O AGENTE SECRETO (2025): O amor das imperfeições
Críticas GeraisAcredito ser bastante interessante os efeitos que os filmes de Kleber Mendonça Filho causam em seus telespectadores. Muitos amam e outros muitos odeiam. Seja como for, pouco importa o gostar ou não gostar de um filme. Acredito que para além do gostar, do amar, do não gostar ou do odiar, ou mesmo a pior das sensações, o tanto faz, saber o porquê daquele sentimento estar vindo à tona é o que importa. Para além do pensamento medíocre do “não gostei, é um filme muito longo e com furos de roteiro” ou do “é o melhor filme de todos os tempos, saúdam Kleber”, você conseguir produzir uma ação reflexiva que articule esses sentimentos ao conteúdo e forma à qual o longa se expressa é o mais benéfico para você, o filme e para a discussão ao seu redor.
Dito isso, tento aqui fazer esse movimento reflexivo de maneira mais “frouxa”. Muito mais uma tentativa de organização do que senti e percebi ao longo do filme. Algumas coisas mesmo eu nem sei se me fazem gostar ou desgostar do filme. Algumas coisas tenho para minha pessoa que são desastrosas. E, algumas outras, tenho como belíssimas. E, inclusive, acredito que esse misto de sentimentos é uma prova que o filme “O Agente Secreto”, dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça Filho, é um longa rico ou no mínimo interessante.
- Meu Pai, Seu Pai
Após me envolver pelos não tão longos 161 minutos de filme, seu encerramento provocou algumas discussões entre minha companheira e eu. Ela fez apontamentos, eu rebati alguns, concordei com outros, mas no geral, ficamos surpresos com o como o filme bateu diferente em nós. Para ela, desde seu início, o impacto e senso de urgência de Armando/Marcelo (Wagner Moura) lhe afetou. Algo que me assustou, pois o tal senso de urgência só me ocorre no 3° capítulo do filme, quando temos a sequência no Instituto de Identificação, quando o tiroteio ocorre. Seja como for, em meio a nossas argumentações, ela entende que Armando/Marcelo estava nervoso, ansioso e preocupado desde o momento em que ele parou no posto de gasolina com seu fusca amarelo. Eu já acredito que, somente no momento de confrontação com o pistoleiro, com o perceber que havia sido descoberto, que Armando/Marcelo deixa as coisas fugirem do controle. Até aquele momento, a atuação de Wagner Moura é serena, calma. Frente ao delegado, ele não treme. Ao descobrir que há pistoleiros no seu encalço, ele não treme. Talvez, Armando tenha ficado mais nervoso no retorno a casa, para reencontra o que restou de sua família, do que com o perigo de morte.
Família, Paternalismo, Paternidade, Pai. Pai! Muitos de nós talvez tenha muito a reclamar do relacionamento a qual tivemos com nossos pais/genitores. Seja por sua presença ou por sua ausência. E algo que me chama atenção a ponto de me deixar inquieto, é o como todas as relações a qual o filme estrutura, perpassam por um relacionamento de paternidade e o efeito que, a ausência ou presencia influência seus filhos. Vamos as amostras.
Obviamente, Armando e seu filho Fernando (Enzo Nunes). Seu Alexandre (Carlos Francisco) e seu neto Fernando, bem como o próprio Armando. O pistoleiro Borba (Roney Villela), que assassinou a própria mulher, deixando apenas seu enteado, o qual ele treina para seguir o seu caminho, o Bobbi (Gabriel Leone). O delegado Euclides (Robério Diógenes), que carrega consigo, seu braço esquerdo, o filho da sua esposa, Sérgio (Igor de Araújo), bem como seu braço direito, o filho de criação, Arlindo (Ítalo Martins). Ghirotti (Luciano Chirolli), vindo direto da Petrobrás, junto com seu filho Salvatore (Gregorio Graziosi).
São pais e filhos que juntos passeiam pelo enredo. São pais que, ao exporem seus filhos, muitos choram suas percas. São pais que, ao protegerem os seus filhos, fazem com que seus filhos não os conheçam. Vemos rapidamente a dor de Borba e de delegado Euclides. E vemos, também, o ressentimento que se máscara de esquecimento por Fernando, que mal sabe como o pai foi morto. Que diz mal lembrar de como ele era, mas que lembra do dia que ele se arrumou com sua melhor roupa e ficou na porta de casa no aguardo de seu genitor.
- Um filme político, mas que não trata sobre política
Me recuso a dizer que o eixo político de “O Agente Secreto” é frágil. Ele, na verdade, não existe. Nesse meu primeiro contato com o filme, não vejo Kleber preocupado em esmiuçar o que ocorre com aquele homem. Dentro das poucas informações que temos ali, conseguimos concluir que Armando começou a ser perseguido por causa de uma medição de virilidade com Ghirotti. Esse, ao se sentir desrespeitado pelo “cabeludo” e por sua mulher, Fátima (Alice Carvalho), a qual está impecável em sua pequena participação, passa a querer a cabeça do marido. Não sabemos o que ocorre com o desmanche do departamento a qual Armando tomava conta. Não sabemos o que ele realizou após ser mandado embora, nem mesmo se ele realizou algo. Cria-se uma ideia, que inclusive pode ser muito problemática, de que Armando é só o homem, “pai de família” e “inocente” que mexeu com o homem errado, o que fez com que se torna-se um foragido. Uma crítica válida ao tentar retratar que não só sujeitos ligados aos movimentos políticos eram perseguidos, mas também perigosa. Podemos presumir que Armando é um homem “inocente” que está sendo perseguido e essa mesma ideia, coloca em pauta a existência de homens “culpados”, que pela lógica, merecem tal perseguição.
Sim, temos um núcleo de refugiados. E um núcleo a qual sabemos tão pouco. E que, sinceramente, não me parece ser um problema. Pode ser entendido enquanto uma imperfeição do filme, mas que eu confesso achá-lo belíssimo. Não porque o longa seja um filme sobre a Ditadura Militar Brasileira, mas um filme que se contextualiza e se justifica nesse período. Da mesma forma que filmes hollywoodianos se utilizam de suas tragédias para construírem suas ficções, Kleber usa da nossa para montar um filme de um pai que tenta retornar ao seu filho, mas que vê o Estado e antigos atritos empresárias entrarem em seu caminho. É um filme que funciona muito bem enquanto um suspense, que se dispersa em uma ação que culmina em um anticlímax (esse sim bastante problemático, principalmente por diluir a assinatura do autor). Parece que, para além de uma grande narrativa, e aqui eu vou me contradizer, para além de um filme que se centre em algo, “O Agente Secreto” cria uma diluição do olhar através dos espaços. Algo que, inclusive, nos fascina. Kleber domina como ninguém o como trabalhar os espaços. Composição de luz, dispersão dos personagens em cena, sua decupagem etc, etc. E desse trabalho de espaços a narrativa vai se desmanchando em favor das presenças, dos gestos, dos “lapsos” de afeto que parecem surgir entre uma lembrança e outra. São as distorções de imagem, a própria nostalgia com Recife, a busca pelo documento da mãe, a melancolia ao compartilhar as dores na despedida da casa de dona Sebastiana (Tânia Maria), que de fato, agora entendo todo o furdunço por está personagem. Uma personagem que é trazida por uma atriz que a pouco começou a trabalhar com cinema, chega a aparecer rapidamente em “Bacurau” (2019). Mas, o fascinante de sua presença é, justamente, esse magnetismo que passa uma verossimilhança com a realidade, com aquele pedaço do Brasil dos anos de 1970. É uma personagem que consegue aprofundar direta ou indiretamente o storytelling daquele mundo ficcional. Bem como, quase que, ao contrário das relações dos pais e filhos que terminam em tragédia, sua relação de mãe coloca todos em segurança.
- Reconstrução e as fitas através do tempo
Talvez uma das coisas que mais possa chamar atenção e que, talvez, minimize os efeitos das tais imperfeições que podem surgir, é não só toda a ambientação, como também todo o trabalho de câmera. O início do filme, a onde vemos Armando chegar ao posto de gasolina, o plano em questão me remete a forma como John Ford trabalhava seus horizontes. Um plano aberto, que coloca o céu a tomar metade da tela, projetando o horizonte sobre nossos personagens. Talvez seja um grande exagero meu, ainda mais a título de comparação, trazer um nome como o de John Ford.
Mas, de toda essa reconstrução nostálgica, que passa inclusive pelo cinema (e pelo tema que Kleber tanto adora, o qual já até dedicou “Retratos Fantasmas” (2024)), o qual é repetido várias e várias vezes por Fernando, tanto em sua infância quanto em sua maturidade, vemos um filme que tenta a todo momento resgatar informações já dissipadas pela obra. Seja verbalmente ou através de suas imagens. E se, nesse movimento de vem e vai, tanto das informações, quanto o do passado de 1977 (tão colorido) e o do presente (tão cinzento e sem vida), por que ocorre uma diluição estética? Não é fruto da passagem temporal, mas de uma inconsistência narrativa, de um assassinato de autor que é impossível não lembrar do que Matt Damon fala a respeito de “The Rip” (2026), onde a Netflix (empresa que também patrocina o filme de Kleber) pede para que o roteiro reitere diálogos. Para além disso, possamos até não saber dizer o que é, mas a algo plástico, límpido e sem vida nos filmes da Netflix que é semelhante a todo o desenvolvimento do enredo no presente. Talvez, toda a sequência que se sucede após a ação no Instituto de Informação, na construção de anticlímax, falhe por essa inconsistências que se inicia assim que saímos daquele passado.
- Imperfeições dos arremates
Seja como for, “O Agente Secreto” é um filme cheio de imperfeições e acertos. Assim como qualquer outro. Seu final desastroso e pueril. As diluições narrativas. Os núcleos paternais mal aproveitados. A vida dos anos 70, mapeadas pelas cores vividas. A falta de vida do presente, mapeada pela limpeza estética. O poder dos personagens em nos captar, potencializando cada uma das cenas. Da inicial, com Armando chegando ao posto, até a perseguição na barbearia (como o filme poderia acabar ali). São coisas que podem ser interpretadas como erros ou como acertos. De qualquer forma, são ações que contemplam uma unidade condensadora que se fecha dentro de seus 161 minutos. É tão belo quanto desastroso. Tão desastroso quanto belo.











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