Os relançamentos de Kill Bill e São Paulo SA - Sobre o cinema e o tempo
Aspectos SocioculturaisClássicos relançados se transformam e reforçam a relevância incomparável da experiência cinematográfica no tempo.

Em 2025, apenas dois filmes com histórias originais figuraram no top 10 de bilheteria internacional: Sinners (Pecadores - Warner) e F1 (Warner/ Apple). Isso é deprimente, sabendo que os demais filmes de maior desejo do grande público se dividiram entre narrativas de origem, continuações ou remakes de filmes antigos que ninguém pediu, dada a popularidade de suas obras originais, franquias (ou marcas).
Há um esgotamento que persegue os apreciadores da sétima arte que prezam pela surpresa (positiva ou negativa) da originalidade. Não há o que possa ser feito: enquanto o público reclamar da falta de criatividade de Hollywood e, ao mesmo tempo, preferir pagar para assistir a uma sequência ou remake a arriscar seu suado produto do mês em algo menos previsível, nada disso irá mudar. Há muitas histórias originais a serem contadas, ainda que nem os investidores de Hollywood nem a audiência estejam dispostos a investir nelas.
Desconsidero no cenário anterior os relançamentos. Estes, sim, têm sua razão de existir. Seja porque amantes do cinema querem ter a oportunidade de assistir pela primeira vez a clássicos dos circuitos artístico e comercial, ou porque um determinado título foi agraciado com os processos de restauração ou remasterização – aqui, sim, há algo de novo para ambas as alternativas: a experiência cinematográfica.
Os smartphones, os tablets, os computadores e, por fim, as TVs, têm sua importância cultural enquanto dispositivos de reprodução de conteúdo: estes aparelhos possibilitam o acesso das pessoas não ao cinema, mas a produções do cinema. A sala de cinema mesmo, onde a “magia do cinema” (nunca magia do “streaming”) acontece, esta é incomparável e insubstituível. Por isso, pessoas voltam às salas para ver relançamentos. Um download ou um stream jamais será suficiente para quem quer viver um grande filme.
Há poucos dias tive o prazer de assistir na mesma semana a dois relançamentos no cinema que nunca tinha assistido antes: Kill Bill: The Whole Bloody Affair (Paris Filmes) e São Paulo Sociedade Anônima (Vitrine Filmes). Kill Bill conta com um novo corte que unifica os dois volumes (Vol. I, 2003; Vol. II, 2004) em sequência, como sempre desejou Tarantino; São Paulo SA (1965) , agora brilhantemente remasterizado, foi apresentado pela primeira vez na resolução 4K. Até então, ambos em cartaz exclusivamente nos cinemas. Que semana!
Kill Bill trata de uma história de vingança abençoada com toda a estética noventista tarantinesca – eu sei que os filmes são dos anos 2000 –, influenciada pelo western americano e também pela cultura japonesa. Tudo com uma violência inesgotável, porém justificada. Já São Paulo SA retrata outro tipo de violência: o amor, com a cidade de São Paulo dos anos 50 e 60 como cenário, onde vidas individualizadas coexistem carregando o peso esmagador da industrialização nas costas. Dois filmes extraordinários.
A arte é atemporal, e o cinema é um agente que registra a história com a imagem em movimento. Especialmente no caso de São Paulo SA, uma estória que também conta uma história. O que traz estes filmes ao encontro do presente não é a nostalgia barata, como no caso do top 10 do último ano, ou a mera necessidade de se “fazer dinheiro” – em 2026 filmes bons dificilmente se pagam nos cinemas –, mas o nosso desejo incontrolável de contar e assistir a belas histórias.
Decerto Kill Bill e São Paulo SA não eram os únicos filmes em cartaz que tinham valor, mas ambos evidenciam, não coincidentemente, que grandes histórias viajam e se transformam no tempo, narrativa e tecnologicamente, para conquistar e reconquistar aqueles que se permitem esquecer-se de si e que se deixam tomar pelo estado da arte cinematográfica. Como é bom viver um clássico no cinema!










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