O Famoso Zé do Picadinho

Mistério

Este conto foi baseado em uma lenda urbana mencionada no desenho animado “Bob Esponja Calça Quadrada”, criado por Stephen Hillenburg, durante o episódio “Turno Macabro”, dirigido por Hillenburg e escrito por Jay Lender, Dan Povenmire e Mr. Lawrence.

 

É final de verão do ano de 1975. O asfalto nas ruas continua quente como uma chapa fervendo, alterando o humor de todos os moradores da pequena cidade litorânea de Greta de Maio, ou “Greta do Maiô” para os íntimos cidadãos de longa data, familiarizados com o clima praiano do lugar. Qualquer motivo é desculpa para descontar a raiva que a alta temperatura está causando nas pessoas. Brigas no trânsito, demoras em filas de banco, pedidos errados nos restaurantes, tudo está um caos e à flor da pele. Neste cenário, encontramos um grupo de adolescentes, aterrorizados, fugindo de uma hamburgueria abandonada, situada na periferia da cidade, pois ouviram um grito desesperado vindo da cozinha cuja parede escancarava a palavra “CORTE” escrita com sangue. Este grito ecoa em todos os cantos do estabelecimento ao eternizar o massacre ocorrido há 6 anos, fazendo com que a chapa nunca se apague. A fumaça vai se espalhando pelo salão, e podemos visualizar a imagem distorcida de um tímido chapeiro, com sua mão decepada sangrando, sozinho na cozinha, aos prantos, gritando um nome sem parar… Enquanto sangrava constantemente, suava como o óleo de sua cozinha, pois o ar condicionado do estabelecimento não funcionava há anos. Isto o frustrava muito, pois já havia avisado sobre o problema do aparelho há muito tempo para seu chefe. Abalado, começa a refletir sobre sua vida num looping projetado por toda a fumaça fantasmagórica que preenchia aquele amaldiçoado lugar. Voltemos um pouco no tempo…

 

Amigável e honesto, José sempre foi conhecido na região como um garoto prodígio. Era o orgulho da família, tirava notas boas, ajudava nos afazeres de casa e, o melhor de tudo, sempre cozinhava pratos novos e sofisticados nas festas de final de semana, porém dentro da escola a realidade era outra. 

 

Por conta de sua gagueira, sofria bullying dos colegas de turma toda vez que tentava responder alguma pergunta dos professores. Foram vários atos de violência física e emocional, como desorganizar e vandalizar todo seu material durante o intervalo, enquanto era encurralado no banheiro pelo pior valentão de sua época, o sádico Léo, que o obrigava a provar água do vaso sanitário para “ver se estava muito salgado, pois o calor o deixava com fome, e precisava encontrar o ponto perfeito… e ninguém melhor que o mestre cuca mirim para resolver isso”. Sempre que José voltava a controlar a náusea que sentia após o ocorrido, visualizava no reflexo do espelho o sorriso impetuoso de Léo. A maldade era tanta que acabou causando muitos traumas na vida de José que, como numa tentativa de retrair seus sentimentos, e escapar da necessidade de se expressar em público, decidiu não se abrir para novas amizades se fechando cada vez mais na cozinha, especializando-se principalmente na área de hambúrgueres. 

 

Os anos foram passando e José se tornou muito bem sucedido no meio gastronômico de sua cidade, porém longe dos holofotes. Apenas os profissionais cozinheiros sabiam de seu talento e dedicação, principalmente no seu prato principal: um sanduíche de picadinho de filé mignon, aguçando a curiosidade de todos os consumidores em saber da autoria da última sensação de Greta do Maiô. “Não sei, é do Zé do Picadinho mesmo”, as ruas diziam, num tom debochado como quem diz “fulano”, “joão-bobo” ou, de modo irônico, “zé-ninguém”, até porque ninguém sabia que ‘José’ realmente era seu nome. 

Até que certo dia, José escuta que o restaurante estava sendo vendido para um poderoso empresário local e o nome soava muito familiar… era Léo, seu antigo colega de turma que o traumatizou por anos no colégio. A princípio, o chapeiro ficou extremamente preocupado, desenvolvendo diversos episódios de crise de ansiedade. No entanto, quando Léo se apresentou para todos os funcionários, tranquilizando-os que ninguém seria demitido, chamou José para sua sala e revelou que estava muito realizado em ser dono de um dos melhores restaurantes da região. O novo patrão, então, continuou enfatizando o quanto o hambúrguer de José era cultuado por todos da cidade, e o parabenizou por todo esse aperfeiçoamento técnico cujo início acompanhou de perto. Desconfiado, José não sabia muito o que falar, começou a gaguejar instantaneamente - o que fazia tempos que não acontecia - agradecendo os elogios, e falando que precisava voltar ao trabalho. Conforme os dias foram passando, os dois ex-inimigos começaram a criar uma relação forte de cumplicidade e parceria, principalmente diante dos problemas diários que apareciam no estabelecimento, com apoio e conselhos mútuos. Tudo estava se encaminhando bem…

 

Até que chegou o verão de 1969, e o calor estava ficando cada vez mais forte, fazendo toda a população ficar furiosa facilmente por conta do estresse gerado pelo clima. José começou a perceber um barulho estranho no ar condicionado e foi logo avisar Léo sobre o problema. Este, por sua vez, não dá ouvidos, alegando não ter caixa o suficiente para resolver essa questão, até porque não tinham verba para consertar nem as lâmpadas que acendiam e apagavam o tempo todo, nem a porta da frente que vivia emperrada. Os dias quentes passam, e aquela relação amigável começa a se transformar em pequenas alfinetadas por parte do patrão.

 

Certa vez, no turno da noite, algum cliente reclama do pedido. Isso nunca tinha acontecido antes. O cliente, assíduo inclusive, reclama com o gerente dizendo que o gosto não está como antes e, então, pede para falar com o dono. Léo se apresenta prontamente ao ser solicitado. O cliente pergunta se havia alguma mudança na cozinha. O dono fala que não, que o chapeiro continua o mesmo José de sempre. Nisso, José visualiza tudo com tensão do lado de dentro da cozinha. O cliente, então, menciona um gosto parecido com produto químico de limpeza, normalmente usado em banheiro. Neste momento, todos os consumidores no salão começam a tossir e a reclamar que o gosto realmente está diferente dessa vez. José percebe o tumulto e começa a ficar desesperado, até que Léo anuncia para todos os presentes no restaurante “Faço questão de chamar o verdadeiro responsável por isso”. Até que ele busca José à força e completa pedindo desculpas para todos, dizendo: “Conheço José desde a infância e achava que ele já havia tratado desse problema”. Um senhor revoltado, sentado próximo à porta questiona “Qual problema?”. Léo responde: “José sempre teve um distúrbio alimentar que o fazia mastigar e ingerir coisas que não são alimentos, até que provou a água do vaso sanitário da escola um dia e gostou, começando a fazer isso todos os dias… Eu sempre tentava ajudá-lo, mas ele insistia pois queria ser um grande cozinheiro e precisava conhecer todos os sabores possíveis. Acho que ele quis tentar um novo tempero hoje”. Nesta hora, foi um grande misto de emoções no estabelecimento, de pessoas enfurecidas xingando todas as gerações do chapeiro até pequenos grupos gargalhando da situação ridícula e inusitada que se encontravam. José, incrédulo, olha para um Léo sorrindo, ativando memórias das quais ele pensava já estar conseguindo superar. A faísca que faltava, em meio aos 38°C da ardente Greta, chegou arrebatadora na última frase de Léo à seu rival de longa data: “Tá calor, né Zé?”. Aquilo ativa uma raiva ardente e incontrolável em José fazendo com que o inerente ataque acontecesse. José golpeia, incansavelmente, o rosto de Léo com sua espátula repetidamente. O sádico consegue escapar por um breve momento para se defender com uma faca, até cortar a mão direita de José com um golpe ligeiro. Todos ficam horrorizados, gritam pedindo socorro e tentam fugir pela porta, mas sem sucesso. A porta não se abria de jeito nenhum… 

Àquela altura, os olhos de José estavam absurdamente avermelhados como sua espátula ensanguentada que, um dia, já esteve brilhante e reluzente e, agora, se tornava sua arma de sentença. Essa mão… essa espátula, com toda sua violência, acaba dando seu golpe fatal no peito de Léo, que morre agonizando lentamente. É como se tudo que José guardava até aquele ponto, estivesse sendo vomitado de uma só vez, começando a falar com dificuldade devido à sua gagueira: “V-v-vocês nunca quiseram saber meu n-n-nome! Vocês nu-nu-nunca sequer quise-quiseram…”. O senhor ao lado da porta, impaciente, gritou: “Assassino! Não sabe nem falar direito e acha que vai sair impune?”. Foi, então, a última reclamação daquele senhor, pois José não teve nenhuma piedade ao cortar sua garganta profundamente com sua espátula mortal. E, assim, foi o massacre. Ninguém daquele restaurante conseguiu escapar da fúria, por anos adormecida, de José, agora autointitulado Zé do Picadinho, fazendo jus à alcunha. Depois de banhar todo o salão com o sangue dos clientes, Zé escapou desesperado quebrando a porta do restaurante, correndo para a rua sem visualizar nada com nitidez. Até que um ônibus em alta velocidade o atropela. Zé morre instantaneamente. A população juntamente com a polícia começam a movimentação para tentar entender o que aconteceu naquela noite.

 

A partir disso, todo final de verão, funcionários de todos os restaurantes e lanchonetes da cidade contavam essa história de forma bastante teatral como uma maneira de manter a lenda sobre o “famoso Zé do Picadinho” viva, assustando todos os curiosos que tentavam visitar o velho estabelecimento, agora fechado. As luzes começavam a piscar, barulhos estranhos surgiam do nada, e sempre que alguém saía de um ônibus misteriosamente, muitos sentiam medo, pois podiam jurar vislumbrar a silhueta do assassino rapidamente.

 

É final de verão de 1975, a imagem distorcida do famoso Zé do Picadinho reflete sua própria história ao olhar para sua espátula que, um dia, já foi sua parceira para fugir da realidade árdua do mundo e, hoje, é lembrada como sua marca assassina. Sua presença sobrenatural curiosa escuta sua história ser contada em um restaurante, no turno da noite, por um funcionário tentando assustar seu colega de trabalho, chapeiro por sinal. O fantasma de Zé surge na forma de uma outra figura assustadora para aterrorizar seus colegas de profissão. Quem sabe algum representante gótico do expressionismo alemão? Ele não sabe ainda. Mas sabe que seu fardo agora é esse. Manter a lenda viva, sem matança dessa vez, apenas para assustar, fazer as pessoas provarem da gagueira nos momentos de desespero só por diversão. Pelo menos, por enquanto, pois nunca se sabe o que pode acontecer no próximo final de verão, num calor de matar.

Comentários 5

L
Lautaro30731 de agosto de 2025
Um desses casos estranhos em que alguém apoia o assassino haha, ótima história, parece uma história para assustar as crianças para que elas não pratiquem bullying.
E
Elvi perez frias19 de agosto de 2025
Gostei do seu artigo e deixei todo o meu apoio.
A
A Krítica | Kauã Petean18 de agosto de 2025
Zé do Picadinho fez parte da minha vida! Incrível!
G
Gabriella Moreno16 de agosto de 2025
massa 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
G
Gabriella Moreno11 de agosto de 2025
Caracas que medo

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