Nos Bastidores da Notícia (1987) e o carinho que sentimos por personagens imperfeitos
Críticas GeraisRecentemente, o perfil da produtora e distribuidora A24 divulgou a lista de filmes que inspiraram a diretora e roteirista Celine Song na produção do trabalho mais recente dela, Amores Materialistas (que chega aos cinemas brasileiros em julho). Assim que vi o post, meus olhos foram direto ao primeiro filme citado é Nos Bastidores da Notícia (Broadcast News, 1987) e bateu uma vontade de reassistir ao filme de James L. Brooks. Para dizer a verdade, eu nem lembrava mais a última vez que a história de Jane, Tom e Aaron iluminou a minha TV. E quando digo iluminou, é porque é esse o efeito de um bom filme de Brooks. O respeito que ele tem pelos personagens em cena resulta em um filme que é conforto e deixa um sorriso no rosto mesmo quando as pessoas que assistimos estão se debulhando em lágrimas.
Aqui, isso ocorre principalmente com Jane, a protagonista vivida por Holly Hunter, em uma atuação indicada ao Oscar* (ela perdeu para Cher por Feitiço da Lua, filme de John Patrick Shanley sobre o qual escrevi algumas semanas atrás). Desde que a vemos criança, o que chama a atenção é uma determinação que surge como uma característica solitária que vai dar o tom de toda a história. Adulta, ela é uma espécie de menina prodígio de uma rede de TV. O sucesso, aqui, é inimigo da vida pessoal, e, em vários momentos de Jane fora das ilhas de edição, ela chora. Sozinha.
O que mais me encanta em Nos Bastidores da Notícia é que nenhum dos personagens é apresentado como um gênio incompreendido e infalível (mesmo que eles achem que o são) ou como alguém que muda magicamente com uma lição nos últimos dez minutos de projeção. O drama sobre a produtora que se vê em um triângulo amoroso com o repórter bonitão, mas sem talento nato (William Hurt) e o repórter talentoso, mas subjugado (Albert Brooks), não pede que o público tenha compaixão de nenhum dos personagens. Cada um deles tem defeitos bem latentes, e qualidades que não são jogadas como elemento redentor para a narrativa.
Voltando a Jane, é com ela que o filme encontra seus momentos mais bonitos. Holly Hunter parece ter nascido para o texto de James L. Brooks, e é uma pena que eles não tenham voltado a trabalhar juntos (a atriz chegou a ser convidada para fazer Melhor É Impossível, de 1997, mas recusou e o papel foi para Helen Hunt, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz). Chorando escondida, no quarto, ou quando alguém sai de cena, ela vira uma máquina quando está dentro da ilha de edição, capaz até de fazer com que Tom, personagem de William Hurt, aparente saber do que está falando em frente às câmeras. Jane é a garota mais inteligente dali, e isso não vem sem ser um fardo.
A honestidade é outro fator importante para que o filme dê certo. Há uma relação fácil de fazer com Rede de Intrigas (Network, 1976), de Sidney Lumet, principalmente na forma como os relacionamentos e os conchavos se dão nos bastidores. O grito de socorro do personagem de Peter Finch que ecoa por toda uma cidade, no entanto, carrega mais discussões sobre o fazer jornalístico e até onde se vai por audiência. Nos Bastidores da Notícia vai por outro caminho, ao explorar quem são aquelas pessoas que comunicam as notícias, mas também toca em algo que - infelizmente - quem é jornalista já viveu ou viu de perto, que é o famoso corte no orçamento que sempre resulta em passaralho.
Além da Jane de Holly Hunter, há que se destacar Albert Brooks como o competente Aaron, repórter que se sente passado para trás com a chegada de Tom à emissora. O personagem de Brooks é a síntese do ego frágil e da confusão que muitos fazem até hoje entre o pessoal e o profissional na hora de avaliar o desempenho de alguém no trabalho. Quando ele diz que quer ser âncora para ser mais respeitado, é como se o outro Brooks - o diretor e roteirista, no caso - colocasse um espelho para a sua audiência. Tirando Jane, todos o tratam como a pessoa que sobra ali, e como dói ver a câmera praticamente fugindo dele durante uma festa que é interrompida com uma notícia que leva Tom à bancada que era o sonho torto de Aaron. E bote torto nisso, porque, quando esse sonho finalmente se realiza, tudo precisa dar errado para que ele entenda que aquilo não é para ele. Todo mundo tem um pouco desse personagem e nem sempre é legal admitir isso, né?
Não é à toa que Nos Bastidores da Notícia virou um clássico do cinema estadunidense. Para ficar no que está mais popular atualmente na internet, já esbarrei em vídeos dos canais do Letterboxd e da Criterion Collection que mostram gente como a diretora e roteirista Gina Prince-Bythewood, as atrizes Aimee Lou Wood, Hong Chau, Cailee Spaeny e o ator Peter Sarsgaard colocando o filme entre os favoritos, por exemplo. Isso sem falar de cineastas que referenciam o filme, como a já citada Celine Song. Ao mesmo tempo em que há o sentimento de cápsula no tempo pela forma como os relacionamentos se desenrolam - efeito semelhante ao que temos quando assistimos a Feitiço da Lua -, há também uma ode às comédias estreladas por mulheres nos anos 1940, como Jejum de Amor (His Girl Friday, 1940), de Howard Hawks, e Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story, 1940), de George Cukor. As protagonistas do cinema de Brooks não são meros enfeites em cena. Elas movimentam a história e fazem com que os outros personagens orbitem ao redor delas. Quando Nos Bastidores… termina, é isso o que acontece com Aaron e Tom. A vida seguiu, as validades das mágoas expiraram, mas Jane continua atraindo os dois como um ímã.
Em breve, James L. Brooks dará fim a um hiato de 15 anos sem lançar um filme. Ella McKay parece que vai ser também sua volta a um filme que fala sobre ser uma mulher em um mundo rodeado de homens. Emma Mackey** encabeça um elenco que tem ainda Jamie L. Curtis, Ayo Edebiri, Woody Harrelson, Rebecca Hall, Kumail Nanjiani e um parceiro que a gente já conhece da obra do diretor, Albert Brooks. Fica a torcida também para vermos Jack Nicholson*** em uma participação especial tão espirituosa como a que ele faz em Nos Bastidores da Notícia. E, mais que isso, a esperança de que Ella McKay se junte ao rol das grandes protagonistas do cinema de Brooks.

*Holly Hunter venceria o Oscar poucos anos depois, em 1994, por O Piano (The Piano, 1993), de Jane Campion. Naquele mesmo ano, ela também estava indicada em atriz coadjuvante por A Firma (The Firm, 1993), de Sydney Pollack, mas perdeu na categoria para sua filha no filme de Campion, Anna Paquin. A atriz seria indicada pela quarta vez ao Oscar em 2004, por Aos Treze (Thirteen, 2003), de Catherine Hardwicke - naquele ano, a vencedora foi Renee Zellweger, por Cold Mountain (2003), de Anthony Minghella.
**Emma Mackey faz Ella McKay é um bom trava-línguas, né)
***Até o momento, a última aparição de Nicholson em um filme foi justamente sob a direção de James L. Brooks, em Como Você Sabe? (How Do You Know, 2010).
















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