Crítica - Valor Sentimental
Críticas Gerais
Valor Sentimental é um ótimo drama que usa da rigidez da direção para nos envolver com seus personagens.
Trazendo a história de duas irmãs que mantém uma relação distante com o pai que é diretor de cinema e que convida uma delas para estrelar seu novo projeto, Valor Sentimental busca criar uma narrativa sóbria, calcada na realidade de seus personagens sendo menos interessado em ser uma obra mais emocional, e sim em trazer uma abordagem mais racional, cujos sentimentos que despertam são obra de pessoas que pensaram muito o que sentem, e que como artistas que são, expurgaram-na de uma forma que há muito compreenderam a raiz de suas dores. Se desenvolvendo como um drama familiar, nos envolvemos com os personagens e seus dramas pessoais, cujo ritmo permite que a história se desenvolva com a calma necessária (e sem se tornar cansativo) para retratar certa tensão entre os personagens como comprova a sequência que a protagonista enfrenta o pai em um jantar em família (ainda que a montagem exagere no excesso de fades que acaba conferindo a sensação de estarmos vendo blocos separados da história, ao invés de uma construção linear).
Dirigido por Joachim Trier, cujo filme anterior, o ótimo A Pior Pessoa Do Mundo, trazia uma narrativa que encantou a mim mais pelas reflexões que me causou do que pelo seu impacto emocional (que confesso achei mais rígido e calculado), e aqui em Valor Sentimental ele se mostra muito mais ciente disso, onde usa da sua rigidez e frieza como diretor a serviço da história e de seus personagens, e sua protagonista, mais combativa e distante com o pai se encaixa como uma luva para os propósitos do filme. Com isso, ao trazer personagens distantes das próprias emoções, essa frieza contrasta justamente com os momentos que estes deixam escapar lágrimas ou palavras que os libertem de si. E essa abordagem racional e contida da direção, embora propositalmente distante, é eficaz por nos levar a perceber o que os personagens estão sentindo, sem apelar para uma trilha sonora dramática, embora essa frieza possa afastar os espectadores. Além disso, sequências como a de abertura ou aquela que retrata o passado da mãe de Gustav encantam pela poesia visual e narrativa.
Ancorado por atuações impecáveis de seu elenco (que trazem naturalidade a seus personagens), com isso, Renate Reinsve confere uma doçura que se contrasta com a postura combativa com o pai, o que é ainda mais revelador ao percebermos uma melancolia na fala que revela todo um mundo de dores pessoais, já Elle Fanning surge adorável e é o contraste perfeito para a família Borg, e sua busca para alcançar as emoções para a personagem que interpretará no filme dentro do filme surge tocante justamente pela dificuldade de “encontrar” a personagem. Enquanto isso, Inga Ibsdotter Lilleaas parece indicar que sua personagem é a mais passiva da história, quando aos poucos revela uma força insuspeita e uma empatia para com a irmã e o pai, e um imenso carinho que torna sua atuação discreta e natural. E claro, Stellan Skarsgård é fantástico, e logo na sua primeira cena o ator traz uma presença de cena que praticamente nos leva a ele, porém mais que isso, o ator é inteligente ao conferir humanidade em sua atuação (seu olhar ao perceber que não é uma boa ideia chamar o amigo para um papel é tocante) e também uma postura de negação (percebam como ele parece fugir de assuntos delicados de forma que soa bem-humorada e também preguiçosa, como se fizesse pouco caso), mas é também o seu olhar que diz tudo para nós espectadores, já que um dos prazeres do filme é justamente observar que seu personagem está tendo uma compreensão profunda de algo que lhe pareceu escapar há muito tempo.
Contando ainda com uma ótima fotografia (que traz uma atmosfera melancólica e frequentemente gélida para retratar seus personagens), um eficiente design de produção (e a casa da família Borg praticamente se torna um personagem à parte) e uma bela trilha sonora, de toda forma, é uma obra de dores que emanam por uma vida toda, mas que pode encontrar na Arte uma forma de paz. Algo que o olhar cúmplice entre pai e filha em dado momento do filme diz tudo que precisamos saber. E reconhecemos isso ao fim da jornada de seus personagens desse ótimo filme.
9 Indicações ao Oscar 2026 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção - Joachim Trier, Melhor Atriz - Renate Reinsve, Melhor Ator Coadjuvante - Stellan Skarsgård, Melhor Atriz Coadjuvante - Elle Fanning, Melhor Atriz Coadjuvante - Inga Ibsdotter Lilleaas, Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem.
Gênero: Drama
Duração: 135 Minutos
Classificação Indicativa: 14 Anos (Temas Sensíveis, Conteúdo Sexual, Nudez e Drogas Lícitas)
Distribuição: MUBI/Retrato Filmes
Direção: Joachim Trier
Elenco: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning
Essas e outras críticas, você pode ler aqui:
https://criticasdefilmes1.wordpress.com/










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