"Bacurau": Um caminhão pipa crivado de balas

Críticas Gerais

Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019)

por Leandro Afonso

 

Uma carta prepotente, desleixada e cheia de mentiras, classificou o jornalista Fernando de Barros e Silva. “A pior violação da soberania brasileira na história republicana”, resumiu o cientista político e doutor em sociologia Celso Rocha de Barros. As palavras de ambos, no Foro de Teresina do último dia 11, se referem ao texto que Donald Trump endereçou à presidência brasileira. O ato é o sinal de um país historicamente imperialista que manifesta seu desejo de expansão territorial e tenta interferir em áreas que não lhe dizem respeito, isto é, nos Poderes de outras nações. A afronta à autodeterminação de um povo é violenta. Esse contexto fez com que aparecessem desde então muitas menções a Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019), que – na sua ficção científica histórica e profética – conta a história de um lugar que sofre com a ingerência de gringos invasores.

A sinopse do filme pode ser assim resumida: o povoado de Bacurau se reúne para o funeral de sua matriarca, dona Carmelita (Lia de Itamaracá). Dias depois, seus habitantes começam a perceber acontecimentos estranhos. Um drone passeia pelo céu, um caminhão pipa é crivado de balas, motoqueiros com sotaques estranhos aparecem na cidade. Tiros e cadáveres se tornam mais comuns. Há, de fato, uma invasão. Como ela será resolvida?

O início de Bacurau – comentado no texto sobre A Nave que nunca pousa (Ellen Morais, 2025) – não é nada novo: mostra o oeste Pernambuco como um lugar pouco urbanizado, com falta de água, onde se vê caixões, uma escola em ruínas e descobre-se haver um fugitivo. É um espaço de pobreza, morte e escassez. Aí está um reducionista e estereotipado imaginário de Nordeste brasileiro, aí está o povoado.

O desenvolvimento da história, porém, transcende e ressignifica não só determinados clichês, mas também gêneros cinematográficos.

 

Muitas prateleiras

Uma cartela indica que o longa se passa daqui a alguns anos, com formas de comunicação e transporte que não são conhecidas assim hoje: aí está uma ficção científica. A história muda com a presença de duas pessoas forasteiras – João e Maria (Antonio Saboia e Karine Teles) definitivamente não parecem ser nomes verdadeiros – não identificadas, responsáveis por quebrar uma certa harmonia daquele espaço com regras próprias: o filme é também um faroeste. A relação que o longa desenvolve com o medo e a morte, o sangue e o monstro (coletivo), seguramente o colocam também na intersecção do suspense com o horror.

Muito já se falou da crítica que o filme faz a uma certa branquitude sul-sudestina, naquela que de fato é uma das melhores cenas do longa, onde fica evidente que a lógica racial é relacional. Também já se criticou Bacurau como uma celebração da barbárie. Embora possa se reconhecer no filme uma certa estilização e celebração da violência, é fundamental contextualizar: de onde vem e como vem a violência inicial?

Os supostos João (Antonio Saboia) e Maria (Karine Telles) se descobrem…

Ora, “se for, vá na paz”, é o cartão de visitas da cidade impresso na placa de sinalização. Quando Tony Jr. (Thardelly Lima) – prefeito de Serra Verde, onde está inserida Bacurau – aparece, a população se comunica entre si para que ninguém o veja. Ele é capaz de despejar livros como lixo, compartilhar medicamentos e mantimentos com prazo de validade vencido. Pela sua incompetência, pela sua negligência, pelo desrespeito, ele é criticado e xingado. Quando duas pessoas estranhas aparecem na cidade com hábitos, perguntas e ações suspeitas, em uma conjuntura de acontecimentos misteriosos, elas são recebidas com desconfiança. A Tony é dado o direito de seguir sua vida, às forasteiras é dado o benefício da dúvida. Só quando a primeira pessoa é assassinada sem razão aparente que o povoado reage. Bacurau não é violeta, ela se recusa a ser passiva.

Outra pergunta válida é: por que a violência vem? “Estou aqui pelos números”, diz um dos invasores. O grupo de gringos liderado por Michael (Udo Kier) é um apogeu do individualismo: tudo faço para conseguir meu objetivo, não importa a consequência alheia. A violência vem pelo prazer de competir individualmente a qualquer custo, pelo deleite de brincar com a vida alheia como se estivéssemos em um videogame.

Quem ganha com essa violência? Fica evidente que a lógica do indivíduo não era tão individual assim. Ela serve para Michael e seus parças. Mesmo aquele que vai se mostrando, pouco a pouco, apenas mais um lutando por números, transformando pessoas – inclusive aliadas – em estatísticas como se fossem prêmios em uma roleta de cassino, já estava envolvido em uma parceria obscura. Esse alinhamento, logicamente, resultaria em dinheiro para ambos. Quem ganha com essa violência? Aquela pessoa que é capaz de atirar – ou apoiar tiros – em um caminhão pipa.

Em outras palavras, essas pessoas são caricaturas cruéis e corruptas, logo não são bem-vindas em Bacurau. O discurso do professor Plínio, no funeral de sua mãe Carmelita, destaca a pluralidade e os valores da família: “tem pedreiro, cientista, professor, médico, arquiteto, michê e puta, mas ladrão ela não gerou nenhum”.

A luta de Bacurau não é entre nações, não é entre Forças Armadas de cada país, mas sim entre pessoas inseridas em um contexto que, na prática, não conta com o Estado. Bacurau é tirada do mapa, literalmente, mas antes ela já não existia, para o prefeito Tony Jr., concretamente. Seu pensamento era alinhado ao de Michael, que via Bacurau como “uma pequena cidadezinha inocente no cu do mundo”. A fala de Domingas (Sônia Braga) direcionada ao político indica, por outro lado, como aquela comunidade se vê. "Só quero lhe lembrar que puta também vota. A menina não quer ir, mas tu vai levar de todo jeito, não é mesmo? Se ela voltar machucada, eu corto teu pau e dou pras galinhas". Não mexa com Bacurau, nem com ninguém de Bacurau.

 

Distopia e comunidade

Outra fala interessante vem de uma criança, quando pergunta: “professor, não precisa pagar pra entrar no mapa, não?". A resposta de Plínio é mostrar o mapa analógico e impresso. Ali está Bacurau e aí está aquele que é dos grandes trunfos de Bacurau: a relação com uma história, com aquilo que não consegue ser apagado ou destruído. No povoado pode até faltar água por causa de político corrupto, mas o Museu Histórico – onde destaca-se uma boa parte do cangaço, outro estereótipo ligado ao Nordeste e a seu cinema – segue de pé. Na escola, estuda-se música e vive-se a Semana Vinícius de Moraes. E no filme como um todo, do início ao final, pulsa uma história do cinema.

O museu é fundamental à história do lugar e ao desenlace de Bacurau

A referência a John Carpenter está na música, nas similaridades com Assalto à 13ª DP (John Carpenter, 1976), na escola João Carpinteiro, o que pode ser visto como uma piscadela a um cinema estadunidense, mas também como uma afirmação categórica: o cinema é, também, uma escola. Uma escola que pode propor reflexões, ser divertida e acessível.

Bacurau traz também a mensagem do “senhor Sérgio Ricardo”, o cantor e compositor que compôs músicas para Glauber Rocha. A música de Geraldo Vandré remete aos turbulentos anos 1960, na canção popular e no cinema, com A hora e a vez de Augusto Matraga (Roberto Santos, 1965). O final de Brasil Ano 2000 (Walter Lima Jr., 1969) é a abertura de Bacurau, feito 40 anos depois. Entre os mortos citados no filme, aparece João Pedro Teixeira, o camponês assassinado cuja vida e legado foram o fio condutor de Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, 1984). O professor Plínio e Lunga podem muito bem ser atualizações – menos complexificadas – do professor e de Antônio das Mortes em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (Glauber Rocha, 1969). O instante em que Teresa (Bárbara Colen) olha o que deixa para trás convoca uma lembrança imediata de Glasha (Olga Mironova) no soviético Vá e Veja (Elem Klimov, 1985), talvez o mais espetacular filme já feito sobre a mesma base narrativa de Bacurau: o que acontece quando existe uma afronta à autodeterminação de um povo?

É forçada uma comparação mais profunda entre o longa de Lunga com Vá e Veja, trazido aqui primeiro pela referência fundamental e depois, justamente, pela diferenciação. Bacurau é menos sério e mais jocoso. Se o acerto de contas é simbólico e envolve um poderoso dilema no filme de Klimov, aqui ele é prazeroso e hilariante. O pano de fundo não é a Segunda Guerra Mundial, mas sim uma disputa entre mercenários desalmados e um grupo (que tem prostituta e cangaceiro reinventado, mas não tem ladrão entreguista) que se une pelo bem da comunidade. Aí Kleber Mendonça Filho encerra uma trilogia pessoal de vingança – O Som ao Redor (2012), Aquarius (2015) e Bacurau (2019) – onde conduz o espectador ao posto de apaixonado torcedor de personagem. Essa postura, aliás, é questionada pelo historiador Durval Muniz:

“esse maniqueísmo favorece a recepção do filme por uma esquerda que ainda pensa, muitas vezes, a luta de classes como uma luta entre as forças do bem e do mal, de Deus e do diabo (leitura que Glauber Rocha sempre questionou, para fazermos justiça a ele, embora seus filmes complexos não deixaram de alimentar esse imaginário). A luta entre imperialistas e nacionalistas, a luta entre ianques e brazucas (nacionalismo rastaquera partilhado pela direita boçal), serve de leitmotiv para a vibração de galera de campo de futebol [...]. Será que Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles querem ser os novos Glauber Rochas, alimentando o mesmo imaginário sobre o Nordeste, sobre o sertão que a filmografia glauberiana alimentou e fez circular, com beleza e maestria? Cannes já os reconheceu, talvez porque tenha reconhecido neles a reposição do imaginário do Cinema Novo, em tempos de distopia, e não de utopia”.

A provocação é válida. A distopia não só diminui como ridiculariza o lugar do político, e todos sabemos o que acontece com a despolitização, quando aparece o chavão de “todo político é corrupto”, “todo político é igual”, quando se acredita no discurso do “eu sou um outsider”. Não é absurdo dizer que Tony Jr. abraça um banditismo similar ao de Guaracy em Tropa de Elite 2 (José Padilha, 2010), agredido pelo capitão Nascimento (Wagner Moura), que tem sua ira motivada pelo receio de sua família ser consequência do secretário de segurança pública corrupto. É nessa motivação, contudo, que os filmes se afastam, e que Bacurau fica mais interessante.

Aí está uma ficção científica ideal, onde a ausência do Estado resulta não em um poder paralelo, marcado por grandes abusos internos dentro da própria comunidade, mas sim em uma associação que é capaz de se auto gerir. A população não se une por causa de Tony Jr., mas apesar dele; não se une somente por uma família consanguínea, mas por um lugar diverso. A agressão ao político se baseia não apenas na defesa do privado, mas de um espaço coletivo. Muito mais que um filme partidário, Bacurau sublinha a importância do comunitário. Esse comunitário pode resistir inclusive a Tony Jr., que seguramente apoiaria a pior violação da soberania brasileira na história republicana.

 

 

Para dialogar

- AFONSO, Leandro. D'O Cangaceiro a Bacurau: quatro Nordestes e quatro Cangaços.  SOCINE EM CASA, 4 nov. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VWABrvP8PU0&t=2578s

- FORO de Teresina podcast. O tarifaço e a jogatina. Com Fernando de Barros e Silva, Ana Clara Costa, Celso Rocha de Barros e João Batista Jr. Podcast, 11 jul. 2025. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/radio-piaui/foro-de-teresina/

- MUNIZ, Durval. Bacurau: será mesmo resistência?. Saiba Mais, 15 set. 2019. https://saibamais.jor.br/2019/09/bacurau-sera-mesmo-resistencia/.

 

Comentários 1

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Priscilla Huapaya19 de julho de 2025
Texto maravilhoso!!!Analisei Bacurau no mestrado e achei sua análise incrível!!!Com esse senhor Laranja nos perturbando lembrei muito de Bacurau tb!!

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