Presente de Grego (1987) e as surpresas que a vida reserva

Críticas Gerais

Já falei em textos anteriores sobre duas comédias nem sempre românticas que foram lançadas no ano de 1987, Nos Bastidores da Notícia (Broadcast News) e Feitiço da Lua (Moonstruck). Quando resolvi escrever sobre Presente de Grego (Baby Boom), não tinha me tocado da coincidência de ser um filme que estreou naquele mesmo ano. Tá, é uma forçação de barra chamar o filme dirigido por Charles Shyer e estrelado por Diane Keaton de comédia romântica. Até há um namorico da protagonista que transforma a história em uma screwball comedy graças à química entre Keaton e Sam Shepard, mas o romance não é o que faz a narrativa andar. Se há uma coincidência mais forte do que o ano de lançamento dos três filmes que citei, é o quão modernos esses filmes soam na construção de suas protagonistas, quase quarenta anos depois de seus lançamentos.

Assim como em Nos Bastidores da Notícia e Feitiço da Lua, o filme precisa muito que o carisma de sua atriz principal venda as situações mais absurdas. Nenhum problema quando se tem Diane Keaton à disposição, né? Em Presente…, ela é JC Wiatt, uma mulher que cruza todos os dias as calçadas de Nova Iorque para vencer em um mundo feito para homens. Estamos nos anos 1980, a era dos yuppies, termo usado para Young Urban Professionals. Esses “profissionais urbanos” eram ambiciosos e não tinham medo de subir os degraus para o sucesso. O cinema estadunidense, em especial, dedicou muitas horas a essa geração e ao impacto que ela teve nas posteriores, tanto de forma positiva quanto negativa. Nesse contexto, também vemos as mulheres (muitas, vindas de posições já privilegiadas) ganhando a força de trabalho. Fora da ficção, nomes como Sherry Lansing (uma boomer) ascendiam a postos de poder, mas ainda em condição de “primeira mulher a conquistar” algo - no caso de Lansing, ela foi a primeira a chefiar um grande estúdio, a 20th Century Fox.

O filme faz questão de mostrar que há um caráter de exceção no sucesso de mulheres como JC Wiatt. Somos apresentados à personagem em uma narração de reportagem que mostra a ascensão da força de trabalho feminina. As meninas que foram ensinadas a casar com médicos e advogados se tornaram médicas e advogadas. Trabalham 70, 80 horas por semana, namoram pessoas tão workaholics quanto elas (vale ressaltar que, como em tantos outros filmes da época, a lógica é heteronormativa no filme de Shyer). JC é uma dessas mulheres. Chamada de “tigresa” (ou talvez mulher-tigre seja uma tradução mais apropriada para o termo ‘tiger lady’), ela caminha para voos altos em uma empresa em que homens tomam as decisões. Desde o início, um desses homens, que está em posição de poder em relação a ela, a lembra que ela não pode ter tudo e que se casar e, principalmente, ter filhos são coisas impensáveis para uma mulher que quer subir na carreira.

É curioso como as coisas se conectam, porque, depois que assisti ao filme, as timelines de todas as minhas redes sociais foram tomadas por pessoas encantadas com Carolyn Bessette, graças à série Love Story, do FX. Se você me segue, sabe que estou no clube das pessoas obcecadas com a série e com a atuação da Sarah Pidgeon. Assim como JC, Carolyn era uma mulher extremamente competente e em ascensão que começou a ter a identidade questionada pela vida pessoal - ok, no caso de Bessette, foi mais o caso de uma imagem usurpada pela opinião pública e as expectativas que surgiram pelo casamento com o filho de John Kennedy. Divagações à parte, é interessante pensar na forma com que os dilemas dessas mulheres bem-sucedidas são explorados pelo audiovisual. Em O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada, 2006), Miranda Priestley precisa ser implacável para conseguir se sobressair - e isso custa suas relações familiares. Na série Sex and The City (1998-2004) e nos filmes lançados em 2008 e 2010, outra Miranda - a Hobbs - vê sua competência e sua capacidade de equilibrar os pratinhos serem questionadas (inclusive por ela mesma) depois que vira mãe.

Esse equilíbrio nunca foi um dilema para JC, porque a maternidade não era algo nem considerado em sua vida, mas uma ligação na madrugada vira seu mundo de ponta-cabeça. Um primo distante morre e deixa para ela uma herança… um bebê! A chegada da pequena Elizabeth muda toda a dinâmica de sua vida. Quando ela desiste de colocar a criança para adoção e resolve encarar a maternidade, o namorado vai embora e, aos poucos, o emprego dos sonhos vira uma realidade para outra pessoa (lógico que para um homem mais jovem que ela treinou).

O que mais gosto do filme é como ele quebra as certezas de JC ao mesmo tempo em que mostra que já havia fissuras antes que a vida dela mudasse com a chegada de Elizabeth. O emprego dos sonhos a deixa com a perna tremendo de nervoso debaixo da mesa e há um sonho, tolhido pelo relacionamento burocrático, de ter uma casa para férias no campo, em Vermont. Para quê uma casa de férias se eles não têm férias?

As certezas se desmontam na metade do filme e JC revê seu propósito, sem perder a chama que a fez se destacar na profissão. Depois que sai do emprego e, enfim, se muda para a casinha (que de ‘inha’ não tem nada) em Vermont, ela descobre um novo caminho profissional, tão por acaso quanto foi com a “herança” do primo distante. Ao unir as novas necessidades como mãe solo de uma bebê em uma cidade nova e a expertise que tem nos negócios, ela alcança sucesso orgânico com uma linha de papinhas de maçã.

É muito gostoso descobrir, junto com JC, esse caminho. O filme é roteirizado por Nancy Meyers, que viria a dirigir filmes protagonizados ou co-protagonizados por mulheres que são definidas por descobertas pessoais e que não se resumem aos romances que vivem, como a personagem de Anne Hathaway em Um Senhor Estagiário (The Intern, 2015) e a Erica vivida pela própria Diane Keaton em Alguém Tem Que Ceder (Something’s Gotta Give*, 2003).

O sucesso é ressignificado para JC. Quando ela retorna para Nova York para conversar sobre uma nova proposta na empresa que a rejeitou, é surpreendida pela própria vontade de não viver aquilo novamente. Voltar à cidade grande e à vida de ternos bem cortados e reuniões onde não tem voz e nem vez é interromper o que está fazendo bem a ela. O filme mostra que o “não” que ela dá ao antigo chefe é mais um sim a uma vida que a faz respirar e que possibilita que ela tenha, sim, tudo. JC conseguiu o equilíbrio entre êxito profissional e se entendeu como pessoa, em um processo atrapalhado - e que delícia é ver Diane Keaton embarcando na comédia física das situações mais absurdas possíveis, como precisar de fita isolante para fechar uma fralda, pesar a criança na balança do supermercado ou quando descobre que está sendo atendida por um veterinário e não por um médico “de humanos”. Nesse quebra-cabeça, o romance de JC é mais com essa nova versão dela e com as possibilidades que não estavam no roteiro que ela achava que ia seguir. E que saudades de Diane Keaton.

*soltei um sorrisinho quando um dos personagens de Baby Boom disse a frase “something’s gotta give” para a personagem de Keaton.

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