Crítica - O Agente Secreto

Críticas Gerais

O Agente Secreto é magnético, um suspense intenso e fascinante e um drama que envolve com sua história e personagens.
Ancorando sua história em Marcelo, que acaba de chegar em Recife e percebe que está longe de encontrar a paz que procura, O Agente Secreto é um filme que funciona melhor quando menos soubermos dele, e estou sendo o mais vago possível em sua premissa, pois um dos seus pequenos prazeres é deixar-se levar pela história, que como tal, tem uma estrutura impecável, que permite contar sua história com imensa paciência, plantando pistas ao longo do primeiro ato para então nos recompensar depois. E toda essa paciência é um dos méritos da direção de Kleber Mendonça Filho, que como de hábito em seus filmes, privilegia os personagens e os seus dramas pessoais, mas que assim como Bacurau recria uma das marcas daquela excelente obra que é nos levar à tensão constante por algo que ainda não sabemos o que é, apenas para convergir as tramas de forma perfeita. Evitando mastigar a história demais, o roteiro é inteligente em permitir que o próprio espectador vá montando a história (seja na forma narrativa ou através do contexto da Ditadura Militar), e sua interessante estrutura narrativa nos ancora ao filme, prendendo a nossa atenção desde o início e não nos largando mais, sendo ainda mais admirável por sustentar a tensão e respeitar o ritmo da história, sem jamais se tornar cansativo em suas quase três horas de duração, mesmo nos momentos que trazem um respiro na história (como a sequência da Perna Cabeluda ou as passagens que desenvolvem seus personagens).
E ao povoar o filme com personagens interessantíssimos, este só se torna ainda mais envolvente, onde até mesmo aqueles com pouco tempo de tela estabelecem uma verdade naquelas interações e um fascínio pelas suas histórias pessoais, que confesso, deixa com vontade de vermos mais deles. Aliás, as atuações calcadas em sobriedade e humanidade por parte dos seus intérpretes são excelentes: Wagner Moura aposta em uma atuação mais contida onde seu personagem transmite um carinho autêntico pelos demais personagens, trazendo também o seu carisma de sempre que conquista o espectador, Carlos Francisco encanta como um projecionista, Gabriel Leone e Roney Villela convencem perfeitamente como uma dupla de matadores, onde demonstram sutilmente o perigo que são, Alice Carvalho está fantástica em uma participação especial forte e importantíssima, Maria Fernanda Cândido é excelente, como de hábito, Luciano Chirolli é odiável como um empresário corrupto e sem escrúpulos, mas quem rouba a cena mesmo é a atriz Tânia Maria que com sua inesquecível Dona Sebastiana cria uma daquelas senhorinhas adoráveis cujas histórias surpreendentes da longa vida que tiveram encontram espaço no imenso carisma).
Preocupado em levar o espectador para dentro do seu filme, a direção não se furta em iniciar o filme com imagens de figuras marcantes da época, mas também tem a ajuda de um trabalho técnico absolutamente impecável: Rodado em película, a fotografia confere uma estética do cinema dos anos 70, conferindo certa crueza, mas também uma certa nostalgia a Recife, que por sinal, traz uma reconstituição de época tão magnífica e impressionante que conseguimos sentir a época, mesmo diante dos horrores da Ditadura Militar (e o design de produção, os figurinos e a maquiagem merecem todos os aplausos do mundo por conseguir esse feito). Além disso, a trilha sonora se destaca pelas boas escolhas musicais, complementando a época de forma perfeita. E mais que sentir a época, quase somos levados a pensar que o filme que estamos vendo foi retirado de uma cápsula do tempo, e é imensamente prazeroso toda a sequência ambientada em um cinema de rua, onde podemos ver os cinemas antigos com projeção em película (e com aquela decoração clássica que foi destruída com o tempo em função dos cinemas de shopping).
Aliás, o tempo faz todo o sentido o mundo quando paramos para pensar sobre o filme: Embora ambientado na Ditadura Militar, é um filme que foge do que vimos em grande parte das obras brasileiras sobre o assunto (como o belo Ainda Estou Aqui), mas que prefere tratar o assunto de forma tangencial a partir de suas consequências, e o apagamento de inúmeras pessoas – e da história – daquele período é algo que ainda ressoa de certa maneira no Brasil contemporâneo. Algo que pode ser sintetizado pelos seus minutos finais que, surpreendendo por fugir de um grande clímax logo após o filme nos preparar para um, nos leva a sentir que, o tempo, implacável como ele, não só leva para sempre as nossas memórias, mas também pessoas e principalmente, uma época que jamais deveríamos esquecer.
 

 

Gênero: Drama/Suspense
Duração: 158 Minutos
Distribuição: Vitrine Filmes
Direção: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Wagner Moura, Carlos Francisco, Laura Lufési, Robério Diógenes, Hermila Guedes e Roney Villela com as Participações Especiais de Alice Carvalho, Gabriel Leone, Isabél Zuaa, Maria Fernanda Cândido, Udo Kier e Tânia Maria

 

Essas e outras críticas, você pode ler aqui:

https://criticasdefilmes1.wordpress.com/

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