"Los Colonos": o diabo vende ovelhas
Críticas GeraisLos Colonos (Felipe Gálvez, 2023)
Por Leandro Afonso
Me volví para Santiago /
Si comprender el color /
Con que pintan la noticia /
Cuando el pobre dice "no" /
[“Arriba quemando el sol”. Composição: Violeta Parra]
Demônios em um faroeste do seu tempo
Los Colonos (Felipe Gálvez, 2023) apresenta potenciais problemas já a partir dos créditos iniciais. Nove países – Chile, Alemanha, Argentina, Espanha, França, Itália, Reino Unido, Suécia e China/Taiwan – aparecem com instituições, festivais ou empresas ligadas ao filme. Influências, sugestões e concessões diversas – que transcendem em muito a própria equipe técnica da obra – tendem a se materializar na projeção, em busca de um denominador comum capaz de agregar pontos trazidos por cada um desses encontros. Essa abertura a tantas vozes geralmente cria um longa latino-americano feito sob medida para o gosto de um cliente europeu pretensamente refinado: um roteiro com a presença de populações originárias, regiões remotas e traumas históricos. Sim, um imaginário exótico e bárbaro marcam presença, mas a partir de uma mirada não apenas eurocentrada. O filme se mostra capaz de encontrar poderosas e sucintas soluções estético-narrativas também desde os créditos iniciais: quando o texto indica Cinema inutile, a simples mudança de cor sinaliza um caminho da história.
O longa se desenvolve então como um western. O gênero passou por reinterpretações distintas, de Johnny Guitar (Nicholas Ray, 1954) a Sergio Leone, atingindo um outro ápice – de popularidade e reconhecimento crítico – em Os Imperdoáveis (Clint Eastwood, 1991), que já tem um caráter revisionista e é citado diretamente em, entre outros, Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, 2009). A unidade estilística geral de Los Colonos – econômica em cortes, diálogos e movimentos de câmera, com uma fotografia impecável – remete a uma concisão e elegância consolidadas antes de Johnny Guitar e que chegam até Os Imperdoáveis. Mas a narrativa de Los Colonos, já inserida em um conjunto de faroestes chilenos que inclui Sal (Diego Rougier, 2011) e Tres Almas (José Guerrero Urzúa, 2021), se dá em um lugar essencialmente sul-americano. Um ex-capitão britânico (Alex), acompanhado pelo estadunidense (Bill), coordena uma expedição para proteger e expandir a grande propriedade do latifundiário (sr. Menéndez). Os dois mercenários têm a companhia de Segundo, que mexe com as estruturas.

O início de Los Colonos destaca em silêncios e planos detalhes a célebre frase de Antônio das Mortes, no sui generis faroeste brasileiro que é O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (Glauber Rocha, 1968), aqui aplicada à porção chilena da Terra do Fogo: “Deus criou a terra, o Diabo criou o arame farpado”. Aí somos apresentados a Alex MacLenan, ex-capitão inglês, o primeiro dos muitos demônios do filme. “Nessa terra, um homem sem braço é um homem a menos” é seu cartão de visitas, que vem acompanhado de um tiro à queima roupa. Antes a cerca, depois o ser humano.
(Daqui em diante não há grandes spoilers, mas uma indicação no parágrafo seguinte e algumas provocações na sequência podem diminuir o efeito surpresa da narrativa)
Veremos outros assassinatos como esse, mas aqui vale refletir sobre um específico. Às vezes, como vítima, parece ser melhor morrer que continuar vivendo. Pode-se argumentar que o homem sem braço se encaixa aí, mas um outro instante mostra um homicídio com as próprias mãos, que tem uma raiz muito distinta. A praticidade fria é substituída por uma melancólica misericórdia. Um bom caminho para pensar sobre essa afirmação é responder à pergunta: o que há de parecido e o que há de distinto entre o assassinato que introduz o ex-capitão inglês e esse posterior? Como operam ali as dores e as motivações por trás de cada homicídio?
Essa cena também encerra uma subdivisão do filme, dedicada a um personagem que quase não fala nesse fragmento. Aí vale a leitura óbvia do silenciamento literal, de uma personalidade que se manifesta, basicamente, em ações e hesitações motivadas pela lógica de vida ou morte. Ou seja, está aí um retrato repetitivo sobre esse tipo de personagem, o que em alguma medida banaliza essa parcela do discurso do filme. Quando esse trio de funcionários do Sr. Menéndez volta a ver a luz do dia, contudo, estamos onde a própria narrativa vai chamar de “fim do mundo”, um lugar onde lógicas dominantes de patente militar, masculinidade, nação e raça serão tensionadas.
O que fazer com esse sangue?
As duas últimas grandes sequências se passam em Punta Arenas e na ilha de Chiloé. Vicuña, que protagoniza ambas, é um nome que vem da capital (Santiago), demonstra estar informado sobre o histórico da região e aparenta estar disposto a dialogar. Pouco a pouco, porém, fica evidente que essa negociação não é tão cortês quanto parecia, nem tão dura quanto poderia. No início do longa, um personagem considerou estranho um único proprietário ser dono de vastas terras dos dois lados da fronteira. Uma pergunta mais ampla feita a partir dessa sequência em Punta Arenas pode ser: como se deu a relação entre o Estado e as famílias de grandes latifundiários (não só chilenos)? Uma analogia que ele faz com a lã das ovelhas, e que não é o título dessa crítica, é fundamental para pensarmos: qual a principal razão para Vicuña estar ali?
A Ilha grande de Chiloé, para onde se dirige Vicuña, faz parte da região de Los Lagos. A capital e maior cidade dessa zona administrativa é Puerto Montt, assim nomeada por causa de Manuel Montt [1809-1890], ex-presidente chileno e pai de Pedro Montt [1849-1910], mandatário do país na época que a cena retrata. Quando Vicuña menciona o chefe da nação a uma das personagens, no entanto, a resposta dela enfatiza que algo não está funcionando na relação o entre Estado e aquela pessoa. Seja na conversa ainda na área externa próxima ao mar, seja no longo monólogo dentro da casa da família, seja no instante final, Los Colonos questiona – ou volta a problematizar – outras lógicas.
Uma delas é a do indivíduo, do justiceiro sem nome, do homem silencioso e, principalmente, a coerência do próprio silêncio, tão cara ao faroeste. A pessoa de poucas palavras aqui não é John Wayne, Clint Eastwood ou Charles Bronson. Nem Lunga. Não há uma torcida por um protagonista dominante que destroça os invadidos, nem por um povoado invadido que resiste aos invasores. O filme não dá indícios de que deseja estimular uma grande empatia do espectador com relação aos personagens principais. É difícil até identificar de quem é o protagonismo. Se ele está na personagem que vai do início ao fim, é importante pontuar que seus conflitos internos envolvem uma hesitação diante de quem pode ser visto como um diabo glauberiano, e que também é um parceiro. O estadunidense Bill representa, ao mesmo tempo, um companheiro de expedição e um antagonista, alguém com quem ele vive uma guerra fria, um conflito externo. Já o conflito com o abstrato é notável na força de uma sociedade calcada – ainda mais no início do século XX – em um lógica eurocêntrica e racista. No fim das contas, exceto no final, as principais ações do protagonista são escutar e observar. Mesmo o instante de exceção, quando se incentiva sua fala, é inusitado. Quão indivíduo consegue se mostrar esse ser humano?
No Chile, assim como em tantos outros países, a discussão sobre raça, história e nação caminha com termos e parâmetros próprios. Uma expressão dita no filme menciona que o país seria formado por “chilenos, colonos e indígenas”, mas o desenlace leva a própria categorização (europeus, colonos e indígenas) a ser questionada. O que fazer quando essa lógica da tripartição é insuficiente?
O grande trunfo de Los Colonos talvez não esteja na fábula que entrega (histórias oficiais não são um reflexo, mas sim um recorte parcial da realidade), mais uma a inverter pontos de vista sobre histórias violentas e destacar personagens subalternizados (embora essa escolha seja admirável, ela sozinha não sustenta um bom filme), mas sim nas pequenas provocações que estimula através de uma construção narrativa e um domínio de linguagem audiovisual que fogem do ordinário. A forma que o filme escolhe para contar seu relato é – assim como as histórias oficiais – também parcial, artificial, inventada e, ao mesmo tempo, fiel a uma realidade factual, que em muitos aspectos é mais real que uma história oficial. Na superfície, Los Colonos é um faroeste clássico; no seu desenvolvimento, desromantiza e desindividualiza o sangue fundamental à construção de um país. No desfecho, é inevitável perguntar: que país é esse?

Para dialogar
- AFONSO, Leandro. ______. Um céu Violeta para quem não tem mundo. In: Rebeca. v. 11 n. 1, 21, pp. 259-278, jan-jun, 2022. Disponível em: https://rebeca.socine.org.br/1/article/view/835/513.
- BENGOA, José. Historia del pueblo mapuche (siglo XIX y XX). Santiago: Ediciones Sur, 1985.
- PALLOTTINI, Renata. Dramaturgia: a construção do personagem. São Paulo: Editora Ática, 1989.











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