Quem matou Laura Palmer foi........ a ansiedade?

Críticas Gerais

O agente especial Dale Cooper desperta, após uma tão esperada epifania, dentre tantas dúvidas originadas a partir do Black Lodge, e liga para o xerife Truman tarde da noite, relatando: “Harry, eu sei quem matou Laura Palmer”. Porém, se não tiver estilo não é Cooper, então, nosso agente do FBI combina de revelar o tenebroso segredo para o xerife na manhã seguinte. Depois de degustar um saborosíssimo e reforçado café no Hotel Great Northern, enquanto Truman espera, ansiosamente, Cooper responde, enfim, a pergunta de um milhão de reais sobre quem matou Laura Palmer: “Eu não me lembro”.

Antes de continuar, esse título é quase um clickbait, pois não vou explorar profundamente os aspectos psicológicos escondidos dentro da mística de “Twin Peaks”, e também não quero estragar a experiência com spoilers. Neste texto, não irei revelar quem matou Laura Palmer. Até porque o cerne da discussão não é sobre quem, mas sim sobre a busca pela resposta. Sobre nós, como espectadores. Se você ainda não assistiu a “Twin Peaks”, está tranquilo! Vou tentar não ficar divagando muito sobre a série em si, mas sim acrescentar alguns pontos de vista, dentro da expectativa casual juntamente com as interpretações infinitas à respeito da filmografia de David Lynch. Agora, se você assistiu, é um ponto a mais para refletirmos sobre o mal do novo século: a ansiedade.

 

A busca do desconhecido

 

Certa vez, há uns bons anos já, estava assistindo a um concerto do músico brasileiro Rodrigo Amarante - pela TV mesmo, em algum festival - e um número em especial me chamou bastante atenção. A música em questão era um cover de Jorge Ben, “Errare humanum est” do clássico álbum “Tábua de Esmeralda”, de 1974. Antes de dar início à performance, Amarante reflete sobre seu entendimento a respeito da composição, reconhecendo sobre o significado por trás do dizer “errar é humano” quando alguém comete um erro, um deslize, e falamos isso para aceitar que é natural do ser humano errar, ninguém é perfeito. De fato! No entanto, o músico menciona que o “errar” aqui está mais relacionado ao “errante”, ao desconhecido, à busca pelo desconhecido. Erro no sentido de caminho, percurso, sorte. O desconhecido durante a jornada interessa mais do que o destino ao final… ou a resposta. Muitas vezes, a pergunta acaba sendo mais reveladora do que a resposta. Portanto, ir ao desconhecido é humano. A busca por trás do mistério é humano. A partir deste ponto, sempre reflito sobre como o mistério nos atrai, como isso é característica forte das nossas personalidades, como ser humano. Por mais que haja atração na zona de conforto, tudo aquilo que é incomum e desperta, minimamente, uma curiosidade, acaba chamando a atenção. E nada mais “humano” do que o mistério lynchiano. Parece estranho, dado o surrealismo e onirismo que permeiam a obra do saudoso diretor. Mas a graça está aí, no “não entendimento”, na dúvida, nas interpretações. Afinal, nós humanos não somos nem um pouco óbvios, então por que os filmes de Lynch precisam ser?

 

Mistério e sugestão

 

O mistério por trás das obras costuma engajar o público. Principalmente essa premissa de “quem matou não sei quem?”. O exemplo brasileiro mais emblemático é o da novela “Vale Tudo”, de 1988, que agora está tendo seu remake após mais de 30 anos, com a pergunta “Quem matou Odete Roitman?”. Por muitas vezes, as pessoas que viveram essa época, hoje em dia talvez nem se lembrem de quem foi a autoria do assassinato da personagem, mas o que ficou na memória foi o sentimento por trás disso, o quanto o público estava envolvido com o mistério. Esses mistérios funcionam bastante no formato seriado de televisão. Conforme os episódios e os arcos vão se estendendo, o público começa a criar suas teorias e, assim, toda uma base de fãs acaba se consolidando. Normalmente, essas narrativas podem ser o ponto central da trama, ou apenas um arco específico de uma temporada. O que importa é que esse mistério gere uma discussão com toda a comunidade.

 

No cinema, existem vários exemplos dessas narrativas envolvendo algum mistério, não necessariamente sendo o ponto principal da trama, mas atuando apenas como um plot twist, por exemplo. A diferença é que nos filmes não se tem toda a duração de uma série. Portanto, a ansiedade acaba sendo um pouco mais “controlada” (entre muitas aspas, pois isso depende muito da obra e do carinho que se tem com ela). São inúmeras obras que focam nessa premissa do investigador analisando um crime, tentando desvendar o mistério do assassinato. “Assassinato do Expresso do Oriente”, “Knives Out”, “Zodíaco”, entre muitos outros. Além do âmbito detetive, existem os mistérios que ficam sugeridos (que é os que acabam me atraindo mais), como em “Seven”, onde não visualizamos o que tem na caixa, naquela cena no final do filme, mas entendemos o que há ali; ou em “O Bebê de Rosemary”, onde sabemos quem de fato é este bebê, mas nunca é mostrado o seu rosto; ou em “A Origem”, onde na última cena há espaço para interpretações se aquilo é sonho ou realidade. David Lynch já brincou com isso inúmeras vezes. Até hoje, mesmo revendo várias vezes, “Mulholland Drive” sempre será intrigante e aberto à múltiplas interpretações. Parte de toda a graça em suas obras, é o toque firme na autoralidade (o termo “lynchiano” já remete à diversas características muito próprias de suas obras). E boa parte disto se deve ao controle do autor com sua obra. O problema é quando há interferências externas. E é aí que se entra a tal “ansiedade” do título. Quem matou Laura Palmer foi a ansiedade dos produtores em responder essa pergunta logo.

 

Dentro dos limites de Twin Peaks, fora dos de Lynch

Primeiramente, um aviso: não estou aqui para falar mal de “Twin Peaks” (que fique claro! -  apenas vou citar alguns pontos negativos). De todas as obras de David Lynch, “Twin Peaks” como um todo é minha favorita (as duas temporadas, o The Return, o filme “Fire Walk With Me”, até o “The Missing Pieces”). Aliás, sou um grande fã do diretor e pretendo, um dia, comentar sobre seus outros filmes, principalmente sobre dois que sou apaixonado: “The Straight Story” e “Wild At Heart”. Voltando à “Twin Peaks”, realmente não vou negar, essa série ficou na minha cabeça de modo avassalador. Criada por David Lynch e Mark Frost, “Twin Peaks” foi uma série exibida entre 1990 e 1991, tornando-se um fenômeno cultural instantâneo, consagrando-se ao longo dos anos como uma das melhores séries de todos os tempos. Mesmo adquirindo uma base de fãs apaixonados, a série não conseguiu ficar ilesa, passando por algumas dificuldades que levaram ao seu cancelamento. Creio que seja um consenso que no meio da segunda temporada, quando se é revelado a autoria do assassinato de Laura Palmer, a trama restante acabou ficando um pouco perdida. Isto é, a alma de “Twin Peaks” sempre foi o mistério em torno de Laura, quem foi ela, como ela vivia na cidade, seus relacionamentos. A partir do momento em que esse mistério é resolvido - por mais que se abre um leque a ser explorado no passado (aí que entra “Fire Walk With Me”) - o engajamento acaba sendo perdido e, consequentemente, a ansiedade acaba.

O grande trunfo da série é que os personagens são muito cativantes. O próprio agente Dale Cooper, vivido magistralmente por Kyle Maclachland, é hipnotizante. Suas falas, seus trejeitos, suas viagens e apreço ao paranormal, tudo é encantador. Fora a sua amizade com o xerife Truman, ao lado de sua equipe com Andy, Hawk e Lucy. Além disso, tinha as maravilhosas aparições esporádicas do agente Albert Rosenfield e do diretor Gordon Cole (interpretado divinamente pelo próprio Lynch). Um adendo aqui para comentar o fato de que todas as cenas em que Gordon aparece são engraçadas, não só nas duas primeiras temporadas, mas no retorno na terceira, principalmente, é fantástico! É muito gostoso assistir Lynch se divertindo interpretando esse personagem. Além do núcleo investigativo, temos os moradores da cidade. O romance nunca vivido em sua plenitude de Norma e Ed, a relação conturbada e jornada de maturidade entre Shelly e Bobby, o vazio de Donna e James lidando com o luto, a excentricidade da misteriosa Log Lady, as falcatruas divertidas de Benjamin Horne, e as (melhores) subtramas envolventes da inquieta Audrey Horne. Isso sem falar de toda a mística envolvendo o Black Lodge, o anão que fala ao contrário, as aparições do gigante, o que é aquele lugar, aquela cortina vermelha, para onde isso leva. É, de fato, um universo lynchiano inteiro muito apaixonante a ser explorado.

Porém, analisando os bastidores, podemos ver que houve muita pressão externa. Os produtores executivos da ABC, diferente de Lynch e Frost, não queriam que o mistério do assassinato de Palmer se estendesse muito. Na verdade, os criadores nem pretendiam necessariamente resolver o mistério (pelo menos, não tão rápido). A premissa do assassinato tinha como função, basicamente, explorar tudo que há de obscuro na cidade de Twin Peaks. Porém, temendo a perda do envolvimento do público com a trama, a emissora pressionou para que o mistério se resolvesse já na segunda temporada.

 

A primeira temporada contou com 8 excelentes episódios, sem exceção. Já a segunda, contou com 22, sendo que o mistério do assassinato foi revelado no sétimo. É claro que a revelação da autoria (e o que vinha por trás disso) desencadeou novas discussões e visões sobre alguns personagens, mas isso acabou funcionando mais no filme prequel “Fire Walk With Me”. Já na série, quase nada se sustentou por si só. As tramas secundárias foram muito fracas, fazendo o público não se interessar (acontecendo o efeito inverso que os produtores queriam), caindo a audiência. Um dos grandes afetados foi o personagem James, que - meio que literalmente até - foi escanteado da série, deslocando-se sem rumo para fora da cidade e se envolvendo com uma mulher misteriosa. Outra sub-trama irrelevante foi a de Nadine “voltar a ser adolescente”, gerando interações incômodas (na intenção de ser divertido) entre Ed e Norma. Sem contar nos últimos episódios, com as adições de pares românticos, sem carisma, para Lucy e Audrey. Além disso, teve a integração de um novo e último vilão, o Windom Earle. Muitos fãs gostaram de Earle e sua história prévia com Cooper. Particularmente, não acho uma ideia ruim, mas creio que não atingiu seu potencial pleno (tirando no season finale, do qual já comento). No entanto, nem tudo foi perdido. Uma das adições foi a de Annie, novo interesse romântico de Cooper. Creio que, de todas as mudanças da ‘finaleira’ de “Twin Peaks”, a personagem de Annie é a mais interessante, devido ao drama e às breves conexões com Laura Palmer (estendendo-se para o filme), proporcionando um outro lado de Cooper.

Por fim, somado à pressão dos executivos, temos a ausência de Lynch em boa parte da temporada. Mesmo com Frost ainda participando de perto, a série acabou perdendo sua identidade e originalidade excêntrica, pois seu principal idealizador estava envolvido com outros projetos (como o próprio “Wild At Heart”), fazendo com que ele só retornasse na direção do último episódio, o grande season finale. O melhor episódio da segunda temporada, de longe. Toda a mística por trás da série, principalmente as cenas dentro do Black Lodge acabam nos emocionando, nos confundindo, criando sensações oníricas e lúdicas, acumulando dúvidas do que ainda está por vir. Porém, não veio! Pelo menos, até 25 anos depois (como Laura profetizou). A última cena deste episódio é tão perturbadora, criando um cliffhanger nítido, pronto para se desenvolver em uma terceira temporada. Porém, a ansiedade dos executivos acabou decretando o fim de “Twin Peaks”, antes mesmo da exibição dos últimos episódios. De certa forma, pensando em uma obra de Lynch, até que fazia sentido esse final. Porém, veio a terceira temporada, e o diretor (agora dirigindo todos os episódios, com controle absoluto da obra) nos mostra que pode ficar ainda mais enigmático e confuso, deixando o novo final ainda mais em aberto.

 

O legado, apesar de tudo

Podemos concluir que, mesmo em meio a um “fim” blasé e agridoce nos bastidores, “Twin Peaks” se consolidou desde seu início como um marco da TV, revolucionando a forma das narrativas em seriados, dando um ar mais cinematográfico à obra. Mesmo que após a revelação de seu grande mistério, a série tenha se tornando convencional demais, sua personalidade e base sólida de fãs ainda a manteve no topo para ser sempre lembrada como um divisor de águas na história do Cinema e da Televisão, sacramentando todos seus elementos como ícones da cultura pop.

 

É fato que a ansiedade, não só em “Twin Peaks”, mas em todas as obras acaba afetando a experiência. Tudo tem seu tempo. Bons contadores de história conseguem manter o interesse do público. Lynch já tinha sua base de fãs na época consolidada, e já havia produzido obras peculiares que conquistaram seu público à sua maneira. O erro dos executivos foi ter levado essa aflição e ânsia de uma estimativa à sério demais, subestimando seu público. Muitas vezes - lê-se sempre - a jornada é muito mais interessante do que o destino. A busca pelo desconhecido, o mistério, a tentativa de olhar por trás do véu sem retirá-lo, tudo isto está intrinsecamente ligado à nossa natureza humana. O mistério nos atrai, e fica ainda mais interessante nas obras artísticas que amamos consumir, seja no Cinema, na TV, na Literatura ou na Pintura. Mesmo com todos os contras, os prós se sobressaem. “Twin Peaks” é maravilhosa e merece sempre ser (re)visitada e lembrada como uma das maiores obras criadas por David Lynch.

Lynch nos deixou no começo desse ano, e a melhor forma de homenageá-lo e perpetuar sua obra é assistir à sua linda e maravilhosa filmografia, muitas e muitas vezes, interpretando de maneiras diferentes todas essas histórias. Pois não há mistérios mais intrigantes como os lynchianos e sua eterna busca humana ao desconhecido. Sem pressa, sem angústia, sem aflição, sem ansiedade, assim como a maneira em que Lynch comentava sobre a meteorologia e outros assuntos naqueles vídeos diários dele, falando daquele seu jeitinho particular, pausado, aproveitando e vivendo cada momento, em sua plenitude. 

 

Para sempre nos sonhos, David Lynch (1946-2025)

Comentários 2

B
Brie Moreno12 de outubro de 2025
👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
P
Pagd180625 de setembro de 2025
Belo texto! Comecei a assistir a filmografia do Lynch comente esse ano, mas estou curtindo demais, agora estou na 2a temporada de Twin Peaks e curtindo bastante!

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