Diretora negra tem estreia promissora com Is God Is (Ardente Vingança)

Críticas Gerais

O longa de estreia de Aleshea Harris, adaptando sua própria e aclamada peça teatral, estabelece sua dinâmica dramática logo de cara em uma abertura em preto e branco que ilustra perfeitamente a relação emocional entre as duas irmãs ainda crianças. Quando um grupo de crianças hostiliza Anaia por conta de suas cicatrizes de queimadura, é Racine quem parte para a defesa física. Essa breve sequência desenha a dinâmica entre as duas personagens que irá acompanhá-las pela trama inteira: enquanto uma irmã opera como o núcleo puramente emocional e vulnerável da dupla, a outra assume o papel da violência reativa (ela é quase a "mão direita da perdição" e aqui talvez eu entregue um pouco do meu lado leitor de quadrinhos). Elas são duas metades complementares de um mesmo trauma.

A partir desse ponto, o longa assume uma estrutura de road movie que remete diretamente a filmes de vingança estilizados como Kill Bill. A missão da dupla é dada pela mãe biológica das gêmeas (a quem elas se referem como Deus), que as envia para assassinar o pai abusivo que quase as queimou vivas no passado, uma figura tratada aqui sob a ótica mítica do próprio diabo. O que torna essa caçada fascinante é o fato de que o pai opera, durante boa parte da narrativa, como um antagonista imaterial, um vilão sem rosto (como era o próprio Bill em Kill Bill). Essa ausência física torna mais potente a aura mitológica do patriarca e transforma a jornada das duas irmãs em um acerto de contas de proporções teológicas, onde a criação se volta contra a própria violência do criador.

O grande trunfo de Aleshea Harris está na resolução de espaços menores e privados. A diretora consegue dar personalidade aos cenários quando eles refletem as mulheres que habitaram essa órbita abusiva. O encontro com a mãe biológica em uma clínica de repouso, cercada por outras mulheres que fazem seu cabelo e unhas enquanto murmuram cânticos, evoca um antro de adoração a uma mártir do sofrimento. O mesmo rigor cênico aparece quando as irmãs encontram a segunda esposa do pai: uma mulher que guarda uma religiosidade oculta, onde o armário de casa é, na verdade, um santuário construído para idolatrar uma versão idealizada daquele homem, revelando como a figura patriarcal permanece sacralizada mesmo após a corrupção de seus atos.

No entanto, é justamente quando precisa operar puramente como cinema que Is God Is revela suas limitações estruturais e esbarra em uma certa preguiça visual. Durante o percurso na estrada, o filme perde o fôlego e cai em escolhas de fotografia e montagem derivativas, onde um plano geral aparece somente para estabelecer a nova locação, seguido por planos médios burocráticos das duas conversando, filmados no tradicional plano e contraplano. Essa decupagem simplista e protocolar não consegue acrescentar nada à relação daquelas personagens com o mundo ao redor, fazendo com que, mesmo passando por ambientes diferentes, todo lugar soe como se fosse o mesmo.

Além disso, por mais que as atuações de Kara Young e Mallori Johnson sustentem dramaticamente o filme, a falta de uma criação de imagens potentes faz com que ele fique muito preso ao seu próprio texto (que, por mais que seja interessante, não o sustenta enquanto obra audiovisual). Um exemplo claro disso rola quando as irmãs confrontam o advogado que livrou o pai da prisão. No diálogo, ele enfatiza a branquitude do pai através da descrição de seus dentes impecavelmente brancos, traçando um paralelo direto entre a figura do agressor e a estrutura social branca que historicamente subjuga as protagonistas. É uma ótima sacada conceitual, mas a potência do momento reside estritamente na palavra, na literatura e no roteiro. A câmera não encontra uma imagem equivalente que traduza essa violência institucionalizada de forma visualmente arrebatadora.

Is God Is é uma estreia na direção que deixa claro um potencial muito forte para o cinema de Aleshea Harris. Contudo, essa é uma potencialidade que talvez só seja plenamente alcançada quando ela decidir se desprender da raiz textual, permitindo que a imagem fale mais alto que o próprio texto.

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