A Grande Viagem da sua Vida e as portas pelo caminho
Críticas Gerais
Alguns filmes você parece que já sabe o que vai encontrar mesmo com poucos minutos de rodagem, daquela velha história de romance, onde duas pessoas solteiras se encontram e parecem que já se conhecem a muito tempo, e acabam vivendo uma paixão implacável. Aquele clichê que ainda insiste em se repetir.
Mas este, caro leitor, não é o caso de “A Grande Viagem da Sua Vida”, novo filme do diretor Kogonada — depois dos excelentes “Columbus” (2017) e “After Yang” (2021) —, que consegue elevar o clichê de uma narrativa a princípio óbvia e transformá-la em algo diferente. E, nesse caso, fazendo o uso de um simples elemento: a porta.
As jornadas de Sarah (Margot Robbie) e David (Colin Farrell) parecem estar à deriva, depois de relacionamentos frustrados e um histórico que parece não oferecer qualquer chance de um futuro próspero para nenhum dos dois. A partir de um cenário desesperançoso, ambos recebem um curioso convite de um serviço de aluguel de carros, onde o veículo os leva até o mesmo destino: uma festa de casamento.

Nessa festa, é onde ambos se conhecem, distantes e desconhecidos, começam a conversar e perceber as coisas que os aproximam, mas ambos possuem uma variedade de temas que não parecem dispostos a debater. Portanto, esse primeiro encontro não é frutífero e eles seguem suas viagens por caminhos distintos. Mas é nesse ponto que começa a grande viagem de suas vidas.
O veículo os oferece novamente o mesmo destino e mais uma vez se encontram, agora em um restaurante na estrada, onde começam a explorar suas inseguranças. Por meio da fotografia de Benjamin Loeb, é possível explorar mais aprofundadamente as nuances que compõe uma química tão morna no início entre os protagonistas, desde os locais mais bem iluminados e cheio de cores que saltam os olhos e os locais mais escuros e introspectivos. A luz é um fator essencial para aquilo que ambos, mesmo receosos, estão dispostos a mostrar e aquilo que ainda permanece escondido em suas lembranças.
As portas aparecem para demarcar os pontos nodais daquela excursão, os eventos definidores da vida de cada um. A única coisa que fará com que possam ganhar a confiança um do outro é falar. Para que possam se entender, as portas precisam se abrir e os traumas precisam ser resolvidos para que a viagem possa continuar.

As portas, portanto, representam o que há de mais íntimo em um indivíduo. A dificuldade em estabelecer uma relação honesta com o outro vem da dificuldade em falar sobre nós mesmos, sobretudo aquilo que nos atormenta.
Ao aceitar as consequências dessa trilha e os percalços que, inevitavelmente, irão surgir no meio do caminho, é possível de alguma forma crescer e aceitar o propósito daquela viagem. Uma que nunca passa a ser simplória, pois utiliza do simples para evocar os mais puros sentimentos um do outro ao longo da estrada a ser percorrida.
Por fim, aqui a jornada culmina para um desfecho que, possivelmente, tende a ser positivo, onde o casal consegue mergulhar no passado e encará-lo, para que possam trilhar um caminho conjunto no futuro. No entanto, independente de suas escolhas, seja para um final feliz ou não, a certeza é de que outras portas virão.










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