Entrevista: Como Tânia Maria, a Dona Sebastiana de O Agente Secreto, conquistou o Brasil sendo ela mesma

Celebridades

É impossível assistir a O Agente Secreto e não ficar fascinado. Fascinado por Dona Sebastiana, quero dizer. A mulher acolhedora, que abriga refugiados no filme representante do Brasil no Oscar – dentre eles, o "Marcelo" de Wagner Moura – e que fez três coisas misteriosas na Itália que não pode compartilhar. Ela é hipnotizante. Sempre que está em tela, diz algo que ressoa na sua cabeça depois que você sai da sala de cinema.

Desde a singela apresentação “É ela: Dona Sebastiana. Ao seu dispor!”, ao já clássico “botar uma música” pra mudar o clima. Aliás, desde a sua única frase em Bacurau, o diretor Kleber Mendonça Filho já sabia que queria trabalhar novamente com Tânia Maria, dessa vez mais aprofundadamente, e escreveu a personagem Sebastiana a rigor para a artesã e costureira, natural de Santo Antônio da Cobra, povoado em Parelhas com menos de mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte.

Hoje, aos 78 anos, Tânia Maria é também atriz, com possibilidade de indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e eleita, bizarramente, pelo jornal The New York Times como a Melhor Atuação com Cigarro de 2025.

Em uma quinta-feira de dezembro, tive o privilégio de falar, por 10 minutinhos que passaram voando em uma entrevista via Zoom, com dona Tânia Maria. De óculos escuros e camisa florida, Tânia ri quando a chamo de “maior brasileira de 2025”. Pergunto como tem sido se sentir uma estrela. “É muito bom. É uma alegria o povo gostar do trabalho que a gente faz. É muito gratificante. Valeu a pena o que eu fiz”, diz, com simplicidade. “Gratificante” é uma palavra que se repetirá ao longo de nosso papo.

10 minutos de conversa com a sorridente Tânia Maria! 

Quero saber o quanto de Tânia Maria existe em Dona Sebastiana, e ela é direta: “Tudo. Eu SOU a Dona Sebastiana. É a minha vida. Kleber escreveu a minha vida em O Agente Secreto. Eu sou aquela personagem na vida real. A recepção da família e dos amigos só reforça essa percepção. Eles não enxergaram uma transformação, mas um espelhamento. Todos, segundo ela, têm repetido a mesma coisa: aquela ali é a Tânia. O apoio sempre existiu, mas agora vem acompanhado de orgulho coletivo. Ela faz questão de dividir cada momento com os seus, de ir ao cinema com eles, de viver esse novo capítulo de forma compartilhada. “Minha família me apoia em tudo. Amo família”, resume.

Um dos momentos mais marcantes dessa trajetória recente aconteceu em Natal, quando Tânia assistiu ao filme ao lado de todos os familiares. Ao subir ao palco para agradecer o público, ela se deparou com a própria família inteira na primeira fila, usando camisetas em sua homenagem. Não conseguiu falar. Chorou. “Lotou a sala de cinema com a minha família. Isso me gratificou muito, muito, muito”, relembra.

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Desde o lançamento de O Agente Secreto, a rotina virou do avesso. Tânia quase não para em casa. Está sempre viajando, cruzando o país, indo de Natal a São Paulo, do Rio a Brasília. E ela gosta de estar em movimento. “É bom demais. Muito gratificante isso”, repete, como quem ainda tenta assimilar a própria agenda cheia. No dia em que falamos, ela estava se preparando para ir a São Paulo para uma bateria de compromissos.

Diferente de muitos artistas, Tânia não cresceu frequentando salas de cinema nem cultivando uma cinefilia tradicional. Seus marcos emocionais no audiovisual não são clássicos internacionais ou grandes blockbusters, mas obras profundamente ligadas à sua própria vida. Seu Cavalcanti, de Leonardo Lacca, e agora O Agente Secreto são, para ela, registros existenciais. “Os dois escreveram minha vida”, afirma. Filmes que não apenas contam histórias, mas a traduzem.

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Quando pergunto qual foi o primeiro filme que assistiu no cinema, Tânia conta que foi Bacurau (2019). Ela não tinha o hábito de ver filmes, foi à sessão porque a estreia aconteceu na Barra, local onde o filme foi rodado. Ver a história naquele telão foi uma experiência inaugural. Já O Agente Secreto, ela me revela que já assistiu dez vezes, e que já quer ver de novo – mas que o tempo anda curto, e que no pouco tempo livre que tem, ela gosta é de costurar.

Li em entrevistas que dona Tânia não gostou de Bacurau, e digo isso a ela, que me corrige: “Gosteeeei. Amei. Agora estou entendendo a história de Bacurau. É bom demais. Mas ali eu era figurante. Agora eu fui atriz. É outra coisa, né?”

Entre tantas falas memoráveis de Dona Sebastiana em O Agente Secreto, uma se destaca no coração de Tânia: a cena do brinde. “Me emocionou muito”, diz. Curiosamente, quando puxo o assunto para música, em referência à minha cena favorita de Sebastiana, Tânia me surpreende novamente: “E se eu disser que eu não gosto de música? Eu gosto de silêncio”, revela, antes de cair no riso rouco. “Eu escuto, mas não sou fã de nenhuma música nem cantor. Só tem dois atores de que sou fã: Wagner [Moura] e Tony Ramos. São os dois favoritos meus”.

Tânia Maria não é fã de novelas nem de filmes. Esse distanciamento do universo pop também explica por que a ideia de encontrar celebridades internacionais, caso O Agente Secreto chegue ao Oscar, não a intimida nem empolga. Ela simplesmente não conhece a maioria delas. Brinco que eles é quem vão pedir foto com a dona Tânia Maria.

Ela ri ao lembrar que, durante as filmagens, avisaram que Wagner Moura chegaria ao set, e ela perguntou “quem é esse?”. Só depois de conhecê-lo é que virou fã. O encanto não vem da fama, mas do contato.

Wagner Moura, um dos dois felizardos de quem Tânia Maria é fã!

Tânia conta que parou de fumar depois do filme. Aqueles cigarros fumados em O Agente Secreto foram seus últimos. Na nossa conversa, reconhece que é “muito bom fumar”, mas que também “é muito bom deixar de fumar”. Acima de tudo, defende a liberdade de escolha individual: “Não aconselho ninguém a deixar. Pode fumar, tá? Até não querer mais, mas eu não fumo não”.

Quando falo sobre o Brasil que se desenha para 2026, com Copa do Mundo, eleições e possíveis indicações ao Oscar para O Agente Secreto (em uma espécie de Copa do Mundo antecipada), Tânia é objetiva no que deseja para 2026: “Eu quero paz. E muitos filmes para eu ganhar dinheiro. Quero filmar para ganhar muito dinheiro. Muitos filmes. É o que eu quero”.

Os últimos cigarros de Tânia Maria, em O Agente Secreto.

E propostas não faltam. 2026 promete ser um ano movimentado, com vários projetos já encaminhados. O próximo é A Adoção, de Allan Deberton, que será gravado em Fortaleza. Tânia já foi convidada, já gravou a cena – ou melhor, já decorou o texto, ela se corrige. Para isso, segue um método simples e eficaz: escreve as falas repetidas vezes. Técnica que aprendeu com Leonardo Lacca, com quem trabahou em Seu Cavalcanti, e que, segundo ela, ajuda a decorar rápido.

Mas por que Dona Sebastiana conquistou o Brasil de forma tão avassaladora? A própria Tânia diz não saber ao certo. Atribui tudo à “simplicidade”. Ela não tentou criar nada além do que já é. Não performou, apenas foi ela mesma, e a família confirma: aquela mulher na tela é a mesma do dia a dia. “Não é novidade”, dizem. Autenticidade absoluta e sem filtros.

Antes e depois de O Agente Secreto, há algo que permanece inalterado: Tânia continua costurando. Faz seus conjuntinhos de banheiro artesanalmente, como sempre fez, e não pretende parar. Digo que quero vê-la no Oscar. Tânia responde com a convicção tranquila de quem já entendeu o próprio lugar no mundo: “Eu vou.”

Tânia Maria deseja paz e muito trabalho para poder ganhar dinheiro em 2026. Pois um dos meus maiores desejos é prestigiá-la, direto do meu sofá e da minha TV, no tapete vermelho do Oscar, toda reluzente e cheia de pirraça.

 

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