A História do Som e as suas ausências
Críticas Gerais
O som é primordial em qualquer filme, seja através da trilha sonora, ou do que compõe os demais componentes sonoros, como o som das falas (se houver) ou do ambiente ao redor. Portanto, o som é fundamental na forma como compreendemos um filme, tanto a sua aplicação, quanto a sua ausência. Aqui, temos um pouco dos dois.
“A História do Som" é o novo filme do realizador Oliver Hermanus, premiado realizador independente e que, mais recentemente, foi responsável pelo aclamado “Viver” (2022), adaptado do clássico “Ikiru” (1952) de Akira Kurosawa, com roteiro do premiado escritor Kazuo Ishiguro. Essa história, que é baseada no conto do autor Ben Shattuck, quem também adapta essa história para o cinema, trata da jornada de dois homens, Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O'Connor), ambos apaixonados pela música folk e que, em 1917, decidem partir juntos em uma jornada solitária pelo interior do Maine para gravar e preservar as histórias e cantos locais.
Enquanto acompanhamos os dois se aproximando no decorrer dessa viagem, e o vínculo afetivo entre eles se tornando cada vez mais forte, compartilhamos daquilo que os dois falam e escutam, mas também daquilo que fica relegado ao silêncio. Esse algo, o não dito, os aproxima como amigos e amantes, porém é aquilo que gradativamente os distancia.

O conceito japônes do “Ma” — como abordado nos estudos de Michiko Okano, desde 2007 —, que possui uma aplicação marcante dentro do cinema japônes, com Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu um dia e, hoje, mais notavelmente com Hirokazu Koreeda e Ryusuke Hamaguchi, por exemplo, pode ser aplicado perfeitamente a esse filme. O silêncio, aqui, é um elemento participativo da narrativa e se faz presente de forma a ressaltar o sentimento de que algo antes tão presente quanto a música ou o som de uma voz, não estão mais ali.
A produção é marcada por esses momentos, que hora intercala entre o som de um instrumento, que vem como meio de contato e celebração entre pessoas, e outros em que não se tem nada a dizer. A família de Lionel é traço marcante disso, o filme começa com o seu pai tocando uma canção local em sua varanda, em que mesmo vivendo em um ambiente rural, distantes de outras pessoas e subsistindo em um período de escassez no início do século 20, era um momento feliz, uma lembrança que se esvai e deixa um vácuo com a sua morte.
Mesmo assim, esses instantes são o que movem a história adiante, e dão a Lionel um novo propósito de vida, como a sua saída de casa para o Conservatório de Boston, na cidade. O encontro com David, então vem como um alívio, uma escapatória do que ele não tinha oportunidade de ser em sua terra natal, ele poderia se expressar e viver aquilo que havia desejado por tanto tempo, mas os Estados Unidos entram na Primeira Guerra Mundial em 1917 e tudo é interrompido. A volta de David ainda naquele ano, após o seu tempo no exército, suscita momentos lindos, mas leva novamente ao ponto derradeiro desse ciclo interminável.

Esse ponto de constante retorno a Lionel, faz com que ele continue buscando por aqueles momentos especiais, explorando novos lugares e conhecendo pessoas que possam o inspirar de alguma forma a seguir em frente. Porém, quanto mais ele segue e estabelece uma nova vida para si mesmo, o passado ainda o chama.
Ao explorar o que havia deixado para trás e ir, gradativamente, retornando aos espaços que antes compartilhava com a família e amigos, percebemos novamente a falta que faz o som. É nesse momento, que se faz valer a grande missão de suas vidas: as gravações.
Através dos cilindros fonográficos, há uma forma de preservar os relatos que antes só poderiam ser recontados e reinterpretados. Dentro deste simples dispositivo poderia conter tudo o que tem de mais único em uma canção, conto ou pessoa. Um retrato de um momento para a eternidade, podendo de alguma forma oferecer a presença em uma existência marcada por tantas ausências.








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