Desafios perenes da Ficção Científica no audiovisual
IndústriaÉ provável que, ao ler o título deste artigo, seja automático associar essa ideia aos caminhões de dinheiro gastos em grandes produções. Faz sentido, claro, já que qualquer obra audiovisual envolve um custo considerável, algo multiplicado quando isso envolve trazer mundos fantásticos para as telas. Porém, apesar do fator financeiro gritar nesta discussão, ela vai muito além desse quesito, que, antes de mais nada, passa pela própria percepção geral do que é Ficção Científica de fato. Para estúdios e executivos, buscando minimizar riscos a todo custo, o caminho natural é levar em conta aquilo que o grande público entende por Sci fi.
Como arte, o cinema acaba atrás de outras mídias pela dificuldade logística e pela necessidade de recuperar investimentos gigantescos. Não é uma forma de depreciar a Sétima Arte, mas uma constatação lógica pelo tempo gasto em uma produção e o custo envolvido. Sendo assim, o gênero mais prejudicado e mal interpretado só poderia ser a FC, seja em ideias originais ou adaptações. Existem exceções notáveis, obviamente, mas podemos investigar isso a partir de uma autoridade quando o assunto é roteiro de cinema: Robert McKee.
No livro Story (Arte & Letra, 2017), o capítulo “Estrutura e Gênero”, na página 91,traz a seguinte explicação sobre nosso assunto aqui: “Em futuros hipotéticos que tipicamente são infernos tecnológicos de caos e tirania, um escritor de FICÇÃO CIENTÍFICA frequentemente junta o Épico Moderno do homem contra o estado à Ação/Aventura: a trilogia GUERRA NAS ESTRELAS e O VINGADOR DO FUTURO. Mas, assim como a história, o futuro é um ambiente que qualquer gênero pode funcionar. Em SOLARIS, por exemplo, Andrei Tarkovsky usou a ficção científica para mostrar-nos os conflitos internos de uma Trama de Desilusão.

Embora a explanação seja muito simplista, o autor somente reflete a impressão da grande indústria e, consequentemente, do grande público sobre o assunto. Afinal, sem a intenção de desmerecer qualquer filme/franquia aqui e somente buscando definições melhores, essa ideia da aventura espacial serve muito bem quando se fala em Star Wars, mas o universo criado por George Lucas pende muito mais à Fantasia, apesar da tecnologia característica. Convencionou-se que basta ter naves, raios e robôs para ser FC, o que acaba colocando o gênero em um balaio estranho.
Cabe citar também filmes que tem o espaço como cenário e, só por isso, são confundidos com Ficção Científica, como Gravidade. Sem qualquer tipo de tecnologia extrapolada ou elemento fantástico, esse é um exemplo de que, para muita gente, tudo se resume à superfície na hora de atribuir uma classificação qualquer.
Mas vamos focar agora na palavra “gênero”. Ainda sobre McKee, sua fala também nos leva por outro caminho interessante nesta conversa. A frase “...o futuro é um ambiente que qualquer gênero pode funcionar.” indica a Sci fi apenas como ambientação, incluindo em “futuro” tecnologias extrapoladas dentro de contextos imaginários. Não está errado, de qualquer forma, considerando que ele pensa somente no desenvolvimento deste segmento dentro do audiovisual. Novamente invocando George Lucas, o mesmo declarou há muito tempo, sem trocadilho, que SW era um conto de fadas, e nenhum problema com isso, absolutamente. Só que, então, FC ali seria apenas uma escolha de embalagem.
Fica a indagação sobre estarmos falando de algo que é um gênero de fato ou não, pelo menos em termos de cinema e TV, com muito material para pensarmos nisso. No tempo das locadoras, MIB e Alien talvez fossem encontrados, respectivamente, nas prateleiras de Comédia e Terror, mas ambos têm o Sci fi como elemento fundamental na criação de seus mundos. Mais do que Star Wars, na verdade. No caso de Alien, só para embaralhar mais essa noção, o filme foi aprovado pelo estúdio graças a uma descrição curiosa – Tubarão no espaço – que, apesar da simplificação, não deixa de ser verdade.

Definida essa dificuldade de classificação, voltemos nosso olhar à Literatura, onde essa discussão faz pouco sentido, mas norteia o raciocínio a partir daqui. A própria estrutura escrita e o esforço que ela demanda já estimula mais ousadia e saltos conceituais, em casos onde não é necessário apelar para elementos como ação ou romance, levando o público a catarses mais intelectuais do que emocionais. Algo que pode não ser tão apreciado quando projetado em uma tela, prejudicando o investimento de porte para realizar a visão de diretores/roteiristas. O filme Contato, de Robert Zemeckis, é ótimo e um excelente exemplar de cinema Sci fi, mas, ainda assim, fez suas concessões emocionais no roteiro em relação ao final do livro.
Na pura acepção do termo Ficção Científica, o melhor representante talvez seja 2001: Uma Odisseia no Espaço, abrindo mão de jornadas individuais para nos deslumbrar em uma auto reflexão como espécie, com várias interpretações possíveis a partir de seu final. Uma produção cara e ambiciosa que merece a definição, mas, engrossando o caldo, que tal agora um filme muito diferente, sem qualquer efeito especial e que é tão Sci fi quanto em sua proposta?
Feito para TV em 2007, O Homem da Terra mostra a festa de despedida de um professor entre seus colegas, quando o mesmo lança a ideia de ser um imortal com milhares de anos. O que se segue é a argumentação de todos em torno do suposto absurdo da ideia, e a contra argumentação subsequente. Pobre no visual, mas riquíssimo no conteúdo, o longa comprova o poder de um conceito para um público afeito ao exercício do pensamento, na contramão de seu potencial comercial. Como reagiria a ele alguém que, como citado anteriormente, espera da FC somente naves, raios e robôs, embalados em muita ação e aventura?

Longe de ser um caso isolado, o cinema independente se vira como pode, compensando a falta de recursos visuais com muita criatividade. No mesmo ano, o espanhol Crimes Temporais mexeu com paradoxos de viagem no tempo de forma muito criativa, usando os quadrinhos ingleses da revista 2000 AD como inspiração. Dentro da mesma temática, Primer chegou antes deles, em 2004, desafiando o público a acompanhar as idas e vindas dos personagens entre espaços curtos de tempo.
Os três exemplos são filmes que já tinham as dificuldades de seu contexto à vista durante a elaboração. Nenhum deles precisou de qualquer efeito especial para funcionar, uma ironia quando pensamos em grandes produções duvidosas, como Eu, Robô, com Will Smith. Novamente, não ignoro os esforços que deram origem a algo bom, no mínimo, mas o cinema de Ficção Científica ainda lida com a inversa proporção entre realizações e intenções, essas últimas naufragando muitas vezes na interferência dos estúdios, cada vez menos dispostos a riscos.
É óbvio que visual belíssimo e profundidade não são incompatíveis, mas as condições de trabalho dos artistas acaba levando-os a essa encruzilhada. Graças ao crowdfunding, no entanto, temos uma iniciativa como Blood Machines, média metragem francês de 2019, criado a partir do videoclipe Turbo Killer, de Carpenter Brut. Feito com muito arrojo, emulando os grandes quadrinhos da revista Metal Hurlant, é um trabalho disponível no Prime Video no momento em que esse texto é publicado e um colírio para qualquer fã de Sci Fi.
Difícil dizer se ali insinuava-se uma tendência para esse modelo de produção, já que a pandemia veio logo depois e pode ter detido algum esforço nesse sentido. De qualquer forma, não deixa de ser animador assistir a algo assim no momento, quando existe tanta dificuldade em viabilizar ideias originais envolvendo o fantástico. Veja e tire suas conclusões.
Mas veja primeiro o clipe Turbo Killer, a seguir:





















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