Crítica - Éden
Críticas Gerais
Éden é um drama/suspense intenso e muito bom, que envolve e fascina nos temas que discute e provoca.
Trazendo a história real de moradores de uma ilha de Galápagos, onde cada um decide morar lá por razões próprias até começarem a ter conflitos entre si, Éden busca nos envolver em sua história a partir das ações de seus personagens em sua busca para viver longe da sociedade. Ambientado em 1929, o roteiro consegue nos envolver e nos instigar em acompanhar aqueles personagens e como eles se comportam inicialmente, passando pelo longo processo de descobrir os incômodos naturais da ilha e claro, do processo de adaptação e construção para viver naquele lugar. Conferindo uma tensão gradual, onde desde o início o diretor Ron Howard ressalta uma amigabilidade disfarçada em meio a tensões pequenas que vão se tornando maiores, com isso, o filme nos leva a temer por algo que não sabemos ainda o que é (e a confluência de ideias na sequência do almoço é o ponto alto do filme, assim como a tensa sequência do trabalho de parto). Há problemas pontuais, já que frequentemente passagens dramaticamente promissoras são deixadas de lado (como aquela envolvendo a morte de um burro), o que dá a impressão que o filme está sendo meramente episódico, como se assinalando os acontecimentos mais importantes da história real.
Mas talvez o mais fascinante é observar como aqueles personagens passam aos poucos a representar conceitos da sociedade moderna e da filosofia: Se o Dr. Ritter já representa o homem cínico e niilista que há muito abandonou a civilização após reconhecer o que há de pior nela (e que claro, não quer seguir o exemplo, tentando seguir outras filosofias como o Idealismo), a família Wittmer representa um ideal humanizado (entre o Pragmatismo e a pura ingenuidade humana, sempre esperando pelo melhor das pessoas) enquanto a Baronesa, tal como o seu título, nada mais é que a pura representação do Capitalismo. E mais que observar os personagens agindo entre si, o mais fascinante é perceber como cada um funciona dentro daquela pequena sociedade e o que eles representam (e que por lógica, ressalta os seus subtextos), e de como funcionam um com o outro, por vezes brigando entre si, ou tomando ações que os afastam aos poucos de suas próprias ideologias. E é natural que a partir do momento que a Baronesa chega, ela trata de colocar aqueles que já estavam lá, e até mesmo os seus amados um contra o outro (e é no mínimo curioso que os amados da Baronesa sabem que estão seduzidos pela beleza dela, mas reconhecem a sensação inebriante que esta causa), denunciando, claro, a lógica destrutiva e tóxica do Capitalismo. E é lógico que o Dr. Ritter chega à conclusão inevitável que o instinto animal/primitivo são a nossa verdade interior (sem perceber que é isso que passa a mover os personagens do filme de uma maneira ou de outra, embora comedidos pelo conceito de civilização), o que revela no processo que, de uma maneira ou de outra, retrocedemos ao nosso instinto mais animalesco quando somos confrontados pelo instinto de sobrevivência. E mesmo ambientado em 1929, é inegável que o roteiro acaba se tornando atemporal, e o filme também acerta por não escolher um lado de quem é o certo ou errado, o que confere complexidade a seus personagens que acreditam estarem fazendo o certo, permitindo que o espectador reflita e pense sobre o que está assistindo.
Beneficiado pelas ótimas atuações do elenco, que no mínimo, merecem destaque pela entrega visceral e sem vaidade, o que ajuda a trazer verdade aos acontecimentos (e em um elenco impecável, merece destaque Jude Law – que tem se tornado um ator cada vez melhor com a maturidade – é excelente no retrato de um homem que não enxerga mais a sociedade como algo digno, mas também é um homem que tenta seguir fielmente sua própria ideologia, e principalmente Ana de Armas como uma mulher que não teme usar da própria beleza e sensualidade para conseguir o que quer, e que não teme esforços para conseguir o que deseja, se tornando a figura mais desprezível e perigosa do filme, mesmo que ocasionalmente consigamos ver lampejos do pouquíssimo traço de humanidade que ainda lhe resta, e a sequência do almoço é o ponto alto da atriz), o filme ainda tem uma bela fotografia (que é eficaz em retratar junto do design de produção a beleza espetacular da ilha, mas com uma paleta de cores levemente sóbria, o que traz realidade e perigo àquela ilha), bons figurinos (eficazes em sua praticidade para aqueles personagens), uma trilha sonora muito boa (onde o compositor Hans Zimmer confere uma atmosfera carregada ao filme), uma maquiagem fantástica (que retrata impecavelmente os desgastes na pele e do cansaço na vida daquelas pessoas) e um excelente design de som (que nos mergulha dentro da ilha junto dos personagens).
E é então que o filme deixa o questionamento: viver longe da sociedade é capaz de fazer o bem ao ser humano? Como se observa, uma personagem faleceu após sair da ilha em decorrência da sua doença, outro não teve o destino desejado de sair da ilha, enquanto outros padeceram curiosamente afogados nas próprias ideias e ambições. E os que sobreviveram, continuaram na ilha após todos esses anos, mas não sem antes construírem um hotel para viajantes, o que não deixa de ser curioso, já que era o desejo que a Baronesa tinha para aquela ilha, o que comprova que até as pessoas que abdicaram da vida em sociedade tiveram que seguir um caminho que imagino, não era o que eles queriam (dentro da lógica do filme, claro), mas que também provou um ponto: Que de fato, o Capitalismo não só contamina, como corrói o homem, e de que no fim, aquelas pessoas não eram diferentes umas das outras.
Gênero: Drama/Suspense
Duração: 129 Minutos
Distribuição: Amazon Prime Video
Direção: Ron Howard
Elenco: Jude Law, Ana de Armas, Vanessa Kirby, Daniel Brühl, Sydney Sweeney, Toby Wallace, Felix Kammerer e Jonathan Tittel
Essas e outras críticas, você pode ler aqui:
https://criticasdefilmes1.wordpress.com/














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