Black Rabbit, The Strokes & o caos nova-iorquino
Críticas GeraisA maior graça dos streamings não está naquela lista dos mais vistos da semana, ou daquelas séries que demoram anos para novas temporadas e criam um hype absurdo por trás disso. A graça está em fazermos a nossa própria watchlist, e em um momento oportuno qualquer tiramos alguns filmes e séries dessa fila ininterrupta. São nestes casos, quando estamos fazendo aquela boa zapeada na plataforma, que nos deparamos com algumas pérolas escondidas. No meu caso, havia uma minissérie da Netflix que estreou ano passado, da qual eu não sabia quase nada sobre. Apenas que era estrelada por Jason Bateman (eu adoro o Jason Bateman - saudades de “Arrested Development”), e com música composta originalmente pelo guitarrista dos Strokes, Albert Hammond Jr., da qual é uma das minhas bandas favoritas. Parecia um combo muito interessante, porém posterguei demais, e acabei assistindo “Black Rabbit” apenas no começo de 2026. E me surpreendi gradativamente. Eu e minha namorada maratonamos tudo em uma tarde/noite. Que minissérie incrível!
Lançada em setembro de 2025, pela Netflix, “Black Rabbit” mergulha em uma fase caótica na vida de dois irmãos, Vince (Bateman) e Jake (Jude Law), à medida que um efeito dominó no submundo do crime os afunda cada vez mais. No passado, os irmãos - juntamente de outros amigos - tiveram a ideia de montar um bar/restaurante/pub, no centro de Nova York, o ‘Black Rabbit’. Com o passar do tempo, Vince foi desligado da sociedade, saindo completamente da vida de seu irmão. Anos se passaram, e o ‘Rabbit’ está cada vez mais presente na cultura alternativa da cidade, sendo frequentado até por pessoas famosas da mídia. Neste contexto, Vince retorna à cidade precisando de dinheiro e moradia, fazendo com que o reencontro com seu irmão seja inevitável. O problema está no fato de Vince estar devendo muito dinheiro para alguns agiotas, levando a dupla em um espiral de acontecimentos que os levarão ao seu destino final iminente. Em paralelo, descobrimos que Vince não é o único que se encontra em uma sinuca de bico. Ao longo dos episódios, vamos conhecendo ainda mais sobre Jake e sua complexidade de seus planos ambiciosos. A partir disso, “Black Rabbit” decola para inúmeros caminhos.

O grande destaque, sem dúvidas, está na performance dos dois atores principais. Jude Law e Jason Bateman apresentam uma sinergia incrível, gerando diversas camadas obscuras por baixo da figura de dois homens, com seus 50 e poucos anos, que se encontram totalmente perdidos na vida, tentando preencher os espaços que seus traumas do passado deixaram. Law, inclusive, recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de 2026 como melhor ator em minissérie. Além disso, todos os episódios são cheios de personalidade, alguns seguindo o padrão clássico de flashbacks que nos dão um background ainda maior sobre esses personagens que estamos acompanhando, outros se destacando pelos diversos pontos de vista apresentados como no episódio 6 (intitulado “Attaf**kinboy”) - o melhor da série.

Outro ponto a ser ressaltado é a fotografia da série, dando um toque ainda mais urbano na selva de concreto de Nova York, contrastando a noite com sua balada hipster e as perseguições entre gangsters nos becos escuros. Ademais, temos direções magistrais de Benjamin Semanoff, Justin Kurzel, Laura Linney (Ozark, O Show de Truman) e do próprio Jason Bateman nos primeiros episódios. Aliás, aqui temos um Bateman bastante visceral e diferente do que estamos habituados a ver. Nota-se que o ator está totalmente entregue ao projeto, e seu personagem pede isso. Vince é um personagem totalmente cinza, abandonou sua filha, é um ex-viciado em drogas, faz apostas em jogos que não consegue pagar, toma inúmeras atitudes inconsequentes e sabe disso. No entanto, encontra-se em um furacão cuja saída se torna impossível conforme novas dívidas começam a aparecer. Isto é, é como se estivéssemos assistindo ao “Joias Brutas” estendido. Só que no lugar do Adam Sandler, temos Bateman e Law tentando encontrar saídas no meio de uma relação totalmente ferida. E é na confidência da fraternidade que temos um grande condutor para a trama.

Há inúmeras complexidades em uma relação de irmãos, falei um pouco disto em um texto recente, no Peliplat, traçando um paralelo entre o especial de Natal do Jonas Brothers e outro drama da Netflix, “As Três Filhas”, de Azazel Jacobs. Dentre tantas feridas abertas e cicatrizes, existe a confidência. Um traço forte entre irmãos. Você poder contar com seu irmão para tudo, independente se você está certo ou não. Poder ser verdadeiro e não precisar se esconder com uma máscara social, pois vieram do mesmo lugar, estão conectados eternamente de um modo totalmente transcendental. E, aqui, temos uma relação extremamente tóxica entre Vince e Jake, quase como se fosse uma co-dependência. Ambos sabem que um faz mal ao outro, em contrapartida que um salva ao outro. Em altos e baixos, por mais distantes que estejam, há um ímã universal que os conecta novamente.

Outrossim, “Black Rabbit” vai além dos irmãos. Os núcleos secundários da obra agregam de modo totalmente eficaz à trama. Destaque para a sócia e principal chef do bar Roxie, vivida por Amaka Okafor, e o bandido Junior, interpretado por Forrest Weber. Este último acaba sendo o alívio cômico da série por boa parte do tempo até se desenrolar em um arco extremamente hipnotizante. Todos os outros personagens apresentam sub-tramas que debatem temas pertinentes como abuso sexual, encobrimento de crime, abandono parental e abuso de substâncias químicas, dando elementos fundamentais para nos conectarmos cada vez mais nessa grande teia de acontecimentos. Até o próprio Hammond Jr. faz uma participação especial aqui.

Por fim, o último episódio se inicia com “You Only Live Once”, do The Strokes, ao fundo, revelando um último flashback para o público: o momento em que a ideia do bar nasce. Podemos ver jovens adultos sonhadores, tentando buscar o seu caminho, arriscando-se e levando a sério o mantra YOLO. Porém, à esta altura do campeonato já sabemos o fim disso. O desenrolar de tudo. De fato, só vivemos uma vez e isso nos dá uma margem pequena para erros. Mas o que é a vida sem os erros? Errar sempre foi o papel daquele que busca. E Vince e Jake sempre buscaram por algo. Algo que parece nunca chegar. A metáfora disto está na sub-trama do The Pool, que é um outro bar do qual Jake manifesta seu interesse em adquiri-lo durante toda a série. Mesmo já tendo o Rabbit, havia um vazio em Jake. Talvez deixado pelo seu irmão, ou pela perda de sua mãe, ou pelo passado obscuro de seu pai. Para além do pensamento empreendedor, há a discussão da insatisfação do ser humano. Nunca nos sentimos completos, ainda mais quando perdemos alguém que sempre fomos conectados, como um irmão. A série, ainda, adota com muito realismo a deterioração das relações familiares conforme o tempo. É de conhecimento o desgaste, e é inevitável a falha ao tentar reparar o passado. A frustração aqui serve como o grande impulso dos protagonistas. Até que caímos ao derradeiro fim.

“Black Rabbit” é uma das maiores surpresas recentes da Netflix e merecia muito mais reconhecimento do que teve. Perdão ao trocadilho com o longa dos irmãos Safdie, mas esta minissérie é uma joia bruta escondida da maior plataforma de streaming. Merece o play e uma boa maratona. Tocou-me profundamente, principalmente pelo seu final. Apesar dos fins, dos encerramentos que nós mesmos escolhemos, existem os recomeços, do zero. Nós vivemos somente uma vez, mas há tantas versões a serem exploradas, que podem nos dar uma sensação de que vivemos inúmeras vezes. Por mais falsa que seja essa afirmação literal, é a mais pura verdade quando nos permitimos entrar nessa toca do coelho enigmática que é a nossa vida.










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