BLACK ANGEL – Uma parte pouco conhecida da história de Star Wars
CuriosidadesStar Wars é uma franquia que já foi tão explorada e maltratada pela Disney, o que acaba gerando tanto conteúdo para todo lado sobre ela, que dá até um certo cansaço ler um texto sobre isso, não é mesmo? Não que ela estivesse muito melhor com George Lucas, mas a verdade é que a primeira trilogia lançada, gostando ou não dela, estava dentro de um contexto que ainda vale a pena discutir. Não apenas pela sedimentação do conceito de blockbuster no cinema comercial, como também pela evolução dos efeitos especiais e o maior interesse em produzir filmes com temática fantástica.
A década de 1970, falando sobre a cultura de uma forma geral, tem contradições peculiares. Se a primeira linha de Hollywood vinha numa pegada mais pé no chão e dramática, mesmo que os orçamentos aumentassem progressivamente, também se produziu muito Sci Fi. A época estava impregnada de visões do futuro dos mais variados tipos, ao mesmo tempo em que a Fantasia também ganhava força e teria sua onda na década seguinte, de certa forma. Claro que 1977 é um ano decisivo para esta discussão, pois o mundo foi varrido pela estreia do ep. IV de Star Wars, inspirando um sem número de rip offs e outros esforços audiovisuais de Ficção Científica, embora a criação de George Lucas pendesse muito mais para... Fantasia. E esse é o tema central do texto que você está lendo.

Enquanto muitos filmes iam ao espaço ou para contextos tecnológicos extrapolados, o fim dos anos 1970 mostrava algum interesse secundário por aventuras onde a magia fazia parte da lógica interna. A cultura pop geral já ia nesse caminho, com a visibilidade e influência dos quadrinhos franceses e o Conan publicado pela Marvel, cujo sucesso leva à produção do filme de 1982 com Arnold Schwarzenegger. Antes disso, os filmes com o stop motion de Ray Harryhausen marcaram época, O Senhor dos Anéis já havia ganho uma animação de Ralph Bakshi e até Terry Gilliam mostrou uma Idade Média fantasiosa em Jabberwocky: Um Herói Por Acaso.
No fim, podemos especular que o apelo e sucesso avassalador de Star Wars se deve por trazer elementos das duas vertentes. Essa relação fica ainda mais clara quando pesquisamos entre os já citados rip offs. Entre eles, encontramos o curioso O Falcão Justiceiro (Hawk The Slayer, 1980), tão facilmente classificável como um exemplar de espada e feitiçaria quanto relacionável com Luke Skywalker, Darth Vader e cia. Aquele foi um bom momento para tentar lucrar com a moda de SW, pois também foi o ano de lançamento de O Império Contra-Ataca, que tem uma relação muito próxima com Black Angel, um curta metragem de 25 minutos que quase desapareceu por completo, apesar de atrelado a uma marca forte como essa.

Escrito e dirigido pelo britânico Roger Christian, o curta foi veiculado antes das exibições de O Império Contra-Ataca em algumas regiões da Europa e na Austrália. Não foi incluído nas sessões dos EUA, pois a prática de exibição prévia de curtas já havia sido abandonada. Ambientada na Escócia, a história acompanha Sir Maddox, um cavaleiro que volta das Cruzadas e encontra sua terra devastada por uma invasão, com poucos sobreviventes contaminados por uma praga. Rastreando os invasores, ele quase se afoga em um lago, quando é misteriosamente salvo por uma donzela de branco, que diz estar sob o poder do Anjo Negro. Então, ele assume a tarefa de libertar a donzela, enfrentando essa entidade sobrenatural.
Black Angel foi aprovado e apadrinhado pelo próprio George Lucas. Afinal, Roger Christian foi um dos responsáveis pela direção de arte do primeiro filme de Star Wars, ganhando o Oscar por esse trabalho. Também ocupou essa função em Alien: O Oitavo Passageiro, indicado ao mesmo prêmio. Um profissional respeitado na função e bem relacionado, mas que almejava o cargo de diretor. Por isso, ele aproveitou a produção de Alien para aprender o máximo possível com Ridley Scott, mas sua sorte mudou durante a pós produção do filme, durante as sessões de mixagem de som no estúdio Abbey Road, em Londres. Quando Sanford “Sandy” Lieberson, chefe da divisão britânica da Fox, apareceu por lá, perguntou a ele sobre projetos em andamento. Era a deixa para falar de forma geral sobre sua ambição e a história do curta, que interessou ao executivo a ponto de pedir mais detalhes, que recebeu por fax no mesmo dia. Naquela noite, Lieberson telefonou para Christian, perguntando se poderia mostrar a George Lucas. Obviamente, ele consentiu na hora.

Em uma feliz coincidência, Christian ficou sabendo que Lucas já havia pedido à Fox um curta metragem de 25 minutos para ser exibido antes de O Império Contra-Ataca. Algo que não fosse tão diretamente relacionável com aventura espacial, mas que evocasse o tom de fantasia e o tipo de histórias que inspiraram SW. Quando leu o roteiro de Black Angel, deu sinal verde sob as condições de ser o primeiro a ver o corte final e que o estúdio não interferisse de forma alguma no trabalho do aspirante a cineasta.
Iniciada essa produção, a falta de experiência de Roger Christian pesou, principalmente em termos de administração de gastos com um orçamento apertado. Por sorte, recebeu sobras de rolos de 35 mm da produção de O Império... e teve acesso a ótimas locações, como o castelo Eilean Donan. Voltando a Londres, mais problemas, pois seu montador percebeu que não havia material suficiente para honrar o compromisso de 25 minutos de duração. A solução para alongar a narrativa foi a técnica de step printing, repetindo quadros para criar um efeito interessante de slow motion. George Lucas gostou tanto que ordenou que o recurso fosse utilizado no novo capítulo de sua franquia, na cena da caverna.

Finalizada a produção, o curta conseguiu capturar o clima de fantasia arturiana esperado. Foi aprovado e elogiado pela sua relação com os mitos que permearam a criação de Star Wars, evidenciando que havia um elo temático entre eles. A história sobre o desaparecimento do curta é um tanto mal explicada, já que Christian diz que o negativo original e sua única cópia eram mantidos pela London’s Boss Film Studios, que foi à falência na década de 1990 e teria jogado seu acervo no lixo. Difícil acreditar que nem a Fox ou a Lucasfilm teriam uma cópia reserva, mas essa é a versão oficial e ele teve que se conformar com a ideia de que seu filme havia sido perdido.
Em 2011, um arquivista da Universal Studios descobriu uma cópia em seu depósito e entra em contato com o diretor, que também não entendeu como o único negativo existente foi parar ali. Independente disso, a notícia do ressurgimento de Black Angel atraiu David Tanaka, editor de efeitos especiais da Pixar, e Brice Parker, produtor na Athena Studios, que se dispuseram a restaurá-lo digitalmente para exibi-lo no 36th Mill Valley Film Festival. Quem se ofereceu para resolver a parte sonora foi a Skywalker Sound, divisão da própria Lucasfilm. Algum tempo depois, o trabalho foi publicado na íntegra no YouTube, com apresentação do seu criador.
Black Angel é bom mesmo? Vale a pena ver?
Quando nos deparamos com esse tipo de curiosidade fílmica, vem a pergunta inevitável sobre sua qualidade. Muitas vezes, a história ao redor de uma obra é muito mais interessante do que ela mesma, mas, felizmente, Black Angel também tem méritos artísticos inegáveis. O diretor acertou no clima e na ambientação onírica, inspirado por Tarkovsky. Por isso mesmo, não é algo que você esperaria ver associado a um produto típico da cultura blockbuster, pois a preocupação maior é com um tipo de imersão mais contemplativa e seu conceito caberia perfeitamente em um conto de Lord Dunsany ou Ambrose Bierce.
O visual é um show à parte, tornando-se uma influência evidente – comentada por Christian, mas nem seria preciso – para John Boorman em Excalibur. A direção de arte, como não poderia deixar de ser pela experiência do diretor, é muito bem resolvida e trabalha em harmonia com a excelente fotografia. A história tem seu arco dramático definido, mas permite interpretações, trabalhando com um ritmo eficiente que faz pensar se não poderia ter rendido um longa posterior neste universo. Até poderia, mas essa não foi uma carreira das mais vitoriosas.

Depois de Black Angel, além de trabalhos como diretor de segunda unidade, ele não dirigiu filmes de expressão, embora conte com mais de vinte créditos, exceto talvez por um que não é conhecido pelos motivos que um artista desejaria ser lembrado. É dele o mega fracasso constrangedor chamado A Reconquista, onde John Travolta comprometeu seu prestígio como ator. É realmente uma pena que sua carreira não tenha decolado, mas o curta promissor – aliás, seu trabalho melhor avaliado no imdB – teve uma notícia interessante veiculada em 2015, época em que foi disponibilizado na internet. Através de financiamento coletivo via Indiegogo, Christian esperava realizar um longa metragem derivado desses conceitos.
Tanto tempo depois, no momento em que esse texto é publicado, ainda consta em sua página do imdB um filme em pré produção chamado The Sword of Thyrus, que seria o longa em questão e a primeira parte de uma trilogia. No elenco, Toby Kebbel e Tchéky Karyo, o segundo falecido neste ano, o que deve complicar ainda mais essa produção, se ainda existir alguma chance para o filme acontecer.
Enquanto isso, se você ainda não conferiu Black Angel, aproveite agora para conhecer este belo trabalho, que só aconteceu graças a Star Wars e permanece como uma curiosidade interessantíssima na trajetória de George Lucas e do cinema Hollywoodiano como um todo. Independente da carreira de Roger Christian, aqui ele tem algo para se orgulhar.














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