Ladrões
Críticas Gerais
Revelando-se uma excelente surpresa, Ladrões é um filme divertido e cheio de adrenalina e angústia.
Trazendo o protagonista Hank se vendo em meio a uma série de azares e contratempos indiretamente causados pelo seu vizinho e amigo, Ladrões é o tipo de filme que gosto de apelidar como “pessoas tomando decisões impulsivas e se dando mal no processo” e certamente algo do tipo cairia como uma luva na comédia de humor sombrio dos irmãos Coen, mas que aqui, o diretor Darren Aronofsky confere contornos sombrios e de odisseia à jornada do protagonista em tentar se livrar da série de problemas que ele se mete, que vão se tornando ainda maiores em função das decisões impulsivas dele e de outros personagens, e que se convertem em uma imensa bola de neve para eles. Conseguindo um feito curioso de divertir e angustiar na mesma medida, o filme se mantém em um ritmo crescente e que não permite muitos respiros para os personagens (e para nós espectadores), mantendo uma forte intensidade em sua história, e ainda é corajoso em como a desenvolve, e poucos são os recentes filmes do gênero que realmente buscam levar até o limite as consequências de sua história, o que ajuda a conferir um clima realmente imprevisível para a história. Que os personagens sejam bons e carismáticos o bastante para nos prender ao filme é só a cereja do bolo.
E como fã confesso do diretor Darren Aronofsky que sou, é um pequeno prazer cinéfilo vê-lo trocar para um gênero distinto, já que acostumado com dramas carregados e pessimistas (mas não menos excepcionais) ao longo da sua carreira, é ótimo vê-lo tomando novos ares, ainda mais para um gênero que ele nunca experimentou, o da ação (tudo bem que Noé era um filme que tem muitos efeitos especiais, mas também mergulhava o espectador no mesmo clima pesado de seus filmes): E aqui o diretor parece interessado em relaxar e se divertir um pouco em seu exercício de estilo, mas não sem antes nos levar a um ataque cardíaco. Além disso, a obsessão e autodestruição (temas tão caros ao diretor e que estão presentes em todos os seus filmes) encontram eco aqui de forma um pouco mais diluída pela narrativa, já que o protagonista já lida com um trauma passado e que o leva à autopunição (e a necessidade dele de ter que abandonar o álcool ganha contornos autodestrutivos em dado momento do filme), já os coadjuvantes, esses sim ganham contornos autodestrutivos um pouco mais intensos já que são as suas ações que os levam a um caminho de destruição que afeta outras pessoas, sem sequer perceber isso. Felizmente, a intensidade característica dos filmes de Aronofsky permanece, e embora exista um componente de humor sombrio na história que nos leve ao riso nervoso ocasionalmente, é o constante clima de tensão em conjunto com a própria intensidade e imprevisibilidade da história que nos leva a sentir a montanha-russa dos personagens, enquanto consegue adequar esse aspecto característico de seus filmes dramáticos ao gênero de ação de forma a sentirmos a ação e o movimento da história. Claro, ocasionalmente o diretor acaba pesando um pouco e demonstra sua pouca habilidade com o gênero, chegando a investir em planos retratando a reação do gato (e que combinaria mais em filmes fabulescos, e não em filmes de ação) e ressaltando algo que o filme já havia demonstrado sutilmente no trauma – e consequente impacto – ao protagonista ao usar da montagem para conectar dois planos em que vemos dois corpos em uma mesma posição, mas são pequenos pecadilhos ao longo do filme.
Eficaz ao conseguir nos mergulhar para dentro do filme, o design de produção faz uma eficaz recriação de época do final dos anos 90 e que ressalta a simplicidade dos ambientes que os personagens vivem, evocando com a fotografia uma atmosfera sóbria, como se não houvesse espaço para alegria naquele universo (e o único momento que a fotografia adota cores mais fortes é justamente em um importante flashback, além disso, planos como aquele que vemos o protagonista em uma escada de incêndio onde vemos todo o redor ou o que a câmera atravessa uma praça para nos levar a uma perseguição eletrizante são de tirar o fôlego, e não deixa de ser divertido observar que o carro do personagem Russ tem um espaço móvel no teto para acomodar o seu grande cabelo moicano). Enquanto isso, a trilha sonora confere tensão, assim como traz boas músicas para embalar o período, complementado também por um ótimo design de som que ajuda na imersão e na construção de um universo palpável (os sons dos tiros acertam pelo realismo).
Contando ainda com atuações muito boas (e que o elenco defende com unhas e dentes, e deve-se destacar Austin Butler, que evoca uma vulnerabilidade tocante por trás de seu personagem, ressaltando também a segurança que vai ganhando enquanto vai sendo quebrado pela própria natureza das suas ações e dos outros, enquanto isso, Zoë Kravitz traz sensualidade e um carinho palpável pelo amado, e que é importantíssimo para sentirmos a sua ausência mais tarde, Matt Smith rouba o filme com seu personagem e Nikita Kukushkin se mostra como um dos capangas mais insanos e perigosos vistos recentemente) e trazendo o desfecho mais otimista de toda a carreira do seu cineasta (já que todos os seus filmes terminam de forma a ressaltar que para que haja alguma glória, seus personagens precisam se sacrificar de alguma forma), e mesmo que reconheçamos o tortuoso caminho que levou a esse desfecho, é ao menos recompensador ao espectador (e ao protagonista Hank), por podermos observar o seu crescimento em seu arco narrativo, mas também sem deixar de nos divertir com essa história.
PS.: Há cenas adicionais durante os créditos finais.
Baseado no Livro de Charlie Huston.
Gênero: Ação/Drama/Suspense
Duração: 107 Minutos
Distribuição: Sony Pictures
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Austin Butler, Regina King, Zoë Kravitz, Matt Smith, Liev Schreiber, Vincent D’Onofrio, Benito Martínez Ocasio, Nikita Kukushkin, Yuri Kolokolnikov, Griffin Dunne, Carol Kane e Tonic
Essas e outras críticas, você pode ler aqui:
https://criticasdefilmes1.wordpress.com/




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