UM RECORTE DE TARANTINO: um comentário de sensações sobre "Bastardos Inglórios" (2009)
Críticas GeraisRecentemente falei com um amigo a respeito da sensação que eu tinha ao ver algumas séries. O exemplo era relacionado a série "Reacher". A sensação em questão era a de que eu não conseguia "sentir" que aquilo era uma série, mas um grande filme cortado em 8 partes. Não sei se é necessariamente um demérito para a produção, afinal ela me agrada em alguns aspectos (outros nem tanto). Mas, acho engraçado pensar que eu sinto o completo inverso ao me deparar com "Bastardos Inglórios". Não um filme, mas uma série. São 13 anos de diferença entre as produções de mídias completamente divergentes. Mas, não sei se é, também, um demérito do filme está sensação. Na verdade, ele trás algumas consequências para a organização daquele mundo.
Recentemente eu pude ler o texto "Da vida das marionetes" de Matheus Cartaxo. Um texto que se apresenta como notas a respeito da carreira de Tarantino. Algo que me chama atenção para esse punhado de notas é a organização de Cartaxo a respeito do como Tarantino transforma seus personagens em bonecos que estão ali para que a sua imagem (não mensagem) se potencialize. Ele fala a respeito do ventríloquo que "brinca e se diverte com as aventuras desses bonecos, contanto que eles não carreguem o peso da realidade ". Isso me faz pensar nessa sequência de filmes especificamente. Uma sequência que eu vejo como um grande parque de diversões do Tarantino. Me refiro a "Kill Bill" (2003-4), "Death Proof" (2007) e, agora, "Bastardos Inglórios" (2009). Vejamos se eu consigo organizar isso.
Tarantino organiza este mundo em três frentes. A história de Shosanna, a dos Bastardos e a dos nazistas, com um pequeno foco em Hanz Landa. As três vão se entrelaçando por coincidências (algo que ele faz brilhantemente em "Pulp Fiction") até o ponto de choque: o cinema. Esse grande palco de contar histórias. Histórias que estão necessariamente no passado e que através da interferência tecnológica, se apresentam no presente instante. O que Tarantino faz aqui não é, nem tem esse objetivo, de ser um filme histórico ou educativo. O que ele faz é tirar da embalagem os seus Max Steel e colocar todos em um grande ringue. Não atoa seus personagem são desprovidos de sentimentos. Não frios, caricatos, indo em direção ao grande combate sem sentir peso algum dos acontecimentos. Até mesmo Shosanna, que talvez fosse a personagem que "deveria" carregar consigo um peso dramático, se mostra uma personagem fria. É uma personagem que tem uma tarefa a cumprir nesse grande tabuleiro com que seu Deus brinca.
É, talvez, algo que me remeta a criação de Grant Morrisson frente ao seu run do "Homem-Animal". Um grande Deus, um autor, criando, deixando morrer e deixando viver quem ele quer. Traçando os atos mais perturbadores frente as imagens para produzir uma peça de entretenimento. Não deveríamos esperar educação, redenção, conscientização... não deveríamos esperar nada na verdade. Ela é o que é. Uma organização de imagens que contam uma determinada história que, talvez, tenha como objetivo nos provocar algo. E esse algo, sim, deveria ser o que poderíamos moldar e, talvez dali, construir algo.
Então, "Bastardos Inglórios" não é um filme histórico. É mais um dos brinquedos disponíveis do parque de diversões de Tarantino. Mérito? Demérito? Isso cabe ao julgamento de cada um, perante sua experiência.
Particularmente não vejo como demérito. Mas é engraçado que, os três filmes que citei, são os que menos me agradam, até esse recorte de 2009. Eu poderia colocar "Cães de aluguel" (1992), mas esse eu não gosto mesmo. Os demais, apenas não me despertam nada, apenas alguns raros momentos de brilhantismo do diretor.
Depois que Tarantino faz seu grande filme, - falo de "Jackie Brown" (1997) - filme que vem após um outro grande momento de sua carreira, "Pulp Fiction" (1994) - algo parece mudar. O autor encontrou seu estilo? Ele consolidou suas percepções de cinema frente ao público? Ele se provou algo? Ele nos provou algo? São questões que me passam pela cabeça a pensar o quão profundos são os personagens de Jackie e as coincidências que amarram a teia de Pulp. Dentro do recorte que fazemos aqui, esses dois filmes parecem ser o grande ápice do diretor. E após esse ápice, ele se permite gozar, desequilibrando tudo, que eu poderia dizer (por achar isso), que estava equilibrado.
Tanto "Pulp Fiction" quanto "Jackie Brown" parecem trabalhar de maneira organizada aquilo que molda o cinema de Tarantino. As coincidências que constituem sua teia dramática. Bem como, a constituição de tensão que explode em violência. Não necessariamente gráfica, ao exemplo de "Jackie Brown", que é seca e crua.
A partir de "Kill Bill" isso parece mudar. Não que exista uma maximização do sentimentalismo de seus personagens. Mas, na verdade, existe uma ausência de sentimentalismo. O sentimento de seus personagens, parecem ficar presos em uma caixa, fazendo com que eles sejam bestas imbatíveis. Raros momentos como o choro de Uma Thurman ao final de "Kill Bill" ou a diálogo do xerife a respeito do gozo do personagem de Kurt Russell em "Death Proof".
"Bastardos Inglórios" parece fazer isso com seus personagens. Os únicos que parecem ter algum tipo de sentimento, que se parecem ser mais "humanos", são justamente os nazistas. Hitler e Goebbels são sentimentais; frágeis; sensível; algo que dentro do cinema de Tarantino parece ser a demarcação da morte. Suas caricaturas, como a de bebês chorões, parece ser à grande ofensa que as imagens de Tarantino dirigem a eles. Um outro personagem, nazista, é o pai de Maximillian. Preso no banho de sangue do bar, tudo que aquele homem quer é ver seu filho que acabou de nascer.
Tarantino humaniza os nazistas, mas mesmo assim os trucida (graças a Deus"!). Cria um jogo próprio onde seus personagens "do bem" não podem ser humanos, pois são suas marionetes que vão realizar seus desejos plásticos. É violência por violência cinematográfica. Pelo prazer de criar belas imagens e de explodir em catarse. O problema é que Tarantino, aqui, não cria belas imagens e muito menos catarse.












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