy Jones. Aqui, Jones aparece apenas na transição fugaz da espécie de ‘emancipação’ de Michael, com o “Off The Wall”. Este álbum não é o primeiro álbum solo de Michael, como se dá a impressão no filme. Mas dá para se dizer que é o grande primeiro álbum do icônico Michael Jackson que conhecemos. É neste disco que temos “Don't Stop 'Til You Get Enough” e “Rock With You”, grandes clássicos de sua carreira. E um dos principais fatores que se destaca com o nascimento deste álbum é justamente a presença do produtor Quincy Jones. É o primeiro que ele assina a produção e marca uma parceria bastante frutífera com Jackson. E no filme, é apenas mais um personagem que só ‘está ali’. É interpretado por Kendrick Sampson, da qual visualmente está muito bem, mas o roteiro e a montagem não o favorecem como alguém essencial na carreira de Michael.

Seguramente, a falta de personalidade nessas figuras tão emblemáticas para sua vida acaba nos distanciando ainda mais da pessoa Michael Jackson. Isto é, não há natureza humana aqui (sim, é um trocadilho com “Human Nature” este tempo todo caso não tenha ficado na cara), apenas a natureza de um ser quase divino e inalcançável. Michael é diferente, porque nasceu assim. Michael não tem falhas, porque nasceu assim. Michael é o cara mais incrível do mundo, porque nasceu assim.
E isso não deveria ser um demérito, dado a exaustão dessas biopics exaltando o lado sombrio de seus protagonistas. Chega uma hora que realmente cansa ver que nossos ídolos eram uns completos (desconhecidos) babacas. Mas, em contrapartida, é impossível haver humanização em um ser humano tão perfeito, tão bom, tão dócil. O antagonismo do filme e seus principais conflitos estão totalmente pautados pela figura paterna de Joe, e não passa disso. No máximo, algumas menções sobre a indústria e mídia, e só. Não se aprofunda em um Michael humano. É claro que o filme aponta muito bem como os abusos de seu pai o traumatizaram, e a busca pela liberdade sempre esteve presente no seu caminho (Neverland, Peter Pan etc). Isto sempre foi o norte, o que na teoria já humanizaria o personagem. Porém, na prática apenas ficam como frases de efeito de “quero seguir meu próprio caminho”.

Além disso, também temos os grandes momentos de sua vida sendo retratados de forma protocolar, que é o grande perigo de cinebiografias como esta. Não há a novidade e escolha estética de um “Better Man”, não há um recorte pequeno de um “Um Completo Desconhecido”, há apenas pequenos episódios sendo passados rapidamente pois o filme não pode parar. Não há respiro ou aprofundamento em questões importantes de sua vida, até mesmo as de saúde como o vitiligo e o uso de analgésicos. É tudo muito superficial, como se fizesse parte de um checklist que precisa ser comentado, do tipo ‘quem pegar, pegou’.

Por conclusão, por mais que minha experiência com Michael tenha sido recheada de ressalvas, não assisti ao filme como um robô sem coração. Não deixei de me emocionar em alguns momentos, principalmente nas apresentações do Jackson 5, com o ator mirim Juliano Valdi dando vida ao jovem Michael (que interpretação belíssima a desse menino) e se destacando totalmente. Sem contar nas horas que as músicas vinham com tudo. O filme é uma delícia nesse sentido. Você fica ouvindo as músicas do Michael enquanto diversos cenários e momentos icônicos passam na tela. O próprio momento da recriação do maior clipe de todos os tempos, “Thriller”, é fenomenal o esmero de tantos detalhes. Portanto, volto para aquela conclusão de “Bohemian Rhapsody”. É basicamente você aceitar que não necessariamente está assistindo a um filme com uma narrativa, uma trama, um roteiro a ser seguido. Está mais para uma apresentação mesmo. Uma recriação de shows memoráveis de Michael Jackson. E eu não sou nem louco de falar mal disso. Definitivamente, é uma experiência maravilhosa ver essa recriação. No entanto, entre ver isto e os próprios shows do verdadeiro Michael, acho que não é surpresa dizer que eu prefiro ver as apresentações reais, certo? Ao menos, elas soam mais cinematográficas do que o próprio filme.

Dito isto, “Michael” cai nos mesmos obstáculos de outras biopics, a diferença é que estamos mexendo naquela prateleira dourada, estamos mexendo com peixe grande aqui. Alguns fãs vão amar, outros vão achar que não está à altura do Rei do Pop. Particularmente, gostei do filme como um bom entretenimento divertido em sua coletividade. Estamos no cinema, todos reunidos para celebrar a música de Michael Jackson, como um evento mesmo. Entretanto, como filme em si, não tive a experiência da qual achei que teria. Biopics musicais é um subgênero que gosto muito, caso tenha ficado alguma dúvida. Mesmo os mais “padrões” eu acabo me divertindo, e aqui não foi diferente. Acabei me divertindo sim. Só que estamos falando de Michael Jackson, então… era para o sarrafo ser um pouco maior.










Comentários 1