A Odisséia e o DNA de Christopher Nolan
Críticas GeraisHá muitos anos não se via uma comoção popular tão grande em torno de um filme que não fosse uma grande sequência, um reboot ou uma adaptação de alguma obra já famosa, mas que conseguisse mobilizar o público simplesmente por carregar o nome de seu diretor. Embora casos mais recentes tenham mostrado que isso ainda é possível, o último exemplo que me vem à mente é Oppenheimer (2023), curiosamente também dirigido por Christopher Nolan. Agora, o cineasta parece repetir o fenômeno e retomar essa verdadeira loucura coletiva em torno de um lançamento, levando o público aos cinemas e esgotando ingressos como se estivéssemos diante de um novo e grandioso filme da Marvel ou da mais aguardada turnê de uma diva pop.
Baseado na famosa obra homônima de Homero, A Odisseia, de Christopher Nolan, acompanha a jornada de retorno do guerreiro Odisseu (Matt Damon) após lutar na grande Guerra de Troia. Em sua longa viagem de volta para casa, ele enfrenta monstros, a fúria do mar e os caprichos dos deuses gregos, enquanto luta para cumprir a promessa de retornar a Ítaca com toda a sua tripulação. Enquanto isso, sua esposa Penélope (Anne Hathaway) mantém viva a esperança de reencontrar o marido com vida, ao mesmo tempo em que enfrenta a crescente pressão para se casar novamente, principalmente por parte do arrogante Antínoo (Robert Pattinson). Diante de tudo isso, Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu, que cresceu sem jamais conhecer o próprio pai, decide enfrentar os perigos do mar em busca de respostas, determinado a descobrir onde ele está e trazê-lo de volta para casa.
De todos os diretores que poderiam adaptar hoje o poema de Homero com a capacidade e a grandiosidade necessárias, é possível contar nos dedos aqueles que fariam isso. Com certeza, anos atrás, Christopher Nolan não estaria entre os nomes mais cotados. Embora seja constantemente comentado por sua obsessão com o realismo e por sua tendência a se distanciar de elementos fantásticos e fantasiosos, é difícil imaginar como um cineasta com esse perfil adaptaria uma história repleta de Cíclopes, feiticeiras, sereias e tantas outras criaturas mitológicas. É justamente isso que faz A Odisséia ser um grande acerto e se apresentar como um possível candidato a um dos melhores filmes de sua carreira. Com uma filmografia repleta de obras grandiosas, Nolan nos faz questionar se seu vício em realismo não foi justamente o que tornou parte de sua produção excessivamente sisuda e, para alguns, superestimada. Afinal, estamos falando de um diretor que chegou ao ponto de transformar até mesmo um bilionário vestido de morcego em algo plausível dentro da realidade.
Embora se arrisque muito mais do que em qualquer outro momento de sua carreira, Nolan continua colocando seus maneirismos nesse novo filme e, por isso, não seria errado dizer que A Odisséia carrega seu DNA do início ao fim. Depois de transitar por gêneros como suspense psicológico, ficção científica, drama e ação, parece que o cineasta finalmente encontrou uma história em que todas as suas obsessões funcionam de maneira clara e orgânica, resultando em uma obra tecnicamente grandiosa, mas, acima de tudo, intrigante e divertida para quem a assiste.
Então, sim: temos mais uma vez um homem protagonista que passa boa parte das quase três horas de filme preso aos próprios pensamentos e às culpas por aquilo que fez no passado. Nesse sentido, o Odisseu de Matt Damon dialoga diretamente com o Oppenheimer de Cillian Murphy, mas também é possível enxergar ecos dos protagonistas de A Origem, Interestelar, Dunkirk e até mesmo do primeiro filme do diretor, Amnésia, em que a mente humana está justamente no centro da narrativa. Em Oppenheimer e A Odisséia, vemos dois homens que acabam presos em suas próprias psicologias, orbitando um vazio e uma ideia que os afundam em suas melancolias e os destroem aos poucos, muitas vezes sem que percebam. É nesse ponto que Christopher Nolan acerta em cheio: ao compreender que a realidade que ele tanto valoriza também pode estar na maneira como seus personagens sentem, pensam e se perdem dentro de si mesmos. É justamente por meio dessa perspectiva que ele consegue aproximar o público de um personagem criado há mais de três mil anos e torná-lo, ainda que difícil, identificável.
Dessa forma, parece que todos os anos de sua carreira foram uma espécie de preparação para que o cineasta finalmente adaptasse uma história que influencia até hoje a maneira como as pessoas vivem e enxergam o mundo e a sociedade. Seu realismo, que em alguns de seus filmes repletos de tecnologias e orçamentos estratosféricos parecia limitar as possibilidades de imaginação e afastar o espectador da própria realidade, dá lugar aqui a um abraço na fantasia — ainda que solene, contido e profundamente construído. O fantástico não surge apenas como espetáculo, mas como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento da narrativa. Cenas como a do Cíclope e a sequência dos porcos se tornam alguns dos grandes momentos de tensão e criatividade do filme, mostrando que, amado ou odiado, Christopher Nolan é, inegavelmente, um cineasta extremamente talentoso e dedicado.
Se os maneirismos de Nolan são responsáveis por alguns dos grandes acertos do filme, também são eles que evidenciam seus velhos problemas. Os diálogos expositivos continuam insistindo em explicar e anunciar ao público determinadas informações de maneira excessivamente explícita e repetitiva. O roteiro, em alguns momentos, também parece andar em círculos, enquanto outra fragilidade recorrente do diretor permanece: sua dificuldade em escrever personagens femininas. É verdade que existe uma melhora considerável nesse aspecto, mas Nolan ainda parece depender da força de suas atrizes para preencher lacunas que o próprio texto não consegue sustentar. Felizmente, ele conta com um elenco feminino excepcional. Anne Hathaway, Samantha Morton, como Circe, e Lupita Nyong'o, interpretando Helena e Clitemnestra, são extraordinárias e dominam cada cena em que aparecem. As duas últimas, aliás, têm pouco tempo de tela, mas deixam uma impressão tão forte que é difícil sair do filme sem carregar suas imagens na memória. Hathaway, por sua vez, entrega uma Penélope forte e imponente, em uma atuação intocável que mostra, mais uma vez, a capacidade da atriz de elevar qualquer material que recebe.
Se fosse para citar outros escorregos, os de sempre também aparecem: a montagem talvez seja o principal deles. Nos primeiros minutos, a sucessão de cortes é particularmente problemática e prejudica uma escolha de direção que, por si só, é bastante interessante: a decisão de não revelar imediatamente o protagonista. A ideia funciona conceitualmente, mas perde força diante de uma edição que, em alguns momentos, parece não encontrar o ritmo adequado. Somada a uma trilha sonora impactante, essa montagem faz com que determinados trechos do filme assumam a aparência de um grande trailer, priorizando o impacto momentâneo em detrimento da construção da cena. Felizmente, são escolhas que acabam sendo superadas pelos inúmeros acertos da obra.
Christopher Nolan merece todos os louros por seu mais novo longa. Trata-se de um trabalho especialmente difícil: uma produção de longa duração, com dezenas de personagens, diferentes linhas temporais, um elenco estelar e a responsabilidade de adaptar um dos maiores clássicos da literatura. Ainda assim, tudo parece se amarrar de maneira primorosa. É interessante pensar também sobre a sociedade que recebe um filme como esse nos dias de hoje. Quando chegamos ao monólogo final de Odisseu para Penélope, pouco antes de sua revelação e do esclarecimento sobre quem é a ameaça mencionada no início do filme, percebemos como Nolan parece interessado em discutir questões como guerra, violência, poder, política e suas consequências, colocando todas essas reflexões nas mãos de um protagonista complexo e profundamente marcado por suas próprias escolhas.
A tristeza surge quando percebemos que muitas das milhares de pessoas que já assistiram ao filme talvez sequer se disponham a refletir sobre essas questões. Em vez disso, parte do público prefere transformar as redes sociais em palco para atacar a escolha de uma mulher negra para interpretar Helena de Tróia, uma personagem mitológica tradicionalmente descrita por sua beleza extraordinária, como se essa escalação fosse um problema. É lamentável que Nolan tenha alcançado o nível de popularidade mencionado no início deste texto justamente porque, ao mesmo tempo em que sua obra tenta abrir espaço para discussões — ainda que de maneira tímida — sobre temas tão complexos, uma parcela do público reduz toda essa conversa a preconceitos que já não faz questão de esconder. No fim, talvez esse seja um dos maiores paradoxos de A Odisséia: um filme sobre os ciclos de violência e destruição da humanidade sendo recebido, por alguns, com a reprodução dos mesmos preconceitos que a própria história parece tentar questionar.










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