#09 - Pobres Criaturas, Se o Autodescobrimento Fosse pra Valer
Críticas GeraisPor mais que possamos discordar, existem regras do convívio social que estruturam a nossa sociedade como a conhecemos, através delas acordos tácitos do dia a dia não precisam ser verbalizados, é bem verdade que são muitos, às vezes exagerados e majoritariamente um saco, mas como raça é o melhor que pudermos fazer, assim é a crença vigente, mas não para Bella.

Texto Acidamente Inocente
Pobres Criaturas é uma releitura de “Frankenstein", o Prometeu Moderno de Mary Shelley que aborda sobre o indivíduo de Bella Baxter, um experimento do doutor God (Godwin Baxter). O médico conseguiu criar sua vida em laboratório, removendo seu cérebro e trocando por o de uma bebê, logo Bella passa por todas as fases da descoberta de uma vida, porém nem todos a sua volta sabem que a “pobre Bella” é uma criança no corpo de uma adulta, conhecendo em primeira mão todas as doçuras, prazeres e crueldades do mundo.
O roteiro é ácido e temperado com pitadas de humor, contrastando a inocência de Bella com as convenções frias e broxantes da sociedade e as crueldades da humanidade, um texto que te faz rir pela inocência e ingenuidade, mas conforme o crescimento da sua protagonista vai se tornando mais e mais tons reflexivos e coloridos pelas novas descobertas, um agridoce bem divertido.

Construção Crescente de Emoções
O primeiro arco é todo em preto e branco, com planos fechados sempre refletindo o estado de espírito da protagonista, passando a ser colorido apenas após sua primeira relação sexual, uma metáfora linda que se dá de um jeito engraçado pelo roteiro perspicaz do Tony Mcnamara e Alasdair Gray.
As cores também se encontram nas roupas dos personagens, com figurinos frios e quentes reforçando seus sentimentos em determinadas cenas, cores sóbrias e sólidas representam coisas como, cinismo, tristeza, hipocrisia, uma vida sofrida, ao passo que as cores mais alegres e lúdicas aludem à descobrimento, diversão e prazer, óbvio, tudo conduzido pelas mãos e pensadopelo cérebro do diretor Yorgos Lanthimos.

“Amadurecimento” da Personagem
As câmeras não se furtam de nos presentear com a perspectiva da Bella em determinadas situações, usando uma grande angular como se fosse a “Bella Vision” de determinada situação, bem como nos apresentar um mundo alegre e lúgubre em questão de segundos, com seus plongées e contra plongées, sem falar dos cenários em CGI que enriquecem a anedota narrativa e fantasiosa de puro autodescobrimento e imprevisibilidade de Bella.
Sobre a atuação, todas as palmas para Emma Stone ainda seriam poucas, a atriz se destaca fora da sua zona de conforto em várias composições, se cobrindo da ingenuidade de seu personagem e florescendo com a força de uma mulher empoderada com domínio e conhecimento sobre seu corpo, inteligência e ambições, é um privilégio acompanhar essa jornada de perto e com total sinceridade e entrega.

Casting Vívido
Outros destaques célebres do longa são o Mark Ruffalo e o Willem Dafoe, que atuam como mentores até certo ponto para a protagonista lidando com sua espontaneidade, um mais paternal e outro mais como parceiro temporário de jornada, não são seus trabalhos mais desafiadores, mas com a ajuda do texto conseguem entregar algo coerente, positivo e decente!
Existe ainda outro ator, Ramy Youssef, com bastante tempo de tela, ele não tem muito carisma e passa a impressão de uma atuação mais automática e reativa, acaba confundindo-se um pouco com seu personagem.

Pobre Criaturas é quase um manifesto contra uma sociedade opulenta e despropositada em seus “bons costumes” e malfadadas práticas de “boas maneiras”, questionando o que fazemos e porque fazemos se nos entristece, apesar de produzir um potencial hedonista, ainda possui um valor absoluto de autoconhecimento e autodescobrimento sincero, genuíno e empoderador, nos mostrando que como humanos ainda não estamos fazendo nosso melhor para uma existência compartilhada mais sincera e virtuosa.





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