#08 - Frankenstein - 1931 (Brincando de Deus)
Críticas GeraisUm clássico pode ser consagrado de forma justa, pela qualidade da obra e seu valor na história do cinema, ou de maneira injusta, quando é algo já visto e executado de forma melhor anteriormente, nesses sentidos, Frankenstein de 1931 é um filme clássico, mas injusto por causa do seu protagonista e no melhor dos sentido.

Um Clássico Sendo um Clássico
Henry Frankenstein é um médico legista renomado, genial e um tanto excêntrico, às vésperas de casar com sua esposa, Elizabeth, ele e seu assistente procuram partes de corpos para poder realizar a experiência que desafiaria os limites da ciência, criando vida apenas de partes mortas, o restante da obra lida com as consequências da experiência e com seu fruto, o Monstro.
O texto do John L. Balderston tem linhas muito boas, como o inesquecível: "It’s alive, It’s alive, oh my God now I known how I’ll be god”, mas no geral ele é operante sem dar muito com o que os demais personagens possam trabalhar, eu sei que se trata de um filme de época, mas o lirismo quase shakesperiano engessa os personagens fazendo com que o melhor do texto sejam as partes sem fala, com o Monstro e a contemplação de sua ação no mundo.

Uma “Montagem” Bem “Costurada”
A direção consegue pérolas situacionais, como a cena do aldeão trazendo a filha morta nos braços pela vila, mesmo sendo um filme em preto e branco o controle sobre a luz e o elenco de apoio é palpável e virtuoso, mérito do James Whale, o mesmo não pode ser dito tão aprofundadamente ao elenco principal, mas eu vou chegar lá.
As locações são iconográficas e clássicas desde a literatura, o penhasco, o moinho, o lago e por elas você pode acompanhar a história e vê-la evoluindo o pretenso protagonista do filme, a direção se vale de alguns planos amplos para dimensionar a tensão da perseguição por exemplo, ou o tamanho do laboratório(dando a entender que o espaço ampliado será palco de algo grandioso, a criação do Monstro no caso), bem como um mise en scène (distribuição de objetos e personagens na cena) estreito, íntimo e simbólico.

Inocência Revivida
O primeiro ato do filme é o doutor Henry Frankenstein e a segunda metade é o Monstro, o resto é adereço, personagens que precisavam ser escritos devido à história proposta, mas sem muita composição, parece que tudo que eles possuíam eram duas orientações do diretor: “Você é “x” e faz “y”” algo quase bidimensional, não atrapalha todo filme, mas dá uma engasgada durante o longa.
Frankenstein é um clássico injustiçado por causa de seu protagonista, o filme possui o nome por causa do médico, não pelo Monstro, que é chamado de aberração, coisa, criatura, mas nunca com um nome, sempre julgado e incompreendido pela sociedade.

Apesar de seus crimes, o monstro de Frankenstein era mais inocente e ingênuo que agressivo, nasce sem querer, vive de traumas e torturas da sociedade e é assassinado sem ser passível de qualquer mal ato que tenha cometido, se em vida o cérebro da criatura era de uma psicopata, em sua “revida” ele não era muito diferente de cada um de nós que buscamos alguém para nos reconhecer e brincar.




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