Um Natal Bem Jonas Brothers é muito mais profundo do que parece
Aspectos SocioculturaisDezembro chegou, e com ele novos lançamentos de Natal estão a pipocar nos streamings. Dentre os mais recentes, temos o retorno do trio de irmãos queridinhos da Disney com “Um Natal Bem Jonas Brothers”, disponível no Disney+.
Confesso que não sabia muito sobre o lançamento deste filme. Na realidade, nem estava nos meus planos assisti-lo. Porém, estamos na época dos filmes natalinos, e foi assim que este entrou na fila (lê-se: minha namorada propôs… aceitei, devidamente). Portanto, acabei me surpreendendo com determinados pontos que a história escolheu seguir. Pontos estes que acabam explorando fases da vida das quais dialogam muito bem com o seu público.

Isto é, as pessoas que acompanhavam Jonas Brothers - e toda essa galera do Disney Channel nos saudosos anos 2000 - já estão mais velhas, e com outras responsabilidades na altura do campeonato. A época em que ouvíamos os rocks mais quentes da Disney e da Nickelodeon infelizmente já foi embora. E é na lembrança dessa era de ouro em que nos reencontramos com versões amplamente diferentes de nós mesmos. Versões e companhias, inclusive.

Não posso dizer que sempre acompanhei Jonas Brothers, mas tenho uma boa lembrança das séries “Jonas” e “Jonas L.A.” (principalmente daquele quarto maneiro deles), além de reconhecer todo seu sucesso, ao lado de Demi Lovato, em “Camp Rock”. Mas há algo em especial em todos os artistas desse período (seja Disney ou Nick). Revisitar suas obras nos reconecta à uma fase bastante despretensiosa da vida, principalmente para quem dividia essas paixões com amigos e irmãos. Enfatizo o ‘irmãos’ aqui, pois acabo me identificando muito com este sentimento para com essas obras. O principal exemplo que posso citar é “Drake e Josh”, série da qual acompanhei muito ao lado de meu irmão. E é nesta interação fraternal que encontrei profundidade no novo filme dos irmãos Jonas.
Queria abrir um adendo aqui para mencionar o fato de que toda vez que escrevo “Jonas”, começa a tocar o clássico do Figueroas “Melô do Jonas” na minha cabeça…
Dirigido por Jessica Yu, “Um Natal Bem Jonas Brothers” acompanha as desventuras dos três irmãos - Joe, Nick e Kevin Jonas - em turnê, correndo contra o tempo para chegar em suas casas à tempo de passar o Natal com suas respectivas famílias. O filme abraça aquela ‘tosquice’ maravilhosa dessas comédias consideradas mais bobas, ao explorar o extremo das personalidades de cada um, criando situações e contextos absurdos, como o fato do Papai Noel estar à paisana influenciando nos acontecimentos, ‘forçando’ indiretamente essa reaproximação dos irmãos, com seus poderes mágicos.

Além disso, temos participações especiais sensacionais como a de Will Ferrell interpretando ele mesmo sendo um grande fã da banda, além do histórico saxofonista Kenny G. (do mais absoluto nada) fazendo um feat com os caras em um metrô. Fora a lore dos personagens secundários que - por mais que seja lugar-comum - acaba divertindo pela aleatoriedade. Temos a moça do telefone que está muito triste, pois terminou o seu relacionamento e, por sua vez, seu ex que está pilotando o avião dos irmãos, enquanto está tentando tirar fotos sensuais para causar ciúmes nela. É uma situação peculiar, deveras! Além disso, temos aquele moleque do besteirol “Que Horas Eu Te Pego?” (gênero que respira por aparelhos hoje em dia, inclusive) travando uma ‘batalha’ de canto com Nick, depois de se desentenderam no musical “Esqueceram de Mim”.

Para completar, temos o romance principal do longa, estrelado por Joe e Lucy (interpretada por Chloe Bennet, a Skye/Daisy/Tremor do injustiçado “Agentes da S.H.I.E.L.D.” da Marvel - sim, sou uma viúva dessa série e acho que ela merecia mais reconhecimento, principalmente depois de ter sido esquecida no churrasco desde que a Disney abocanhou a Marvel Studios). Tal casal apresenta uma química muito interessante em cena, evidenciando um passado mal resolvido, além de transparecer que ambos estão sozinhos, enquanto os outros ao redor já apresentam suas famílias constituídas. Em resumo, os dois acabaram se reencontrando em um momento perfeito para se unirem, e é neste clichê que o âmbito ‘comédia romântica’ se desenrola apropriadamente.

Mas ok, até aqui temos mais uma produção avulsa de Natal que - possivelmente - só existe para preencher o catálogo de fim de ano do streaming, então o que há de tão profundo nisso? Justamente o tempo. O tempo passou para todos nós. O público e os astros. E muitos de nós crescemos com eles, e nos vimos, como um reflexo, nessas relações. Quem tem irmão sabe a força de tal vínculo. Crescemos juntos e fieis uns aos outros, dividimos os mesmos gostos para músicas, desenhos e filmes. Compartilhamos brinquedos, jogos e piadas. Escondemos mentiras dos nossos pais. Tornamo-nos os principais confidentes mútuos. O ponto é que à medida em que ficamos mais velhos, o ‘estar junto’ acaba se tornando mais raro. E acabamos nos perdendo em meio à compromissos e à correria do dia a dia, propriamente dita, que nunca vivenciamos esses momentos raros em sua plenitude. Sempre estamos travados, com pressa de já ir embora, porque precisamos resolver nossas vidas separadas.

No caso dos Jonas, a turnê foi o fator que os juntou neste período específico. Porém, os shows já estão se encerrando, o Natal está chegando, e Nick e Kevin precisam chegar a tempo para passar ao lado de suas esposas e filhos, enquanto Joe, sem compromisso fixo, ainda quer aproveitar os últimos minutos com seus irmãos, como nos velhos tempos. Contudo, os tempos são outros. Não se tem a mesma energia, nem o desprendimento para isto. É preciso retornar para suas casas. Mas isto até quando? É com esta premissa que nos encontramos perdidos em diversos questionamentos ao assistir à este filme. Até quando iremos continuar tendo esses pequenos momentos com nossos irmãos? Até quando teremos essas oportunidades? Um dia isso irá acabar, infelizmente, e sentiremos falta até do tempo em que nem nos víamos tanto, pois chegou num ponto em que a distância não se justifica apenas fisicamente, mas sim mentalmente - ou até fatalmente em alguns casos.

É fato que todos nós temos nossos compromissos. Muitas vezes, acabamos nos tornando (e nos tratando como) apenas conhecidos em um mercado qualquer. Como naqueles momentos em que você está na sessão dos produtos de limpeza e, abruptamente, encontra-se com alguém que você sabe que conhece mas não se lembra muito bem de onde. Há um momento em que você já não sabe como é o cotidiano de sua irmã, quais são os hobbies de seu irmão, onde sua irmã está no final de semana, ou onde seu irmão irá passar as férias esse ano. E a estranheza disso está no fato de que lá atrás éramos unha e carne. Éramos tão conectados a ponto de completarmos uma frase do outro. Eis que o tempo chega, e nos traz fios brancos, gostos diferentes, opiniões distintas. E precisamos lidar com isto, pois apesar da fraternidade, somos seres individuais. Cada um segue seu caminho, sua vida. E é necessário respeitar este fato. Da mesma forma que se faz necessário aproveitar esses momentos raros.

Nick, com seu jeito organizador demais, estava totalmente desesperado para retornar ao seu lar. Kevin precisava ter autoconfiança o suficiente para trilhar suas decisões (e seu número solo). Joe estava passando por uma crise existencial ao refletir sobre seu atual momento de vida, analisando suas escolhas, suas falhas, seus términos, suas despedidas. Os três, já consagrados e mais maduros, estavam perdidos apesar de tudo. E precisavam se reunir um pouco mais para aprender essa lição. O bom velhinho Santa precisava interferir aqui, como precisa interferir em nós, seja por intermédio de um sinal ou por um filme inofensivo de Natal.

Para concluir, preciso mencionar que este filme despertou em mim algo que eu precisava reafirmar. Principalmente nesta época do ano. Abrindo um pouco mais o meu coração, no final do ano passado não estava muito feliz. Pelo contrário. E no comecinho deste ano, assisti à um excelente drama chamado “As Três Filhas”, da Netflix, dirigido por Azazel Jacobs, estrelado por Natasha Lyonne, Carrie Coon e Elizabeth Olsen, com uma maravilhosa trilha sonora acolhedora do músico brasileiro Rodrigo Amarante. No longa, três filhas se reúnem em um apartamento para passar os últimos dias de seu pai, que está doente e em cuidados paliativos.

Podemos ver que a relação das três está muito desgastada, e cada uma seguiu caminhos muito distintos entre si. O filme é de uma delicadeza tão profunda que nos desperta inúmeros desconfortos sobre nossas próprias escolhas, sobre como estamos levando as interações com nossos familiares. Certamente, estamos falando de produções com propostas extremamente diferentes aqui. Mas vejo semelhanças entre os dois filmes. Além disso, achei interessante assistir um no início deste ano e o outro no final. Quase como se o Santa Claus do meu universo astral me mostrasse que isso é um ciclo sem fim. Algo que preciso estar sempre reforçando. Afinal de contas, amo meu irmão e meus familiares e não posso deixar de aproveitar esses momentos.
Portanto, é época de Natal! A tal ‘dezembrite’ chega com força, esse sentimento agridoce e melancólico de fim de ano. E os filmes temáticos sempre nos reforçam sobre o espírito natalino. É preciso aproveitar esses momentos! Eles são raros, mas são muito importantes, principalmente quando estamos em uma quinta-feira aleatória lembrando dos bons e velhos tempos. Um Feliz Natal para todos!












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