Divisão Palermo, o Brooklyn Nine-Nine argentino que dá voz às minorias
RecomendaçõesEm junho, empolgado pela estreia de O Eternauta, fiz uma lista de cinco séries argentinas para maratonar logo na sequência aqui, no Peliplat. Sinto-me envergonhado de, em meio a tantas dicas boas, ter esquecido completamente de Divisão Palermo!!!! Criada e protagonizada por Santiago Korovsky, com produção da K&S Films e distribuição da Netflix, ela ganhou uma segunda temporada agorinha há pouco, em julho de 2025, e me fez rir como poucas obras no cinema e na TV neste ano. Falo com tranquilidade: é Brooklyn Nine-Nine, só que melhor, com sangue latino.
A primeira temporada estreou em 2023 com apenas oito episódios. A segunda, por sua vez, tem ainda menos: seis deliciosos episódios. Cada um deles tem entre 20 e 30 minutos. Ou seja: dá para maratonar tudo em um só dia, pros mais animados. Honestamente, nunca vi ninguém falar dela aqui no Brasil – ao menos, na minha bolha. Tenho certeza, porém, de que ela tem potencial de ser a nova série favorita de muita gente, mesmo com algumas piadas específicas demais para quem nasceu e foi criado em Buenos Aires. Acredite, é um achado dentro de tantas opções nos incontáveis streamings que às vezes parecem enlatados, sempre mais do mesmo.
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Divisão Palermo segue a história de um grupo de personagens que pertencem às mais variadas minorias. Temos, por exemplo, uma cadeirante, uma personagem trans, uma pessoa com nanismo, um deficiente visual e o nosso herói, Felipe Rozenfeld (interpretado pelo criador e também roteirista, Santiago Korovsky), que meio que caiu de paraquedas no rolê.
Ele só queria prestar uma queixa (abrir um B.O) de roubo, mas acidentalmente acabou se candidatando para o programa da Guarda Urbana e foi aceito, depois de muito debate, por ser judeu. Feli é um protagonista medroso e acomodado que acabou de passar por um término de relacionamento de anos e começa a enfrentar uma crise de meia idade e a voltar a morar com os pais. O famoso bobão, mas de bom coração, que passa a série toda em busca de aprovação e de se sentir útil em algum grupo.
A existência de um programa que valorize minorias é louvável. Ou melhor, seria louvável, se o motivo por trás dessa fachada não fosse uma estratégia de marketing meramente política e cínica. Divisão Palermo, no fim, é uma grande crítica que partiu do desejo do criador Santiago de mostrar as minorias como pessoas de verdade. Elas têm dias ruins, xingam e não são puramente “seres de luz” pelas condições que possuem. Inclusive, a série critica o comportamento condescendente da sociedade ao enxergar essas pessoas com dó, e também pisa naqueles que se propõe a fazer o bem por interesse próprio, por aparências ou apropriação da palavra “inclusão”.
As inspirações e referências de Santi não poderiam ser melhores: Better Call Saul, Seinfeld, Curb Your Enthusiasm e The Office – vale ressaltar que é a versão britânica, e não a norte-americana, que no fim se tornou a mais popular. É nítido o constante constrangimento típico de The Office, em especial nas cenas com Feli e Miguel, o chefe da Divisão Palermo. A graça da série está justamente nesse desconforto, nesse “humor de segunda mão” em que o espectador se vê obrigado a rir mesmo sem saber se deveria. Há também uma quebra de expectativa logo no primeiro episódio, quando tudo parece simplesmente engraçado e leve, até que uma pega o espectador de contrapé e lembra da inspiração ao universo de Breaking Bad ao criar a série. Aliás, me lembrou também um pouco Barry, da HBO, por dosar perfeitamente humor e drama.
Miguel (Daniel Hendler, totalmente afiado e hilário no papel) é um chefe inepto, perdido, mas cheio de autoconfiança, aquele tipo de autoridade que você sabe que não deveria estar no comando de nada, mas que insiste em manter uma fachada de seriedade. Ele é, provavelmente, meu personagem favorito, junto com a Sofi. É nessa mistura de figuras deslocadas, todas tentando parecer funcionais enquanto o caos impera, que Divisão Palermo encontra sua voz.
E é fascinante perceber como a série, ao mesmo tempo em que faz rir, também consegue gerar um incômodo sutil, aquela sensação de que estamos vendo uma realidade próxima demais para ignorar. Não se trata apenas de “representar minorias”, mas de escancarar como a sociedade as instrumentaliza. O riso, em Divisão Palermo, é sempre acompanhado de uma pontada crítica, como se a cada piada houvesse uma cutucada na consciência coletiva.
Em vez de transformar os personagens em estereótipos, Santi e sua equipe os tornam pessoas de carne e osso, cheias de falhas, inseguranças e tiradas geniais. Quando me dei conta, já estava torcendo de olhos fechados pro Santi manter o emprego e se dar bem amorosamente – porque por Deus, ele não leva muito jeito pra coisa.
Outro ponto alto está na linguagem: a série é extremamente portenha, cheia de expressões locais, sotaques carregados e situações que soam muito específicas de Buenos Aires. Mesmo com a barreira linguística, é possível encontrar situações universais. Porque no fim, rir do ridículo é algo que atravessa qualquer fronteira.
Arrisco dizer que assistir a Divisão Palermo é quase uma imersão cultural: além da história, a própria cadência do espanhol argentino, cheio de giros locais, dá uma musicalidade diferente às falas, o que só a torna ainda mais saborosa, uma verdadeira medialuna no café da tarde.
A trilha sonora também é um deleite. Dentre hinos latinos, como Charly Garcia (lendário rockeiro argentino) no fim da segunda temporada, há também uma música brasileira na primeira temporada: “Doce Obsessão”, gravada pela Banda Cheiro de Amor em 1992. “Como um hit baiano noventista foi parar em uma série no país vizinho?”, você me pergunta.
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O Santiago contou, em entrevista à Rolling Stone, que provavelmente ouviu a música em férias familiares em Florianópolis, já que no início dos anos 90 o sul do Brasil era um destino comum para os hermanos. É um som “guilty pleasure” pro Santi, mas ele insistiu em trazer a canção para sua obra, e encaixou brilhantemente. O curioso é que a música foi regravada também em espanhol pelo baiano Cid Guerreiro, com o título “Dulce Obsesión”, versão essa que ajudou a atravessar fronteiras e explica como o hit sobreviveu ao tempo. Como não conseguiu os direitos do fonograma, Santiago gravou uma nova interpretação com a cantora Cecilia Arellano, sua professora de canto, que entrega os versos em português.
Se eu tivesse que resumir Divisão Palermo em poucas palavras, diria que é uma mistura improvável entre sátira social, investigação policial e sitcom constrangedora. E o melhor de tudo: é uma comédia argentina que consegue conversar com a gente, aqui no Brasil, de forma muito mais próxima do que imaginamos. Talvez porque compartilhemos os mesmos truques de marketing disfarçados de empatia social e do mesmo humor ácido que nasce quando você precisa rir para não chorar.
E que delícia ver a nossa América Latina produzindo narrativas únicas, que não precisam imitar o formato norte-americano para funcionar. Há frescor, identidade e amizade (entre todos os envolvidos) de Divisão Palermo, elementos esses que a tornam tão especial.
Divisão Palermo não é só mais uma comédia enlatada de streaming. É um lembrete de que boas histórias podem ser contadas a partir das margens, com personagens que raramente vemos em tela — e que, justamente por isso, soam tão verdadeiros. Se você ainda não deu uma chance, faça um favor a si mesmo e coloque essa pérola na sua lista. Prometo que é daqueles casos em que a gente termina de maratonar pensando: “Como ninguém estava falando disso antes?”.
Pena que não haverá terceira temporada, pois eu veria facilmente umas 10. Sou obrigado a parafrasear a Doce Obsessão, do Cheiro de Amor: Divisão Palermo, você chegou e acabou com a minha solidão. <3






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