Feitiço da Lua (1987): uma comédia nem sempre romântica sobre segundas chances
Críticas Gerais
Feitiço da Lua (Moonstruck, 1987) volta algumas vezes a uma mesma pergunta: por que os homens correm atrás das mulheres? É um questionamento que anda entre o retórico e o filosófico, com a resposta sempre rondando o medo da morte. O filme dirigido pelo canansense Norman Jewison trabalha a culpa católica e as relações familiares como temas que caminham junto à indagação sobre as intenções dos homens, ao mesmo tempo em que um amor improvável faz renascer duas almas que estavam adormecidas por romances interrompidos de formas abruptas.
Essas duas almas são vividas pelo nada discreto charme de Cher e Nicolas Cage. Ela é Loretta Castorini, uma mulher que acaba de receber um pedido de casamento, e ele é Ronny Cammareri, o irmão do noivo dela. O encontro dos dois começa explosivo, mas logo se torna a cura para as feridas que cada um deles carrega.
Antes de noivar com Johnny (Danny Aiello), Loretta estava há sete anos sem ter nenhuma relação, vivendo o luto pela morte precoce do primeiro marido. Quando o filme começa, ela mora com os pais e carrega uma certa tristeza no olhar. Em contrapartida, o olhar de Ronny é de pura fúria. Uma personagem do filme o define como “o homem mais atormentado do mundo”. Abandonado pela noiva depois que perdeu a mão, ele vive frustrado, principalmente com a felicidade do irmão. “Johnny tem uma mão! Johnny tem uma noiva!”, grita, quando Loretta vai até ele para chamá-lo para o casamento.
Reassistir a Feitiço da Lua depois de alguns anos me fez lembrar do quanto Cher é uma grande atriz, com carisma para preencher o céu de Nova Iorque. O filme rendeu a ela o Oscar de Melhor Atriz, em uma categoria que tinha Meryl Streep (que ficou eufórica ao ver a amiga ganhando), Holly Hunter, Sally Kirkland e Glenn Close, indicada por Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987), de Adrian Lyne. Naquele momento, ela já era um ícone na música (e na moda!) com trabalhos relevantes no cinema. O reconhecimento já aparecia também: por Silkwood - O Retrato de Uma Coragem (1983), de Mike Nichols, foi indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante (o filme também rendeu a amizade com Streep), e, por Marcas do Destino (Mask, 1985), de Peter Bogdanovich, ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes, em um empate com a argentina Norma Aleandro, de A História Oficial (La Historia Oficial, 1985), de Luis Puenzo. No mesmo ano de Feitiço da Lua, ela também estrelou As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1987), de George Miller, e Sob Suspeita (Suspect, 1987), de Peter Yates, e ainda teve tempo para lançar um álbum homônimo, com o clássico “I Found Someone”.
Por mais que seja triste que Close não tenha vencido nenhum Oscar até hoje, nem mesmo por duas de suas atuações mais emblemáticas - essa, de 1987, e no ano seguinte, com Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons, 1988), de Stephen Frears -, não dá para dizer que a derrota para Cher foi um absurdo. A mudança do olhar triste de Loretta para o renascimento ao se apaixonar de forma inesperada é o nosso guia no filme. Não é uma surpresa que Ronny se encante com ela, porque nós também nos encantamos, e isso é mérito de Cher, que consegue sumir na personagem ao mesmo tempo em que traz um magnetismo digno de grandes estrelas de outros tempos, como Katharine Hepburn e Barbara Stanwyck. Prova disso é a cena da ópera, logo após a pequena transformação de Loretta. Sob a luz da lua, ela sai do táxi direto para o coração de Ronny (e para os nossos também). Em contrapartida, Nic Cage já surge como o ator super expressivo que seria aclamado na década seguinte com o Oscar de Melhor Ator por Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995), de Mike Figgis.
Ah, e a lua tem papel importante no filme, para além do título. As emoções ficam afloradas com a bola prateada no céu e é nesse contexto que o “lobo” Ronny e a “ovelha” Loretta se apaixonam. Os personagens ao redor, que tentam entender por que os homens correm atrás das mulheres (sobretudo, as mais jovens), também sentem os efeitos da lua cheia. Algumas fichas caem, algumas descobertas acontecem, e muitas angústias ganham a superfície.
Quando a lua se recolhe para dar lugar ao sol, todos os acontecimentos da noite precisam ser confrontados. No caso de Loretta e Ronny, ela se torna um rato e ele, um gato. Apesar de ser uma comédia romântica bem mais pessimista que o normal, Feitiço da Lua não deixa de preservar o caráter apaixonante de Nova Iorque, também explorado em outros filmes do gênero, de Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961), de Blake Edwards, a Harry e Sally - Feitos Um Para o Outro (When Harry Met Sally, 1989), de Rob Reiner. A série Sex and The City (1998-2004) - e o filme e a série que continua a história - também é um exemplo da cidade como catalisador para romances tão irresistíveis quanto imperfeitos.
Nesse cenário, a relação frágil entre Ronny e o irmão é contrastada pela família de Loretta. Mesmo escondendo alguns segredos, os pais dela são parte de uma comunidade unida, e esse senso de família que falta ao personagem de Nicolas Cage sobra para a nossa protagonista. O intrometimento nas decisões dela soa como preocupação de uma mãe supersticiosa que não quer ver a filha repetindo os mesmos erros (Olympia Dukakis, que interpreta a matriarca, ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante). O roteiro - também premiado pela Academia - de John Patrick Shanley coloca o peso da expectativa nas relações familiares, mas não faz essas pessoas serem carrascas. Loretta é fruto da construção social daquele ambiente carregado de culpa católica. E quer maneira mais fácil de exemplificar isso do que a cena que ela se confessa ao padre, logo após trair o noivo com Ronny? Ou o momento em que ela esbarra em duas freiras logo após comprar um vestido bonito que viu na vitrine de uma loja?
O filme de Jewison coloca o medo da morte como equivalente ao da solidão, sobretudo para os homens. Um deles chega a dizer “talvez o homem não seja completo sem uma mulher” e que “talvez eles corram atrás delas para pegar a costela de Adão de volta”. Pragmática à primeira vista, Loretta tem o sonho de amar novamente, mas não coloca isso como o centro de sua vida. Ela pode até falar da vontade de ter um pedido de casamento tradicional, com anel e noivo ajoelhado, ou de uma festa paga pelo pai (o falso pão-duro que economiza dinheiro na frente da família ao mesmo tempo em que gasta com uma amante), mas isso não impede que ela aceite as imperfeições que se colocam à sua frente. No fim das contas, é a vontade de se sentir viva de novo. Vontade essa que Ronny também compartilha, a despeito de toda a revolta que carrega. Os dois são pessoas quebradas que curam as dores um do outro porque carregam empatia. Como ele mesmo diz, eles não precisam ser perfeitos como as estrelas ou os flocos de neve. Pode não ser cura total, apenas um curativo que ajuda a ferida a cicatrizar.





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