Frankenstein-A Filosofia, A Ficção e as IAs

Clássico da cultura de terror e ficção moderna, a criatura de Frankenstein é um dos mais jovens “Monstros da Universal” compilando em si humanidades e reflexões inspiradas desde a Grécia antiga, levantando questões pertinentes e filosóficas até hoje sobre a vida, individualidade e autonomia sobre a criação de inteligência independente.

VICTOR FRANKENSTEIN | Blogadilsoncinema

Tudo começa em Genebra, Suíça, onde Lord Byron, um dos nomes mais importantes do romantismo, propõe um desafio literário a seus amigos que estão passando a semana com ele naquele frio verão de 1816. 

Certa noite, o escritor propôs um concurso onde todos deveriam escrever uma história de terror e contá-la aos demais para pudessem avaliar qual era a mais assustadora. Dessa “aposta” surgiram incríveis títulos como “The Vampyre de John Polidori”, inspiração para o “Drácula”, “Manfredo” do próprio Byron, e obviamente “Frankenstein ou Prometeu Moderno” por Mary Shelley.

Mary Shelley – Wikipédia, a enciclopédia livre

Mary era uma moça liberal de pensamento humanista e plural, filha de um político expressivo (William Godwin) e de uma das pioneiras do movimento feminista (Mary Wollstonecraft). Órfã, muito cedo, Mary se refugiou nos livros e nos braços do poeta Percy B. Shelley para se afastar da madrasta a qualquer custo, isso incluía passeios pelo cemitério onde sua mãe estava enterrada.

Com pensamento à frente de sua época, o casal Shelley era severamente progressista, sendo adeptos de um relacionamento aberto, inteirados dos avanços científicos e da revolução industrial do qual eram contemporâneos!

Shelley em sua obra traz o conceito de “criatura e criador”, principalmente pelo mito do titã Prometeu, que engana Zeus para trazer “o fogo” a raça que havia moldado, os seres humanos. 

O presente de Prometeu - Galembetech

No livro, ela conta a história de Victor Frankenstein, um médico cientista indignado com o fato da morte e disposto em seus estudos a descobrir como burlar essa lei da natureza. Por fim, Victor encontra um componente inovador para trazer vida a sua criatura, mas imediatamente o rejeita, a partir daí “Aquilo” busca pela individualidade humana, mesmo ciente de ser um “algo” sintético.

Essa fundamentação de mundo e personagem, confere a Shelley o título merecido como “a mãe da ficção científica”, fora o terror romântico da época, a autora resgata um pensamento filosófico fundamental. 

Sobre o criador: quais os limites para se quebrar os códigos da natureza? Suas consequências? O homem ambiciona ser Deus? E que aberrações nascem a partir desse orgulho? 

Frankenstein's Monster (Frankenstein) | by Ev Ganin

Sobre a criatura: o que sou? O que posso ser? Qual o meu propósito?

Em suma, a definição de existência, individualidade e essência humanas são questões que permeiam o livro e o personagem em suas variadas ramificações pela cultura! Mais recentemente, e de forma irônica, esse debate foi ressuscitado na re-ilustração do mesmo livro.

Recentemente, a mais ou menos 4 anos, o designer Vicente Pessôa foi responsável por ilustrar mais uma tiragem do livro “Frankenstein ou Prometeu Moderno” de Mary Shelley, pelo “Clube de Literatura Clássica”, com um detalhe polêmico para a época, o recurso usado pelo profissional foi totalmente sintético, todas as 50 ilustrações presentes no livro foram feitas por uma IA.

Prêmio Jabuti desclassifica edição de 'Frankenstein' ilustrada por  inteligência artificial

O livro foi inscrito para concorrer ao prêmio Jabuti na categoria de ilustração sem notificar (formalmente) aos jurados que se tratava de uma criação híbrida, por mais que o livro se vendesse como “o primeiro livro ilustrado integralmente por IA” e constar a autoria da ferramenta usada na contracapa da obra. Isso movimentou vários debates pertinentes sobre o valor da perspectiva e individualidade humana no âmbito criativo. 

O livro se classificou como um dos finalistas, mas a polêmica se tornou tão profunda que foi necessário um dos jurados, André Dahmer, vir a público explicar como se deu a classificação e a seleção dos finalistas.  Aconselho a leitura na íntegra da declaração do jurado, porém ele havia ressaltado a clareza com que os artistas haviam deixado a autoria da ferramenta no próprio livro, que não houve nenhum traço de “má-fé” por nenhuma das partes, principalmente dos artistas.

“Vamos aguardar a decisão dos organizadores. Para as torcidas contra e a favor, peço que debatam com serenidade aqui nos comentários. É uma discussão importante e muito pertinente para acabar em insultos. Um abraço para todos vocês.”

Tweet de André Dahmer.

A agremiação do prêmio se reuniu posteriormente desclassificando a obra. Conforme a própria CBL(Câmara Brasileira do Livro), o motivo foi justamente o uso de uma inteligência artificial.

Prêmio Jabuti retira indicação de ilustrador pelo uso de Inteligência  Artificial | Dasartes

Voltando a literatura, Isaac Asimov, de forma semelhante a Mary, trabalhou com ficção de seres sintéticos vindos da mão do homem para assistência e aumento de vida do ser humano em seu bem-estar, em “Eu, Robô” o autor estabelece três leis inquebráveis da robótica que, “teoricamente” implicariam na preservação do criador.

Diferente de Shelley, e da realidade, não há como fazer mais do que especular sobre o universo, com o avanço hiper acelerado das inteligências artificiais e generativas. 

O que podemos dizer é se um dia houve um deus para ser morto por suas criaturas, hoje, assim como trazem a ficção de Shelley e Asimov, estamos começando a experimentar como ele se sentiu, esse é o verdadeiro terror do monstro assustador que o futuro pode nos reservar!

Como você faz uso e reflete sobre a responsabilidade da IA na sua criação (seja ela no trabalho ou artística)?

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