O Morro dos Ventos Uivantes DARIA para um bom NOVELÃO das 23

Narrativa

Peço perdão, antes de tudo, pelas gracinhas tendenciosas no título. Tive segundas intenções sim, confesso. “Daria para”, “novelão”... “23”. Nada a ver, né? Ou melhor: tudo a ver sim! Esse tempero intrigante da ambiguidade do nosso português, fazendo a gente brincar com as palavras maliciosamente, integrado à nossa clássica teledramaturgia, sempre vendeu. E, geralmente, sempre funcionou.

 

Aquela coisa de amor e desejo reprimidos, traições, intrigas, passagens de tempo, galãs canastrões se envolvendo com protagonistas “supostamente inocentes”. Todos esses elementos são figuras carimbadas em muitas novelas por aí. Às vezes de modo mais discreto em novelas das seis e sete, às vezes mais sem vergonha às nove horas, e outras vezes mais lascivo nas novelas das onze - já que o horário permite. Podemos citar sucessos como o remake de “Gabriela” e a icônica “Verdades Secretas”.

 

E, aproveitando o tema do mês com o hype da nova releitura de Emerald Fennell para “O Morro dos Ventos Uivantes”, talvez este formato novelesco funcionaria melhor para este polêmico melodrama erótico. Até pelo fato dele ser muito inconstante (já irei externalizar mais as minhas considerações sobre o longa), dando espaço para ser elaborado com maior afinco na formatação televisiva.

Wuthering Heights' teaser trailer: Margot Robbie & Jacob Elordi lead  Emerald Fennell's gothic romance - HeyUGuys

 

Preliminares - ou primeiras impressões

 

É válido apenas comentar um pouco a minha impressão sobre esse filme. Assisti há algumas semanas, nos primeiros dias em cartaz mesmo. E, confesso, que até pensei em escrever algum texto sobre. Porém, não vou mentir. Fiquei levemente indiferente com esse novo “Wuthering Heights”. Nada nele me deu - olha aí mais uma gracinha - ‘tesão’ para escrever algo. Por mais que eu reconheça a beleza de seus figurinos, fotografia e design de produção, por mais que eu tenha gostado até de alguns simbolismos que Fennell deixa implícito (e explícitos) em alguns momentos, ao falar de desejo e sexualidade dentro do jogo com tortura, tanto física quanto psicológica. Por mais que tenha tido esses elementos pontuais que favoreceram a experiência, o saldo não foi positivo no final.

'Wuthering Heights' | Trailer #2

Além disso, nem pretendo entrar em detalhes mais obscuros e desrespeitosos com a história original do livro de Emily Brontë, nem de outras adaptações cinematográficas. Existem muitas ressalvas que poderiam ser comentadas (e que todos estamos cientes), mas o objetivo não é esse. O ponto é escrever sobre um filme que seria ‘melhor’ se fosse uma novela, certo? Esta ênfase é importante, pois foi essa necessidade de aprimorar que me impulsionou para escrever sobre esse filme.

 

Rapidinhas - ou outras impressões sobre outros filmes

 

A princípio, quando vi o tema, pensei em quatro filmes. Dois deles do mestre eterno David Lynch. No caso, “Coração Selvagem” e “Estrada Perdida”. Amo Lynch e escrever sobre suas obras é sempre um prazer (já escrevi sobre “Twin Peaks” e “Cidade dos Sonhos”), mas não tive coragem de ousar em sugerir que se esses filmes fossem novelas seriam melhores. Por mais que adoraria assistir a uma novela de um casal, no maior estilo Bonnie & Clyde, vivendo perigosamente, ou um casal entrando em um espiral de mistérios ao receber fitas com filmagens de suas intimidades dentro de casa. Embora o exercício seja atrativo, não vou me atrever a dizer que seria melhor de forma X ou Y. Ora, são dois dos meus favoritos da filmografia de Lynch. Obras intocáveis!

Wild at Heart (1990) ▷ KINO
David Lynch e o cinema-sonho (parte 4)

O terceiro longa que me veio à mente foi um dos mais emblemáticos da década de 90, “Instinto Selvagem”, de Paul Verhoeven. Acredito que muito provavelmente alguém irá fazer um artigo sobre isto. Todos os elementos gritam a novela: femme fatale, assassinato misterioso (o famoso “quem matou?”), investigação perigosa, detetive enfeitiçado pela principal suspeita, personagens secundários interessantes. Eu gostaria muito de escrever sobre esse filme, e estou torcendo para alguém concretizar isto no Desafio. O que me fez desistir dessa escolha foi o fato de que eu gosto muito desse filme. Acho magnético a forma como o mistério do thriller erótico é, gradativamente, envolvente. Daria para um bom novelão das 23 também, mas já acho um filmaço.

Basic Instinct (1992) - IMDb

 

Vamos aos finalmentes - ou Wuthering, wuthering, wuthering heights…

 

…Heathcliff, it's me, Cathy, I've come home… Apenas pense, brother, pense essa música sendo o tema da novela “O Morro dos Ventos Uivantes”, às 23 horas, na TV Globo (ou se for pensar em streaming, na HBO Max, à la “Beleza Fatal” e “Dona Beja”). E não estou falando da versão original da Kate Bush (que é maravilhosa, que fique claro!), mas a versão do Angra, com Andre Matos fazendo história com seu icônico vocal inconfundível. Aqui no Brasil, as possibilidades seriam infinitas nas adaptações no que tange à época, ambientação, personagens. Mas deixando esse curioso exercício lúdico, e pensando na essência do novo longa de 2026, a estética seria a mesma. Inclusive, a própria trilha sonora de Charlie XCX combinaria muito com a vibe de uma novela das onze, pensando naquele tom meio “Verdades Secretas”, usando também outras músicas pop, reforçando o contraste temporal.

Outro ponto importante, seria a manutenção dos figurinos anacrônicos, pegando outras inspirações adicionais em novelas como “Meu Pedacinho de Chão” e “Cordel Encantado”, ressaltando a cor vermelha ainda mais. Aliás, um dos pontos mais altos do filme de Fennell é justamente o uso do vermelho nos vestidos e cenários. Isto, estendido à uma novela em exibição por vários meses, abriria um leque enorme de centenas de vestimentas icônicas.

Wuthering Heights' adaptation swerves dangerously from its text - The Brown  Daily Herald

Agora, pensando no ponto que - na minha opinião - deixou a desejar no filme: o thriller erótico, propriamente dito. No filme, o elemento do “sensual” que se vende é, na verdade, uma desculpa para entrar em algo mais grotesco que cause “choque”. No entanto, nem isto se cumpre em sua plenitude, por mais que possa haver uma ideia (fanfiqueira) promissora no debate. Ao invés de provocar, apenas projeta aquela vontade de olhar para o relógio e torcer para o tempo passar depressa. No entanto, pensando no âmbito novela, aqui caberia bem tais ‘breguices’ envolvendo desejos sexuais e alimentos.

Wuthering Heights Movie (2026) – Margot Robbie, Jacob Elordi |Teaser Trailer

Outrossim, um dos fatores marcantes e quase sempre presentes nas novelas são as mudanças de fases. E aqui em “Wuthering Heights” temos isso. Começa com a fase inicial, onde podemos ver um pouco da infância dos nossos protagonistas, até chegar à vida adulta e seus dilemas. No filme, acabou sendo um dos maiores problemas, pois a passagem de tempo acaba sendo de uma forma extremamente truncada, no meio de sua duração. O maior erro está na montagem, feita até de forma abrupta em algumas passagens que - com muito esforço - o público vai percebendo que estão se passando alguns anos, até alguém explicitar verbalmente tal fato. Já como novela, não teria esse problema. Poderia ficar uma semana até com Heathcliff e Catherine como crianças, fazendo com que o público entenda ainda mais o nascimento de uma relação que, futuramente, seria tóxica.

First look: Wuthering Heights starring Margot Robbie & Jacob Elordi | Muddy  Stilettos

Posteriormente, depois que Catherine se casa com Edgar Linton, e Heathcliff vai embora, poderíamos ficar algumas semanas sem ver o paradeiro do personagem de Jacob Elordi. Isto traria o público para mais perto da compreensão da personagem de Margot Robbie, já que ao longo do filme não conseguimos nos apegar tanto aos protagonistas (por mais que haja uma certa repulsa pelas personalidades detestáveis dos dois, senti muita apatia justamente pela falta de substância neles - ficou com uma camada muito superficial para mim). Além disso, deixaria o impacto do retorno de Heathcliff ainda maior.

Wuthering Heights” Sidelines the Novel's Most Queer-Coded Character | Them

Ademais, em uma novela podemos explorar ainda mais os personagens secundários, como a Isabella, de Alison Oliver, e - principalmente - Nelly, de Hong Chau. São duas personagens demasiadamente complexas que mereciam maior atenção no longa de 2026. Por exemplo, a relação terrivelmente pavorosa de Isabella e Heathcliff poderia render ainda mais cenas chocantes que abalariam a digníssima família brasileira. Fennell poderia explorar com maior profundidade suas intenções ao retratar temas como submissão e fetichismo, além de só fazer um “50 tons de cinza vitoriano” vazio como foi filmado. Sem contar que, devido ao tempo estendido, ficaria melhor desenvolvido essa personalidade odiável e manipuladora de Heathcliff. Digo isto, pois no filme você até começa gostando um pouco do protagonista, até que do nada ele vira mais sádico do que obsessivo propriamente dito.

4 Reasons Why Emerald Fennell's Wuthering Heights is a film for the TikTok  Generation - Tech Advisor

Por fim, temos inúmeras possibilidades na fase final (atenção com spoilers, mas noveleiro que é noveleiro não liga para spoilers - afinal, meu amigo, houve uma época em que você ia nas bancas e diversas revistas já anunciavam o que ia acontecer nos próximos capítulos das novelas), com os últimos capítulos enfatizando a lenta morte gradual de Catherine, fazendo o público sentir o pesar da ausência e o afastamento que permeia o casal principal. Podendo, até, mudar o final se aproximando da obra original, como mantendo o nascimento de seus filhos. Porém, já que estamos nos fixando à essência da diretora, dá para manter aquele final com apenas uma mudança. Uma das coisas que me incomodaram foi uma espécie de ‘romantização’ de uma relação explícitamente tóxica. Pensando em autodestruição, a transição do casal na sua infância e sua morte acaba sendo uma boa sacada, mas a trilha não me agrada e a forma como a montagem exalta momentos de flashbacks dos protagonistas - tal qual uma edit aleatória teen de TikTok - me cansou bastante, devo admitir. Pensando bem, como uma novela, talvez o edit brega possa funcionar, quem sabe.

In Defense of Wuthering Heights 2026 Trailer - The Phoenix

Em conclusão, pensei em “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026), pois acredito que funcionaria bem mais no formato de uma novela. Não foi um filme que gostei ou que saí satisfeito, mas não condeno 100% a intenção de Emerald Fennell, e sim sua abordagem. Não aproveitar Margot Robbie e Jacob Elordi na sensualidade e dramaticidade, e abusar da sexualidade exacerbada de choque foi um dos fatores que mais me incomodaram. E em uma novela tenho a certeza que isso seria aproveitado ao máximo, até pensando nas limitações de possíveis censuras, levando o criador à elevar suas ideias criativas para burlar as restrições. Portanto sim, o novo “Wuthering Heights” seria uma ótima novela das onze.

WUTHERING HEIGHTS (2026): New Trailer Starring Margot Robbie, Jacob Elordi,  Shazad Latif… | The Movie My Life

Comentários 2

B
Brie Moreno27 de julho de 2026
Também n gostei mt do filme, acho que seria bem mais interessante uma novela kkkkk ri bastante nos trocadilhos do texto
L
Luisa C Moreno4 de março de 2026
Wuthering heigths (Cumbres borrascosas en español) ha tenido varias versiones de telenovela en México y Venezuela..

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